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Rascunhando numa noite de abril


















Que existam cores:
azul, amarelo, branco,vermelho e verde!
Que existam sons:
soprano, baixo,trompa,oboé!
Que existam línguas:
vocábulos,versos,rimas,
delicadeza de acordes,
marcha e dança de sintaxes!
Quem com tais jogos brincou,
quem seus encantos provou,
terá sempre a sorrir-lhe e a encaminhá-lo
o coração e os sentidos.

O que amaste e desejaste,
o que sonhaste e viveste,
faz parte do teu saber:
foi deleite ou sofrimento?
Lá-bemol, sol-sustenido,
mi-bemol, ré-sustenido:
pode isolá-los o ouvido?


Hermann Hesse - in Andares

Adágio




















Repõe o sonho o que o dia consome;
à noite, quando a vontade sucumbe,
afloram forças libertas
acompanhando divinos pressentimentos.
Murmuram bosque e rio, e através da alma esperta
um relâmpago cruza o céu de azul de noite.
Dentro e fora de mim
é o mesmo: somos um, o mundo e eu.
A nuvem flutua em meu coração,
sonha meu sonho o bosque,
contam-me a casa e a pereira
as esquecidas sagas de uma infância comum.
Em mim ressoam rios e ensombram-se barrancos,
são companheiras íntimas a lua e as estrelas pálidas.
E a benfeitora noite
que sobre mim se inclina com nuvens macias
tem o semblante de minha mãe,
e sorrindo me beija com amor inexaurível,
sonhadora balança como nos velhos tempos
a adorável cabeça, e seus cabelos
pelo mundo flutuam, e estremecem
em palidez inquieta as milhares de estrelas.


Hermann Hesse


Perdimento


















Sonâmbulo tateio entre bosques e barranco,
há um halo de magia aceso ao meu redor:
sem reparar se sou bem aceito ou maldito,
sigo à risca o meu próprio mandato interior.

Quantas vezes veio chamar-me a realidade
em que vós existis, para me comandar!
Dentro dela eu ficava assustado e sem forças,
e logo descobria um jeito de escapar.

Ao meu país ardente, do qual me privais,
ao meu sonho de amor, do qual me sacudis,
como as águas retornam sempre para o mar
também meu ser retorna usando mil ardis.

Amigas fontes guiam-me com seu cantar,
aves de sonho as plumas de luz a ruflar:
de novo faz-se ouvir o som da minha infância
- em áurea rede, ao doce zumbir das abelhas,
junto de minha mãe volto enfim a me achar.



Hermam Hesse - In Andares

Ás Vezes




















Às vezes, quando algum pássaro chama
ou entre os ramos algum vento sopra
ou nalgum pátio longe ladra um cão,
por longo tempo eu escuto e me calo.

Minha alma voa para o passado,
para onde, há mil esquecidos anos,
o pássaro e o vento que soprava
mais pareciam meus irmãos e eu.

Minha alma faz-se uma árvore,
um animal, um tecido de nuvens...
Transfigurada e estranha, volta a mim
e me interroga. Que resposta lhe darei?



Hermann Hesse - In Andares

Linguagem

























O sol nos fala com luz; com cor
e com perfume nos fala a flor;
com nuvens, chuva e neve nos fala
o ar. Há no sacrário do mundo
um incontido afã de romper
com a mudez das coisas e expor
em gesto e som, em palavra e cor,
todo o mistério que envolve o ser.
A clara fonte das artes flui
para a palavra, a revelação;
para o mental flui o mundo, e aclara
em lábio humano um saber eterno.
Pela linguagem a vida anseia:
em verbo, cifra, cor, linha som,
conjura-se a nossa aspiração
e um alto trono aos sentidos ergue.
Como na flor o vermelho e o azul,
na palavra do poeta volta-se
para dentro a obra de criação,
sempre a iniciar-se e e acabar jamais.
Onde palavra e som se combinam,
e soa o canto, a arte se revela,
e cada cântico e cada livro,
cada imagem, é uma descoberta
- uma milésima tentativa
de cumprimento da vida una
A penetrar nessa vida una
vos chama a música, a poesia:
para entender a criação vária,
já e bastante um olhar no espelho.
O que confuso antes parecia,
é claro e simples na poesia:
a nuvem chove, a flor ri, o mudo
fala - o mundo faz sentido em tudo.



Hermann Hesse - In Andares

Transitoriedade




















Cai-me da árvore da vida
Folha por folha,
Oh mundo, vertigem colorida!
Como me sacia,

Como sacia e cansa
Como me inebria!
Hoje a chama mansa
Logo jaz em sombra fria.

