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Espelho























Espelho, espelho meu:
diga a verdade,
quem sou eu?

Se às vezes me estilhaço,
se às vezes viro mil,
se quero mudar o mundo,
se quero mudar o rosto,
se tenho sempre na boca
um gosto de água e de céu,
se às vezes sou tão só
quando me viro do avesso,
se às vezes anoiteço
em plena luz do sol
ou então amanheço
com vontade de voar,

espelho, espelho meu:
diga a verdade,
quem sou seu?


Roseana Murray

Moinho























São as águas
da delicadeza
que movem o mundo.

Uma palavra amorosa,
um gesto,
uma carícia,
fazem a Terra
mais azul
e mais leve,
trazem à pele
a memória mais antiga:

Também somos um grão
de estrela e de infinito.


Roseana Murray - in Manual da Delicadeza de A a Z

Máquina de costura


















A avó tem uma máquina
de costura
que foi da mãe da sua mãe,
da sua avó.

A avó pedala a máquina
e costura rendas na barra
dos vestidos,
costura um sol e uma lua
no bolso das camisas,
costura uma hora na outra,
um carinho no outro.

E o chão fica cheio de fios
e linha colorida
enquanto a avó vai costurando
amor.



Roseana Murray

Pular corda


















Se pudesse o menino pularia
corda
com a linha do horizonte,
se deitaria sobre a curvatura
da Terra
para sempre e sempre
saudar o sol,
encheria os bolsos
de terra e girassóis.
Mas chove uma chuva
fina

e o menino vai até a cozinha
fritar ideias


Roseana Murray

















Fazer poesia
não é costurar lantejoulas
num pano,
ou colar pedaços
quebrados de espelho
ou mesmo enfeitar
os cabelos com flores.
Fazer poesia é andar
a esmo
em busca de um poço
onde se debruçar
enquanto o mundo
ruge e se desfaz.
Fazer poesia é carregar
o mundo entre os braços,
seus estilhaços.


Roseana Murray

Receita de Olhar
















nas primeiras horas da
manhã
desamarre o olhar
deixe que se derrame
sobre todas as coisas belas
o mundo é sempre novo
e a terra dança e acorda
em acordes de sol

faça do seu olhar imensa
caravela


Roseana Murray

Para Fazer Poesia













O que é preciso para fazer poesia?
Antes de tudo, como dizia o Gullar, sentir o assombro correndo em nossas veias. Somos mortais e cada dia é único. Pode ser o último. Com esse sentimento amarrado em nosso corpo, certamente não deixaremos escapar nada. Nosso espanto é nosso alimento.
Em seguida, já que não posso desperdiçar nada, tenho que afiar o olhar como se afia uma navalha. Meus olhos tampouco podem deixar escapar nada.
E meus outros sentidos. Sendo poeta tenho que usar meu corpo como um bicho. Farejar e sentir. Nada pode ser desperdiçado. Não posso desperdiçar sensações.
Eu vejo as imagens à medida que vou escrevendo o poema. Eu as vejo e tenho que correr para que elas não escapem.
A minha respiração é a música do poema.
Sem música dentro do poema, alguma coisa deixará de funcionar.
E mesmo que o poema seja muito triste, alguma alegria terá que habitá-lo, será, digamos, a sua luz.
Eu busco alegria em tudo. Foi um longo aprendizado. Mesmo na dor. O poeta tem que gostar das palavras, das suas possibilidades. Quanto mais aberto o poema, melhor. Se você entende desse jeito e o outro de outro jeito, que bom. Uma palavra que vai se abrindo em leque, vai levando o leitor para várias direções...
E também dar de comer aos medos. Os medos podem ser grandes aliados, pois temos que domá-los, são nossos lobos. O poema também tem que ser domado. Quantas vezes for preciso, há que recomeçar, refazer, limpar, cortar.
Enfim, fazer poesia é viver em estado de poesia.


Roseana Murray


Silêncio

























Para caminhar sobre
a delicada ponte que leva
aos olhos do outro,
todo silêncio é pouco.

Para ouvir a música
que se desprende
de todas as coisas belas,
todo silêncio é pouco.

Para sentir na pele
o veludo de um jardim,
quando a noite
envolve o mundo em sua
rede de estrelas,
todo silêncio é ouro...

Para entender,
palavra por palavra,
a voz que vem do coração,
todo o silêncio é pouco.


