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Soneto tremente
















Sou o dos desesperos enfadados.
Há na minh’ alma hortências a fluir.
Se eu pudesse deixar os meus cuidados
Ia-me repousar, ia dormir!

Pressentem-se na luz uns flébeis fados
Como coisa que em breve vai cair…
Eu sinto a dor dos ser’s inanimados.
Eu sinto tudo o que quiser sentir!

Esta sede sem fim de analisar
Acaba sempre em pré-neurastenia.
- Não mais me comover! Não mais pensar!

Fechar os olhos, sem força, parar…
- Que bom viver um sono de água fria,
Com a alma meia morta, a desfocar...



Cristovam Pavia

Prelúdio
















Levanta-se da rocha a flor esmagada
Mais dura do que a rocha e cristalina.
Raízes, caule, pétalas, angústia.

Raízes para sempre ali cravadas,
Caule verticalmente inexorável,
Pétalas miraculosas: pura água.

Minhas mãos são chagas,
Para te colher…
Minhas mãos são chamas,
Pedaços de gelo…
Levanta-se da rocha a flor esmagada.


Cristovam Pavia

Marinha




















Um bando de gaivotas
revoluteando,
insistindo...
Partindo
e logo voltando,
em voltas e cambalhotas,
sobre o mar...

A vela branca, a vibrar,
que se não sabe onde vai,
desaparece
e parece

que já não há-de voltar...
Mas de repente aparece
e vai do fundo, do mar
para o céu...

E um menino que correu
e riu
às transparências desse mar sem fim,
quando me viu,
levantou a grande aba do chapéu
e, desenhado a branco sobre o céu,
ficou, por muito tempo, a olhar p'ra mim.


Cristovam Pavia

Pastor



















Todo o rebanho espalhado
pela paisagem cinzenta
de inverno fresco e calado,
não sei de que se apascenta
neste chão frio e surrado;
apenas o meu cuidado
de bom pastor o sustenta.


Meu gado de criação
vou-o descendo às canadas
onde o frio das geadas
não despiu de todo o chão;
— minhas ovelhas pejadas
precisam de ser tratadas
pela sua condição...


Que o céu tão baixo e cerrado
carrega de nuvens escuras
a serra e o meu cuidado
pelas ovelhas e as puras
crias de olhar resignado.
Eu sofro pelo meu gado,
pelas suas amarguras.


E quando à tarde voltamos
para o redil que nos espera
no meio do campo absorto,
ao frio que dilacera,
resta-me só um conforto:


pensar que este mundo morto
terá uma primavera.



Cristovam Pavia

O sol de nossas vidas...


















“Cada minuto é apenas um momento musical,
sem memória.. E a saudade não vem de
longe, é como uma cor outonal na paisagem
e muda como um poente...Não há futuro.
Tudo é paisagem para os nossos olhos
calmos e líricos.
Sentimos a intimidade das coisas
impossíveis”.


Cristovam Pavia

O Tempo seca o Amor

O tempo seca a beleza, seca o amor, seca as palavras. Deixa tudo solto, leve, desunido para sempre como as areias nas águas. O tempo seca a ...

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