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Partida





















Já me desfiz de todos os guardados
e das lembranças que abrigava em mim.
Joguei ao vento, sonhos tão sonhados...
Tristeza, anseios... Tudo teve fim.


Álbuns com fotos dos meu bem amados...
E as conchas brancas, qual flor de jasmim.
Agora vou juntando meus trocados...
Já nada resta, nada mais... Enfim!


E desnudada de qualquer lembrança,
tendo nos versos a melhor herança,
outros caminhos eu irei trilhar.


A solidão? Ah, essa vai comigo,
pois nela sempre tive meu abrigo...
Pois ela sempre me soube embalar.


Patricia Neme

A um Poeta





















Quem é esse que, em versos, minh´alma desperta
e que a faz se perder em mil tramas de amor?
Como pode entender a carência encoberta
e meu sonho mais caro em soneto compor?


Quem me vê tão desnuda e nas rimas me oferta
os anseios perdidos nas brumas da dor?
Quem me sabe encontrar de maneira tão certa...
quando eu não mais ousava venturas supor?


Quem me faz suspirar, quem meu peito acelera,
onde está esse alguém, que me exila na espera...
No desejo, saudade... onde achá-lo, afinal?


Ah!, Poeta... Eu quisera de ti ser a musa,
em teus braços viver para sempre reclusa,
embalada ao cantar de gentil madrigal!


Patrícia Neme

Onde estiver...
















Onde repousa a rosa do teu coração,
é lá que eu quero construir o meu altar;
e ante o sacrário, no extravaso da emoção,
aos céus direi o quanto é bom poder te amar.


Aos céus direi, em riso, em prece, em oração,
que, enfim, minh'alma vislumbrou o seu lugar;
que as horas tristes... A amargura.. Lá se vão...
Em ti floresço, em ti, sou rio entregue ao mar.


E qual a lua, que acalenta a madrugada,
qual a viola, que apascenta a nostalgia,
qual a manhã, que encobre a noite de agonia...


Hei de ofertar-te a paz que fez, de mim, morada...
E em meus poemas, com textura de jasmim...
Terás teu leito, meu amor... Será assim!


Patricia Neme

A Valsa















Ele veio silente, o luar a trazê-lo,
um sorriso fagueiro reinando no olhar.
“Uma valsa? “, propôs. Aceitei seu apelo...
- Todo baile eu ousara tal gesto esperar.


Abraçou-me a cintura, com terno desvelo,
tal se eu fora cristal do mais fino vibrar.
Em meu peito a ventura de, enfim, conhecê-lo,
me fez leve qual brisa soprada do mar.


Ante o chão carpetado com gotas de orvalho,
o céu pleno de estrelas, num rútilo pálio...
conivente, o destino, o relógio parou.


Entre beijos, promessas... Ditosa loucura!,
todo o amor que eu vivi, desde sempre, à procura,
na magia dos sonhos comigo bailou!


PatriciaNeme

Azul
















Hoje,
quero despir-me de lembranças acres,
esvaziar minh'alma das saudades.
E embebedar-me do frescor nascente
no sopro da manhã que,
além,
me espreita;
seja passado esse cinzento encanto,
do qual não tive a bênção da colheita.


Hoje,
quero dos verdes o mais puro veio,
para tecer sonhares de porvir.
Semente em cio, no morno da terra,
em mim renasce o cantar bendito
da vida, em gestação de um infinito...
Do céu que surge azul,
dentro de mim.


Patrícia Neme

Descaminhos



















Como afagar teus sonhos,
se teu pensar vai distante,
entre as brumas do passado
e o amanhã, que o tempo esconde?


Como embalar-te a alma,
se em fiel vagar por sendas
da tênue veracidade
dos silêncios constelados?


Como ancorar-te o corpo,
no abrigo dos meus permeios,
se teu barco singra mares
de solidão consentida?


Não são reais teus reclamos
de meus passos peregrinos;
se acompanhas as pegadas,
ver-me-ás seguindo a ti.


Patricia Neme

Engano

















Eu te percebo em vôo errante e vago,
cortejas flores, rondas os canteiros.
Perdido em cores, bebes, trago a trago,
orvalho e néctar, vãos e derradeiros.