Roseana Murray


Receita de acordar palavras



























palavras são como estrelas
facas ou flores
elas têm raízes pétalas espinhos
são lisas ásperas leves ou densas
para acordá-las basta um sopro
em sua alma
e como pássaros
vão encontrar seu caminho.


Roseana Murray

Janelas






















Em todas as janelas
me debruço,
em todos os abismos
estendo uma corda
e caminho sobre as águas,
subo em nuvens,
galgo intermináveis escadas.
Abro todas as portas
e cavernas com um sopro
ou três palavras mágicas.
Mergulho em torvelinhos,
danço no meio do vento,
pulo dentro da tempestade.
Em cada encruzilhada me sento
e tento arrumar o destino,
estranho castelo de areia.


Roseana Murray

Felicidades






















Pequenas felicidades
passeiam por nossos dias
como joaninhas na palma
da mão,
como um desenho de orquídea
trazido pelo vento.
Para não desperdiçá-las
há que estar sempre atento,
caminhar vagarosamente
pelos contornos da tarde,
encher os bolsos com a areia
dourada do tempo


Roseana Murray

Fadas e Bruxas



























Metade de mim é fada,
a outra metade é bruxa.
Uma escreve com o sol,
a outra escreve com a lua.

Uma anda pelas ruas
cantarolando baixinho,
a outra caminha de noite
dando de comer à sua sombra.


Uma é séria, a outra sorrí;
uma voa, a outra é pesada.
Uma sonha dormindo...
a outra sonha acordada.


Roseana Murray

Água Nascendo




















Fiz castelos de areia
sonhos de vento
abri cavernas no mar
construí segredos
teci com teias de luz
as mais delicadas
roupagens
inventei carruagens
adornadas de estrelas
para o dia
em que te encontrasse
e quando te vi
o amor era simples
o amor não pedia
nada mais
do que o milagre
da água nascendo.


Roseana Murray

No Campo




















Aproveita os nós desatados
o silêncio das águas perdidas
as fendas nas montanhas
aproveita as violetas entrecortadas
de desejo
os sinos soltos pela chuva
como sonhos desencantados
aproveita as caravelas invisíveis
assombrando as noites
os pios das corujas solitárias
aproveita os caminhos recém-abertos
por cogumelos escarlates
aproveita as rendas dos luares
de agosto
os rostos pontuando as sombras
aproveita os cavalos engravidando a terra
aproveita o peso escuro da terra
e tece teu poema


Roseana Murray

Azeite e Vinho












Ele sabe meus caminhos
mais secretos
minhas pedras cobertas
de limo
ele conhece a ossatura
do meu silêncio
e já subiu a bordo
dos meus pavores noturnos
ele já provou o sal
das minhas cordas marinhas
e no entanto às vezes
é como se fôssemos
azeite e vinho
cada um em sua noz
flutuando à deriva
na imensidão do planeta
cada um em seu aquário
de vazio e vidro
engarrafados para sempre
em nossa própria solidão.


Roseana Murray
Imagem da Internet

Desejo



















Quero asas de borboleta azul
para que eu encontre
o caminho do vento
o caminho da noite
a janela do tempo
o caminho de mim.


Roseana Murray

Invenções















Invento lugares de agosto
e auroras boreais
invento as noites mais frias
invento as noites mais quentes
invento crisântemos transparentes
guirlandas de silêncios minerais
invento algas cristalinas
cavernas de cristais
invento o que só com amor
se pode inventar
o que já foi dito mil vezes
e que sempre se dirá


Roseana Murray

Escrita

















Com seus labirintos vazios
o que dói é a vida
o destino desarrumando as esquinas


um mistério atravessa
nossos olhos distraídos
como um barco que invisível
cruzasse as montanhas


o que dói é a vida
e sua indecifrável escrita.


Roseana Murray

Dor e Alumbramento

























Viver é apenas isso:
um passo atrás do outro
e lógica nenhuma


o tempo suspenso
entre dois abismos
dor e alumbramento


as estradas sonoras
são as que levam para dentro.


Roseana Murray

Passaporte




















Essa dor que sinto
não é poesia
não é literatura
é como uma casa
de cal e osso
é como um sujo
na parede.


essa dor
é passaporte para a vida.


Roseana Murray
Imagem da Internet.

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