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Aos que caminham






















essa dança que faço é comigo,
o espelho colocado ao in
verso no solo
solto e suspenso
com esses arames bambos por onde despenco

o ofício do corpo:
essa dança no quarto,
passagem

o ofício das horas: escorrer
pelo olho através da rachadura
atraído
de ilhar

se é vão de certeza
no ofício de existir ao
contrário de tantos em
resposta: vou espuma

desarmei os gatilhos
mas restou-me tuas vestes
que hei de pendurar como bandeira
no ofício da morte:
saber de todos os meus caídos

mergulhada na terra
cavando da sorte
- vestida de amor e lutas
no ofício do sonho

Patricia Porto

Geleira













nem todos os dias são de cólera
alguns são de esfumaçada coragem
contra o frio da cólera

o enforcado pode durar
bem mais que supúnhamos
eu, você, toda gente

há notícias que numa vasta manhã
o gelo começou a derreter
num ponto azul da terra
e era um gelo conhecido das guerras

quando terminamos uma dolorosa travessia
ninguém nos abraça ou nos oferece festejo
nossa testemunha solitária
escreve um bilhete, um poema na geleira
e uma onda de alegria
se revela miúda, silenciosa

ainda assim quebra a vidraça, as emergências
atravessa os tímpanos
contrai a carne de dentro até o susto
de permanecer viva

Patricia Porto

Leite de cabra














mamãe me deu leite de cabra,
não quis dar do peito pro bico continuar durinho

leite de cabra era doce
distante dos meus amargos

mamãe bebia, fumava, dançava até ficar doida
me prendia de castigo num quarto sem janelas
castigo por eu ter aquela cara de marmota
- enjoada que nem devia ter nascido - ela dizia

um dia me chamou de manso: parecia carinho
- pega lá, menina, aquela tesoura
peguei, achei que era gesto pra ficar bonita que nem ela
esse cabelo aqui você gosta? O bafo da bebida me aquecia o rosto
gosto sim, mãezinha. Então passou a tesoura, tão rente do casco
que estremi, cortou a franja, não deixou notícia de menina na cabeça
assim fica melhor, disse entre a fumaça do cigarro
não vai pegar piolho
parece menino, que era o que devia ser

leite de cabra veio quente na boca,
tão doce que aguei


Patrícia Porto - Cabeça de Antígona (Reformatório,2017)

Psique e Eros

Escultura de Antonio Canova























transfusão e falta de qualquer sentido
na palavra sangue faz sinal de fim
O dia de dizer das horas todas
esmagando o frágil da flor para trás
o anjo da efêmera vontade futura
entre um corte de carne e outro
Nada de bússola
Origamis amassados, cacos nas mãos,
catafalco amar o incansável finito
do dito não
Voo rompido
Queda na boca que não bebo memória

Da dor de abismo o mapa que não nasceu
dos condenados, não brotou vida
de nós entre os outros ainda mais cansado
A lágrima única guarda
ponteiros que te dediquei – são estilhaços
Morta de fome cai a salga mediterrânea
Morta de vida me mata na clandestinidade

Sofro de tardios e
efêmeros
Morre em mim o sim e o outro também
O espelho que nasceu quebrado de azar
entre meus punhos vão enterrados na terra
sete mais sete mais sete palmas

Sofro de extremistas
e eles me abatem no céu
em pleno voo
sem nenhuma misericórdia, amor


Patricia Porto

TÃO ÍNTIMO
















Minha porta: olho no olho.
Ela tão crespa, uma onda, um veludo verde.
Era montanha, uma terra firme, uma noite e o cisco.
Outro dia de caos e os cães ali ladrando,
a cidade fria de novos açoites, o frio da alma esquina
O olhar vazio dela
era meu vestido de renda chinesa.
A cidade crua de gente era uma nudez de passagem.
O fio trágico, o fino pano, o meio frio dentro de nossos pés,
os pés nus das estátuas de gesso.
O copo dele vazio de farsas
no meu sorriso de avisos, reclames, faz desamores bestiais.
A cidade anoitecendo, a terra ficando mais firme
era a semente, dor de respirar fundo... um raio x
O cheio dela é que esvazia
e vai de espantos me encher (ar, preciso de ar...):
é uma sede num dialeto, espiral
de uma língua da mais fina trama.
Tudo tão istmo... que me esperanto.



Patrícia Porto - Cabeça de Antígona

Casa Velha



















esse poema é uma casa com vista para os fundos
nele há notícias velhas de escombros
uma parede infiltrada
arranhões e fraturas

parece um poema antigo desabitado
mas é só um poema em demolição

casa pequena posta abaixo
para a construção insalubre
de um arranha céu
na garganta
feito nó
apertado
- uma cinta


Patrícia Porto - Cabeça de Antígona

O Tempo seca o Amor

O tempo seca a beleza, seca o amor, seca as palavras. Deixa tudo solto, leve, desunido para sempre como as areias nas águas. O tempo seca a ...

Nos últimos 30 dias.