Beijas a rosa, no cravo um afago...
Mas teus carinhos não são verdadeiros.
Teu rastro fala de dor e de estrago,
dos sonhos mortos... Todos passageiros!


Teus passos são volúveis, causam dano,
motivam pranto, angústia, desengano,
desfolhas vidas, sem pena, sem dó.


Tanta aridez... O que é do meu jardim?
Eu me pergunto, o que será de mim...
Assim tão triste, machucada e só!


Patricia Neme

Noites




















Em todo entardecer escuto passos,
na estrada que se achega ao meu portão;
embora haja penumbra, vejo os traços
dos andarilhos... Deus! E quantos são!


Na casa, se assenhoram dos espaços,
percorrem cada palmo do meu chão.
Semblantes - de ventura tão escassos,
contemplam-me... E na dor me envolvo, então.


Porque nos olhos meigos dos meus sonhos,
o amor sulcou caminhos tão tristonhos,
onde apenas saudade floresceu!


À noite, em rito insano de agonia,
unidos, sonhos, eu... e a nostalgia...
Ninamos o que nos restou de teu.


Patricia Neme

Libertação




















É certo, amei-te além do meu bom senso,
com força, com delírio... Com loucura!
Amei, tão de profundis, tão intenso...
Que me perdi... Quando à tua procura.


E achei-me em pranto largo, triste, denso,
nos campos semeados de ternura.
Amei-te... E o meu amor foi tão imenso...
E para ti, foi tudo uma aventura...


Porém, quando faltou-me o tudo e o nada,
a vida fez surgir nova alvorada,
nos sonhos que eu sonhei, como jamais.


E agora, hoje eu me encontro em outro peito,
que pulsa em meu viver e no meu leito...
De ti... Por fim, eu não me lembro mais!


Patrícia Neme

Ventos




















Já nem sei quando sejam madrugadas
- ou dias plenos, de um viver ardente...
Pois pelas minhas mais sutis estradas,
um vento aflito busca-te, imprudente!


Cavalga amaro e nas fundas passadas,
lacera os sonhos da espera silente.
Espera antiga, de vidas passadas,
que não permite o agora em meu presente.


Cavalga o vento, dia ou madrugada...
E tem-me a vida, morta, devastada,
cativa eterna de um existir tão só...


Duma promessa, por ti, imolada...
Vento cortante, que esta alma cansada,
sopra ferino... E me reduz a pó!


Patricia Neme

Fiz do verde meu caminho
















Fiz do verde meu caminho,
fiz da vida plantação;
plantei flor e passarinho,
filhos, versos e oração.
Plantei pão e plantei vinho,
com o amor da minha mão.
Caminhei por verdes mares,
fiz sorrir verdes olhares,
verde foi o meu jardim.
Verde foi minha esperança
no verdor das minhas tranças...
Hoje restam só lembranças
com as quais brinco cantares
da ventura que há em mim.
O Senhor é meu pastor
e nas verdes pradarias
me regala paz sem fim!


Patricia Neme

Teimosia




















Se tenho um fio de esperança, um sonho teço,
para abrigar o sofrimento da saudade;
tantas laçadas - já nem sei fim ou começo,
qual se o agora fosse a própria eternidade.


Em cada malha de ilusão sutil, me aqueço,
talvez se acalme esse tormento que me invade;
ponto por ponto, pago sempre um alto preço,
meu fado é rude, sem mercê, sem caridade.


Hora após hora, passa o tempo, vai-se o dia,
a noite agita mil lembranças, me agonia...
Verso e reverso a tricotar, não esmoreço.


Então, de um fio de esperança... Um sonho teço!
No aqui, no agora, ou bem além do que se vê,
em cada ponto estou mais perto de você.


Patricia Neme

Das Rosas e dos Sonhos















"O sonho que se esvai na desventura"
do anoitecer das pétalas das rosas,
é sonho embevecido pela alvura
da mão entregue às tramas amorosas.


O sonho que se esvai... Sonho ou loucura?
No sonho habitam cores enganosas...
E na loucura habita a entrega pura
de quem sonhou venturas ardorosas.


As rosas... Sempre as rosas por pretexto
para ilustrar a forma e dar contexto
ao que a palavra anseia em demonstrar.


