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A Ponte















Para cruzá-la ou não cruzá-la
eis a ponte

na outra margem alguém me espera
com um pêssego e um país

trago comigo oferendas desusadas
entre elas um guarda-chuva de umbigo de madeira
um livro com os pânicos em branco
e um violão que não sei abraçar

venho com as faces da insônia
os lenços do mar e das pazes
os tímidos cartazes da dor
as liturgias do beijo e da sombra

nunca trouxe tanta coisa
nunca vim com tão pouco

eis a ponte
para cruzá-la ou não cruzá-la
e eu vou cruzar
sem prevenções

na outra margem alguém me espera
com um pêssego e um país



EL PUENTE

Para cruzalo o para no cruzarlo
ahí está el puente

en la otra orilla alguien me espera
con un durazno y un país

traigo conmigo ofrendas desusadas
entre ellas un paraguas de ombligo de madera
un libro con los pánicos en blanco
y una guitarra que no sé abrazar

vengo con las mejillas del insomnio
los pañuelos del mar y de las paces
Ias tímidas pancartas del dolor
las liturgias del beso y de la sombra

nunca he traído tantas cosas
nunca he venido con tan poco

ahí esta el puente
para cruzarlo o para no cruzarlo
yolIo voy a cruzar
sin prevenciones

en la otra orilla alguien me espera
con un durazno y un país


Mario Benedetti - Tradução Antonio Miranda (De Preguntas al azar – 1984-1985)


Haicais
















e se no crepúsculo
o sol era memória
já não me lembro

as religiões
não salvam / são apenas
um contratempo

o pior do eco
é quando diz as mesmas
barbaridades

tem poucas coisas
tão ensurdecedoras
como o silêncio

durante o sono
os amantes são fiéis
como animais

passam as nuvens
e o céu fica limpo
de toda culpa

as plantas ouvem
se a gente elogia
se tingem de verde

em todo idílio
uma boca é beijada
a outra beija



si en el crepúsculo
el sol era memoria
ya no me acuerdo

las religiones
no salvan / son apenas
un contratiempo

lo peor del eco
es que dice las mismas
barbaridades

hay pocas cosas
tan ensordecedoras
como el silencio

durante el sueño
los amantes son fieles
como animales

pasan las nubes
y el cielo queda limpio
de toda culpa
las plantas oyen
si uno las lisonjea
se hinchan de verde

en todo idilio
una boca hay que besa
y otra es besada


Mario Benedetti - Tradução de Antonio Miranda

Negócios














tens que entender isso
tua mulher não é tua
o documento que certifica isso
é tão sinistro como o cinturão
de castidade ou a limpeza de sangue
do pasado
abra esse cabeção à luz
do entendimento
deixa de ronronar minha gravata
minha calça minha brilhantina
meu relógio de pulso minha mulher meu
gato meus libros meu pullover
deixa já de solfejar nessa nota
só: meu meu meu meu meu
nada é teu, nada te pertence
tudo é um empréstimo ambora não haja
devolução.
tua não é a unha de um mindinho (nem "teu"mindinho)
é um empréstimo. Respondes com ela.
Apressa-te no supermercado.
Ali cantam sereias de liquidações.
Liquidações. Sim, as nossas.
Compraste esse eletro-doméstico
que serve para nada.
Mas ouviste na televisão
que teu vizinho vai mugir de raiva
se tu primeiro o possuis.
Já ves, tem sua erótica, a coisa.
Temos que melhorar a tenda
que nos cederam para passar as
férias. Anunciam chuvas e tormentas.
Depois tens que voltar a esse colégio,
estudar o infiltrado. Inferno.



NEGOCIOS

esto tienes que entenderlo
tu mujer no es tuya
el documento que acredita eso
es tan siniestro como el cinturón
de castidad o la limpieza de sangre
del pasado
abre esa cabezota a la luz
del entendimiento
déjate de ronronear mi corbata
mi pantalón mi brillantina
mi reloj pulsera mi mujer mi
gato mis libros mi pullover
déjate ya de solfear en esa sola
nota: mi mi mi mi mi
nada es tuyo. nada le pertenece
todo es un préstamo aunque no haya
devolución
tuya no es la uña de tu meñique (ni "tu" meñique)
es un préstamo. La vida es un
crédito. Responde con ella.
Apúrate en el supermercado.
Allí cantan sirenas de liquidaciones.
Liquidaciones. Si, las nuestras.
Te compraste ese eletrodoméstico
que no te sirve para nada.
Pero oíste en la televisión
que tu vecino mugirá de rabia
si tú primero lo posees.
Ya ves, tiene su erótica, la cosa.
Tenemos que mejorar la tienda
que nos cedieron para pasar las
vacaciones. Anuncian lluvias y ventiscas.
Después hay que volver a ese colegio,
estudiar al topo. Inferno.


