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O Operário e o Marinheiro













E o operário, carvão que alimenta as usinas
Força, combustão usada nas oficinas
Ser bruto que habita em obscuras minas
Escravos das horas como uma máquina humana
Preso a um salário de semana
que ao seu trabalho profana
por seu valor mísero e curto
E o patrão de meios escusos
já que possui muitos recursos
com a esperteza de quem sabe furtar
consegue dividir ou enganar?
Um salário p'ra três, e conseguindo escravizar
ao operário que sem dinheiro
como um bom marinheiro continua a navegar
Pois melhor um navio pobre do que ficar longe do mar
E assim sendo, o solitário marinheiro
navega, navega, navega...
com seu estômago vazio
com sua alma vazia
mas com seus olhos cheios de águas
Águas do mar
Nada, nada, nada...
pois acabou o combustível
E quando reclama
nada, nada, nada...
pois acabou o mar
O mar secou.


Henrique Rodrigues Soares - Sociedade dos Eremitas

Saudades

















O mar se achega a terra
como quisesse consolo
como quisesse enxugar suas lágrimas
como um companheiro cheio de saudade
como quisesse consumir
com fúria
agredindo, penetrando,
irmanando pela terra.

Tua espuma num encontrar de lábios
florescidos
Umedecidas glândulas salivares
O teu sal de desgosto
O teu frio de solidão
O teu amargo de saudade
Ah! Espuma branca, pacífica,
sinal de evasão
O teu sentimento indevassado.


Henrique Rodrigues Soares - Sociedade dos Eremitas

Estado Terminal



















Lembrança de vida imaculada
sem vícios, precisa,
guardada na espera
do amor que não veio

Este meu coração submisso
esperou por teus olhos
por décadas de solidão

O mundo me deixou cair
em soluços e deserto
E me levantei como sol no inverno
apenas por obrigação
Aonde você está?
que não te vejo
Sinto agora o tempo perdido
com palavras suaves

Sinto a vaidade sagrada
que cultivei
Os casulos ranzinzas
que morei

Me deixei
no cálice do esquecimento
que caiu
e se quebrou.



Henrique Rodrigues Soares - Sociedade dos Eremitas

Religiões



















Deus? Deuses?
Um? Milhares?
Todos num só, ou todos com todos?

Culpados ou inocentes?
Criadores ou criações?
Escravizadores ou escravizados?
Destruidores, vingativos ou libertadores?

Símbolo da fé humana
tão humana, por isso, tão frágil
Deuses humanos
a nossa imagem e semelhança,
ou vice-versa
Nacionalistas e tiranos
com o tempo
alguns viraram poeira
alguns fortaleceram-se
outros apareceram.

E os homens escolheram
um, três, três em um
para ser adorado pela maioria
Mas o homem, já que a fé é humana
confundiu e confundiu-se
criando a religião
que é humana (por isso cheia de erros)
versificada
versificou
milhares de teoria sobre um mesmo Deus
Que assim acabou tornando muitos
que são ao mesmo tempo
um só.

E o homem
na sua eterna cegueira
continua procurando
um culpado para tudo isso.



Henrique Rodrigues Soares - Sociedade dos Eremitas

Sensações II

















Sou como a nuvem
passageira e suave no azul do céu
Não espero nada de ninguém
Não quero que esperem de mim
Quero sossego para olhar a vida
com meus olhos.
Com meus próprios olhos.

Quero enxergar o fio da vida
que arrebenta com o findar das horas
Pois a vida não é mais do que isso
Um fio infinito que não se vê
apenas posso senti-lo sua negra decomposição em mim
À hora é sua maior inimiga
Você nunca convencerá
Pois ela é sua dona

Não siga o caminho negro
nem o caminho branco
Pois não há caminhos para quem vive
apenas a morte
E nesta noite calada
teu carinho me sustenta, vivo,
ou quase vivo
Não tenho mais certezas
A escuridão é dúvida
e só vejo escuridão
Tua alma é escura
como a alma de qualquer mulher.



Henrique Rodrigues Soares - Sociedade dos Eremitas

Amor Recondicionado



















O teu brilho que até ontem se perdera
de fulgor e glória está de volta
O teu riso que não houvera
Hoje anda, e perfuma à solta


O teu corpo sacia meus olhos
da sede que resseca
minha boca seca
Fiquei muito tempo
te esperando
me consumindo
quase sumindo
vendo o tempo findo
pois a vida acabara
e eu te esperando


Mas como um cão fiel
O corpo espera seu dono
Passa verões e outonos
Já estou sentindo sono
Mas só irei se for pro céu


Então como despertar do inesperado
Vejo meu coração alimentado pela matéria
E o coração recondicionado
bombeia sangue renovado
por veias e artérias.


Henrique Rodrigues Soares - Sociedade dos Eremitas

Vida Difícil

















Se puta ganha seu ganho
com pernas que andam
com pernas que arreganham
e abraçam o mundo.