Os sonhos... São as rosas desfolhadas
ao vento de ilusões vãs, derrocadas...
Em busca de um alguém a quem amar!


Patricia Neme

Chuva?
















Do céu cinzento, chega a chuva fina...
Vem mansamente, quase em desalento.
E chove, chove... Nunca que termina...
É chuva d’água... Ou chove sofrimento?


A terra dorme sob a gris neblina,
o tempo para, já não canta o vento...
Nem leve sol, a vida descortina...
É chuva d’água, ou chuva de lamento?


E vão-se o dia, noite, madrugada...
E sempre a chuva, tão desalentada...
Minh’alma indaga às nuvens: até quando?


Até que exista paz, amor, verdade,
e todo humano viva a boa-vontade...
Não vês? Não chove... Deus está chorando!

Patrícia Neme

Soneto




















Estamos sós... Embora o ventre e o peito,
à vida oferecessem seu alento.
E fosse o fruto amado e bem aceito...
Fosse o carinho sem comedimento.


Estamos sós.. O que foi tão mal feito,
causamos, nós, tamanho rompimento?
Se nosso coração é amor-perfeito,
que abriga, acolhe, cuida... Sem lamento?


Se os filhos são a bênção do Senhor,
heranças vindas do divino amor...
Adultos... Nos contemplam com frieza?


Por quê já não mais lembram do acalanto,
que deles foi o riso e foi o pranto...
Por quê nos abandonam à tristeza?


Patrícia Neme

Soneto da Saudade
















O céu desperta triste, em tom cinzento,
qual lhe fora penoso um novo dia;
aos poucos, verte, em gotas, seu lamento...
Um pranto ensimesmado, de agonia.


Um rouco trovejar, pesado, lento,
parece suplicar por alforria,
num rogo já exangue, sem alento...
A chuva... O cinza... A dor... A nostalgia...


O céu despertou triste... O céu sou eu,
perdida num sonhar que feneceu,
sou prisioneira à espera de mercê.


Sonhando conquistar a liberdade
desta prisão, que existe na saudade...
Saudade, tanta, tanta... De você!


Patrícia Neme

“Só”




















De pronto a névoa apaga o sol, e morre o dia,
sombras tristonhas roubam cor ao entardecer...
Quando partiste... (foste o bem que eu mais queria...)
Anoiteceu, por sempre, a vida em meu viver.


Restaram dor, que o peito, em fúria, cilicia,
conceitos vagos – mal os pude compreender...
Adormeceu o Tempo, envolto em agonia,
tanta saudade... Tanta dor varou-me o ser.


E muito embora já distante no passado,
sou ré, cativa ao jugo desse cruel fado,
luto plangente, dor sem trégua, dor sem dó.


Não há quem dome o Mal que, agudo, me espezinha,
pois ao perder teu doce amor, minha Mãezinha,
eu fiquei só, tão miseravelmente... Só!


Patricia Neme

Renascer – a Décima Rosa




















Eu me despi do fogo incandescente,
onde a paixão expande seu fulgor.
E me adornei, contrita, reverente,
com gotas orvalhadas pelo amor.


O amor... Singelo, de cantar silente...
O amor... Profundo e intenso em esplendor...
Transforma o coração duro e inclemente,
no suave despertar da rosa-flor!


Em meu caminho rumo à eternidade,
liberta dos floreios da vaidade,
no infindo roseiral terei morada.


E quando eu reflorir, por santo alento,
não mais trarei a cor do sofrimento...
Somente a paz dos tons que há na alvorada!


Patrícia Neme

À Nona Rosa de Sarom




















Toda a razão, solene, à fé se rende
e de joelhos louva ao Criador,
por contemplar a Graça que resplende
no despertar de pétalas em flor.


Somente Deus, em quem tudo transcende,
sabe tecer a vida em forma e cor.
E transformá-la em rosa que se acende
ante o sacrário de um imenso amor.


Os sinos dobram... O silêncio é tanto...
A prece, a entrega... Alma em acalanto...
Misericórdia, plena, me conduz.


Porque sou rosa, abro-me em ternura,
acolho em mim tua dor e desventura
e em meu Sarom, hei-de entregar-te à Luz!


Patrícia Neme

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