Washington Benavides - Tradução de Antonio Miranda

Consagração























Surgiu tua branca majestade no raso,
toda sonho e fulgor, na espessura;
e era em vez de minha mão — atenta ao caso
minha alma que oprimia tua cintura...

De procazes sulfatos, uma impura
fragrância conspirava ao nosso passo,
enquanto que propicio a tua aventura
encheu-se de amapolas o ocaso.

Pálida de inquietude e casto assombro,
tua frente declinou sobre meu ombro...
Unindo-me ao teu ser, com suave impulso,

ao final de meu especioso simulacro,
de um longo beijo te apurei convulso,
até as fezes, como um vinho sacro!


CONSAGRACIÓN

Surgió tu blanca majestad de raso,
toda sueño y fulgor, en la espesura;
y era en vez de mi mano — atenta al caso
mi alma quien oprimía tu cintura...

De procaces sulfatos, una impura
fragancia conspiraba a nuestro paso,
en tanto que propicio a tu aventura
llenóse de amapolas el ocaso.

Pálida de inquietud y casto asombro,
tu frente declinó sobre mi hombro...
Uniéndome a tu ser, con suave impulso,

al fin de mi especioso simulacro,
de un largo beso te apuré convulso,
¡hasta las heces, como un vino sacro!


Julio Herrera y Reissig - Tradução: Antonio Miranda

Amanhã
















Há um único lugar
onde ontem e hoje
se encontram
e se reconhecem
e se abraçam.

Esse lugar é amanhã.


Mañana

Hay un único lugar
donde ayer y hoy
se encuentranye 
se reconocen
y se abrazam.

Esse lugar es mañana.


Eduardo Galeano -  (Uruguai, 1940) - Tradução de Jeff Vasques

A Origem do Mundo















                      (El origen del mundo. Gustave Courbet)

Um sexo de mulher descoberto
(solitário olho de Deus que contempla-o por inteiro)
sem imutar-se)

perfeito em sua redondez
completo em sua esfericidade
impenetrável na mesmice de seu orifício
impossuível na espessura de sua púbis
intocável na turgência mórbida de seus seios
incomparável em sua faculdade de procriar

submetido desde sempre
(por impossuível, por inacessível)
a todas as metáforas
a todos os desejos
a todos os tormentoss

gera partenogeneticamente o mundo
que apenas necessita seu tremor



EL ORIGEN DEL MUNDO

                       (El origen del mundo. Gustave Courbet)

Un sexo de mujer descubierto
(solitário ojo de Dios que todo lo contempla
sin inmutarse)

perfecto en su redondez
completo en su esfericidad
impenetrable en la mismidad de su orifício
imposible en la espessura de su púbis
intocable en la turgéncia mórbida de sus senos
incomparable en su facultad de procriar

sometido desde siempre
(por imposeíble, por inaccesible)
a todas las metáforas
a todos los deseos
a todos los tormentos

genera partenogenéticamente al mundo
que sólo necessita su temblor.


(De Las musas inquietantes, 1999)


Cristina Peri Rossi - Tradução Antonio Miranda





Poema Aviônico do Término de Raid













Aterrizo com extrema força,
Os hangares em prontidão.
Cheiro de gasolina de carícia queimada.
E, em seguida, silenciador de beijos.

Ah, a áspera dinâmica
de querer-te em mecânica!

Loura maquinaria,
com tantos quilômetros de ação
dentro do território da ternura.

Viajo só.
“Águia solitária.”
sobre o mar de teus sentimentos.
Desejos de aquatizar…
mas estas rodas!

A imantação de teus desejos
torce os lemes de profundidade.

Vôo tão rasante
que necessito mais de rodas
que de asas.


POEMA AVIóNICO DEL TÉRMINO DE RAID

Aterrizo con demasiada fuerza.
Hay premura en los hangares.
Olor a nafta de caricia quemada.
Y, en seguida, silenciador de besos.

¡Ah, la dinámica áspera
de quererte en mecánica!

Maquinita rubia,
con tantos kilómetros de acción
dentro del territorio de la ternura.

Viajo solo.
«Águila solitaria»
sobre el mar de tus sentimientos.
Deseos de acuatizar…
¡pero estas ruedas!

La imantación de tus deseos
vuelca los timones de profundida,

Vuelo tan bajo
que necesito más las ruedas
que las alas.

Alfredo Mario Ferreiro - Traduções de Antonio Miranda

O Tempo seca o Amor

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