Em breve zune o vento
Sobre minha cova rubra,
Sobre seu rebento
A mãe se debruça.

Os olhos dela quero rever,
Seu olhar é minha sorte,
Tudo pode partir e se perder,
Tudo morre, tudo tende à morte.

Só a grande mãe é eterna,
Seu ventre nos fez homem,
Seu dedo rabisca feito pena
No céu fugaz nosso nome.



Vergänglichkeit

Vom Baum des Lebens fällt
Mir Blatt um Blatt,
O taumelbunte Welt,
Wie machst du satt,

Wie machst du satt und müd,
Wie machst du trunken!
Was heut noch glüht,
Ist bald versunken.

Bald klirrt der Wind
Über mein braunes Grab,
Über das kleine Kind
Beugt sich die Mutter herab.

Ihre Augen will ich wiedersehn,
Ihr Blick ist mein Stern,
Alles andre mag gehn und verwehn,
Alles stirbt, alles stirbt gern.

Nur die ewige Mutter bleibt,
Von der wir kamen,
Ihr spielender Finger schreibt
In die flüchtige Luft unsre Namen.



Hermann Hesse
Cadernos de Literatura em Tradução, nº. 11, USP, p. 277-280.

Fuga da Juventude

















Fatigado o verão dobra a cabeça
e olha no lago a sua imagem descorada.
Fatigado e coberto de poeira
vou pelas alamedas sombreadas.


Entre os olmos perpassa um vento tímido.
Atrás de mim tenho o vermelho céu
e à minha frente receios da noite
e crepúsculo e morte.


Vou fatigado e coberto de pó:
atrás de mim, hesitante, de pé,
a juventude abana a linda cabeça
e prosseguir comigo não mais quer.


Hermann Hesse

Degraus




















Assim como as flores murcham
E a juventude cede à velhice,
Também os degraus da Vida,
A sabedoria e a virtude, a seu tempo,
Florescem e não duram eternamente.
A cada apelo da vida deve o coração
Estar pronto a despedir-se e a começar de novo,
Para, com coragem e sem lágrimas se
Dar a outras novas ligações. Em todo
O começo reside um encanto que nos
Protege e ajuda a viver


Serenos transponhamos o espaço após espaço,
Não nos prendendo a nenhum elo, a um lar;
Sermos corrente ou parada não quer o
espírito do mundo
Mas de degrau em degrau elevar-nos e aumentar-nos.
Apenas nos habituamos a um círculo de vida,
Íntimos, ameaça-nos o torpor;
Só aquele que está pronto a partir e parte
Se furtará à paralisia dos hábitos.


Talvez também a hora da morte
Nos lance, jovens, para novos espaços,
O apelo da Vida nunca tem fim ...
Vamos, Coração, despede-te e cura-te!


Hermann Hesse

Em algum lugar















No deserto da vida eu erro e ardo
a gemer sob o peso do meu fardo,
mas em algum lugar quase esquecidos
sei de frescos jardins em sombra e em flor.


Em algum lugar, nos confins do sonho,
sei que um abrigo vela
onde a alma volta a ter pátria
e estão a espera o sono, a noite e as estrelas.


Hermann Hesse

Allegro





















Nuvens esgarçam-se; do céu em brasa
errante luz bruxuleia sobre vales ofuscados.
Pando com o vento quente procela
fujo a passo incansável
Atravessando uma vida nublada.
Ah, se por um instante
ao menos, entre mim e a luz eterna
uma propícia borrasca soprasse o cinzento nevoeiro!
Estrangeira é a terra que me cerca:
leva-me longe, arrancado da pátria,
de um lado para outro o poderoso vagalhão do destino.
Vamos, vento: corre com essas nuvens,
rasga esses véus
para que a luz me possa cair sobre os incertos atalhos!


Hermann Hesse

Canto Mínimo















Poesia de arco-íris,
magia de luz morrendo,
felicidade em musica diluída,
paixão no rosto da Virgem,
êxtase amargo da vida...


Flores batidas pela tempestade,
grinaldas postas sobre sepulturas,
alegria que não dura,
estrela que cai no escuro:
véu de beleza e de luto
sobre a voragem do mundo.


Hermann Hesse

Folha murcha





















Para o fruto tende a flor,
para a tarde o amanhecer:
nada é eterno na terra
- salvo o mudar e o des-ser.


Mesmo o mais belo verão
há de em outono murchar:
tem paciência, folha, espera
vir o vento te buscar!