Se o desejo é imundo
aos olhos do mundo
Então respire profundo
e se perca sem perdoar.

Se teu corpo não se acanha
Se a moral não tem vergonha
Se tuas máscaras não desabam
Se teu rosto não perde o disfarce
De quem tens medo?
Se no mundo não existe segredos.


Henrique Rodrigues Soares - Sociedade dos Eremitas

Mistérios

























Nasci, um molequinho
Conquistando e sendo conquistado
pelo natural, sobrenatural, artificial, superficial
Um céu de incertezas e dúvidas
Montanhas de mistérios
A vida é realidade
A vida é mágica
é mentira, é vaidade

Nasci, molequinho
mas não sei se chegarei a ser velhinho
Cheio de sabedoria, burrice, loucura,
será que chego lá?
Vivo o máximo que posso
Pois a vida é longa, e é curta.



Henrique Rodrigues Soares - Sociedade dos Eremitas

Meditações

















Tua voz ecoa em meus neurônios
sinto o esvaziar do tempo
Montanhas nos cercam
tentando nos destruir
Te levo na minha proteção para as virgens nuvens brancas
A terra e o mar
se enfurecem
e disputam cada centímetro do planeta
E nós daqui olhamos
os dois meninos mimados
que se eternizam numa guerra ocupacional.


II
A madrugada é morta e solitária
e o teu seio estremece com o frio
que congela as esperanças
Meus anseios me perturbam
perturbam no desejado
Me prendo em metas
e me derramo em desculpas
Me constipei a chorar das dores tranquilas
Sou um bom masoquista.


Doces mentiras podem vir de um copo de vinho
mas a verdade engasga, e ás vezes mata
A mente deterioriza o próprio corpo
como um senhor maldito
que escraviza e judia seu mais fiel servo
A mente trama loucuras e o corpo padece.


III
Teus ideais brilham
com a aurora da vida
Mas com o chegar da noite
a morte crucifica teus sonhos
e rasga tuas roupas
e te deixa nu,
sozinho


O vento te agride
O tempo te envelhece
matando o que você conquistou.


Henrique Rodrigues Soares - Sociedade dos Eremitas

O trabalhador e a cidade pequena

















Cidade pequena
onde o trabalhador dorme,
quando consegue dormir?
Ligado a cidade grande
pelo trem
que como corrente do rio
carrega tudo que está na sua frente

E o trabalhador
água que segue seu curso
ao oceano
para buscar uma força
seu sustento

Como o rio que não pára
lá vai o trabalhador
em sua jornada
E a cidade pequena
como uma margem
fica a margem
a margem do rio
a margem da vida
a margem do trabalhador.



Henrique Rodrigues Soares - Sociedade dos Eremitas

Amor Demitido

























Vãs palavras falei ao teu ouvido
Sussurrando desejos proibidos
Teu arcano tornou-se tua arma
E minha fraqueza meu carma


Os teus sonhos terapia de vida
Perdidos num antártico verão
Tuas mentiras tornaram-se bebidas
para alimentar esta física ilusão


Amor que agoniza
Amor que tira sangue
e que deterioriza
Amor que te deixa perdido
estúpido... incompreendido
pelo mundo que rodeia


Demitido... aviso prévio
Justa causa pode ser
Mas meu coração não aceita
Peço que volte e fique
e tire este ardoroso tédio
que não consigo mais vencer.


Henrique Rodrigues Soares - Sociedade dos Eremitas

Um quadrado

















O pavor, o medo
A angústia percorre pelos corredores
Artérias e veias
se contorcem, se dilatam,
perderam o controle da sua proporção
O passado se revolta
destruindo o futuro
O futuro dos teus planos


Não me permito sonhar
apenas tenho pesadelos
Minha tempestade me cobra
porque deixei de enfrentá-la
Fui corajoso em me tornar covarde
Escravo dos horizontes que me alinhei
Escravo dos medos que temi
Escravo dos tabus que criei


Sou poligonal
Contenho minha covardia
me escondendo na pedra de Drummond.


Henrique Rodrigues Soares - Sociedades dos Eremitas

Sonhando Acordado

















Dormir... Dos sonhos é a fonte
que não pára de jorrar
e do cansaço é a ponte
para quem quer descansar.
Quem vive de sonhos... Loucura
se torna a explicação
dinheiro, riquezas, fartura,
castelos de ilusão.

Acordar... Torna-se amargura
para quem na vida tem que lutar
a vida real torna-se dura
quem na vida não pode sonhar,
A muitos que sonham passado
pois não pode se libertar
deste pesadelo fardado
que os conseguiu escravizar.