Faz teu papel sem teimar:
suceda o que suceder,
deixa o vento te arrancar
e em tua casa te deixar.


Hermann Hesse

En la niebla



















¡Qué extraño es vagar en la niebla!
En soledad piedras y sotos.
No ve el árbol los otros árboles.
Cada uno está solo.

Lleno estaba el mundo de amigos
cuando aún mi cielo era hermoso.
Al caer ahora la niebla
los ha borrado a todos.


¡Qué extraño es vagar en la niebla!
Ningún hombre conoce al otro.
Vida y soledad se confunden.
Cada uno está solo.


Hermann Hesse

Ramo em Flor

















Para cá e para lá
sempre se inclina ao vento o ramo em flor,
para cima e para baixo
sempre meu coração vai feito uma criança
entre claros e nebulosos dias,
entre ambições e renúncias.
Até que as flores se espalham
e o ramo se enche de frutos,
até que o coração farto de infância
alcança a paz
e confessa: de muito agrado e não perdida
foi a inquieta jogada da vida.


Hermann Hesse

Montanhas dentro da noite



















O lago está apagado,
escuro dorme o canavial
a resmungar em sonho.
Espalham-se terríveis sobre a terra
as longas ameaças das montanhas:
elas não tem descanso,
respiram fundo e ficam
umas de encontro às outras apertadas,
num surdo respirar,
carregadas de forças abafadas
sem remissão numa paixão insaciada.


Hermann Hesse

De um andar noturno



















Tempestade, chuva oblíqua,
negreja a pradaria,
solenes sombras de nuvens
fazem-nos companhia.


De um vão entre escuras nuvens
súbito a se iluminar
a noite esgueira-se e espia
plena de luar.


Límpidas ilhas do céu,
estrelas sóbrias saúdam;
ao luar, fímbria de nuvens
em rios de prata ondula.


Alma, prepara-te, alma!
Das trevas do tempo,
irmãos de longe te acenam
com pisos de ouro.


Alma, responde ao sinal:
banha-te no espaço!
Deus guiará para a luz
teus obscuros passos.


Hermann Hesse

Gôndola





















No alto, o azul e o fogacho do sol;
em baixo, o rio eternamente calmo;
sobre a quilha ligeira e graciosa,
coisas de amor e instrumentos de cordas.


Recatados e escuros são teus bordos,
mas com doçura o momento se curte;
estranho e doce é o sonho da morte,
do fim do amor e da juventude.


Rumo a desconhecidos objetivos
meus jovens anos deslizando vão
-como tu, leve e graciosa gôndola,
por luminosa e amável amplidão.



Hermann Hesse

Entrada de Primavera






















O vento quente zune toda noite,
pesadamente rufla a sua asa molhada.
Aves pernaltas titubeiam no ar.
Nada mais dorme:
toda a terra está acordada,
a primavera chama.


Fica quieto, coração, fica quieto!
Mesmo que densa e íntima no sangue
agite-se a paixão
e caminhos antigos te seduzam:
de volta à juventude jamais te levarão.



Hermann Hesse

Sofrimento























O sofrimento é um mestre que nos vem
apequenar, fogo que nos abrasa
miudamente: isola-nos da vida,
empareda-nos e nos deixa só.


Amesquinham-se amor e sapiência,
confiança e esperança se adelgaçam
e fogem; com paixão ciumenta e rude,
o sofrimento nos faz e desfaz.


O eu - forma terrena - se contorce
e se bate e resiste em meio às chamas,
depois todo se afunda e silencia;
e eis que também o mestre renuncia.


Hermann Hesse
Tela A. P. Tkachev - DigitalOmania Nelson Aharon Bibow

Passeio à noite


















Bem tarde passeio pela empoeirada rua,
A sombra dos muros já se alongam,
Por entre videiras vejo a lua
caindo sobre o riacho e o caminho.


Canções, outrora entoadas,
Baixinho tento afinar,
Inúmeras caminhadas
Sombras a me encruzilhar.


Vento e neve, calor do sol
Tantos anos me recordam,
Noite de verão, raio azul
Na viagem desventura e tormenta.


Bronzeado e possuído
Pela imensidão desse mundo
Sinto-me ainda atraído
Até meu caminho cair no escuro.


Hermann Hesse

O Tempo seca o Amor

O tempo seca a beleza, seca o amor, seca as palavras. Deixa tudo solto, leve, desunido para sempre como as areias nas águas. O tempo seca a ...

Nos últimos 30 dias.