Henrique Rodrigues Soares - Sociedade dos Eremitas

O Amante da Velocidade















Veloz como um pássaro.
Veloz como um supersônico.
A cada curva uma aventura.
A cada volta uma luta
contra a morte
contra o incompreensível
contra o inatingível.
Inatingível? Para muitos,
menos para você.
Recebeste o dom da velocidade,
o dom de centésimos... milésimos...
Volante indomável.
Em seu casco solitário.
Nosso the Flash brasileiro.

Tão brasileiro que nos comoveste
a nos vestirmos de um orgulho nacional,
que tantas vezes ficava perdido
nos armários do emocional.

Viveu, correu, correu, viveu...
morreu... Em alta velocidade
naquela curva que calou um país,
toda uma nação.


Os roncos dos motores
nunca mais serão os mesmos.
As manhãs de domingo
nunca mais serão as mesmas.
As grandes vitórias, os grandes recordes,
o teu show pela chuva
nunca mais veremos.
Saístes das telas e dos autódromos
corre agora em nossas veias
em nossos sentimentos.

Então, nesta saudade choramos
rápido demais foi-se o nosso campeão.


01/05/1994


Henrique Rodrigues Soares - Sociedade dos Eremitas 
Uma homenagem ao eterno Ayrton Senna do Brasil

A Infância



















Quando era criança queria ser grande
Quando se é grande quer ser pequeno
Ainda me lembro de quando menino
apenas sonhava
Pesadelo é coisa de homem barbado.

Dirigia ônibus, era médico, matava ladrões,
governava o mundo, salvava as pessoas,
até podia ser um bom vilão.
Morria de brincadeirinha
quando se cresce vê que a morte não é brincadeira
Vivia de brincadeirinha
o mundo era um pequeno brinquedo
que minha inocência dominava.

Então cresci, e me perdi
pois o mundo tornou-se grande demais para mim
Quanto mais cresci
menor me tornei diante do mundo.
Meu coração virou um pequeno brinquedo
na mão de crianças más
então tudo aconteceu naturalmente
o ônibus me atropelou, o médico me maltratou,
fui acuado e dominado
não salvei nem a mim mesmo.
E o bom vilão?
Ah! Esse me matou.



Henrique Rodrigues Soares - Sociedade dos Eremitas

Poética

















Não faço versos
Eles apenas brotam na minha escuridão
e escorrem
suando
em minhas mãos,
e se entregam ao papel
É como uma fonte que mina na rocha
querendo encontrar seu destino.



Henrique Rodrigues Soares - Sociedade dos Eremitas

O acidente



















Pai!
Naquela noite senti a tua importância
no momento em que parecia te perder
senti o meu espelho quebrar
Meu espelho tão frágil
mas, no fundo duro como uma pedra

Este teu gênio de granito de rocha
Este teus cabelos brancos
Este teu rosto, teu corpo envelhecido
pelas duras lutas da batalha vida
escondem um diamante. Tua alma.


1991. 


Henrique Rodrigues Soares - Sociedade dos Eremitas 

Semente Embrionária














Minha mãe terra, meu pai agricultor
Arando com palavras belas e afáveis
o solo fértil
para receber as sementes

Semente embrionária
ali germinara
Em choro minha mãe me viu nascer
abrindo as portas do céu e do inferno para mim
Me dando calor no inverno
me guardando das dores geladas do mundo

Recebi dúvidas e incertezas como companhia
Andei, andei, andei...
e procurei, procurei, procurei...
por este mundo outro ser como eu
Então, te encontrei
Alguém melancólico como a mim
Teu ódio parecia ser meu

Então você me roubou
neste mundo inseguro
Do meu coração
o sentimento mais puro
O sentimento que nasce, germina
e amadurece até cair de maduro.



Henrique Rodrigues Soares - Sociedade dos Eremitas

As duas pombinhas



















a pombinha branca
e a pombinha cinza
voando pelo céu
num primeiro voo de liberdade


a pombinha branca
queria voar para bem alto
mas, tinha medo de suas pequenas asas não aguentar
a pombinha cinza
era realista
voava até o meio do caminho
sem pensar no desconhecido


a pombinha branca
tinha os olhos fascinados
pelo o brilho do infinito
já a pombinha cinza,
essa, voava baixo
com os pés perto do chão


um dia, a pombinha branca voou
e nunca mais voltou
viajou pelos seus sonhos
de céus, mares e terras
mas, a pombinha cinza, ficou
pela terra a fazer seu ninho
que nunca mais deixou.


Henrique Rodrigues Soares - Sociedade dos Eremitas
À Minhas Primas Edvânia e Edisandra.

A Cama
















Santuário de meditação
o oráculo de quem ama.
Meu esconderijo... Solidão
onde minha dor inflama.

Onde nasci e morri
tantas vezes... E tanto
enfermo quieto sofri
neste que é meu canto.



Henrique Rodrigues Soares - Sociedade dos Eremitas

O Tempo seca o Amor

O tempo seca a beleza, seca o amor, seca as palavras. Deixa tudo solto, leve, desunido para sempre como as areias nas águas. O tempo seca a ...

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