Mostrando postagens com marcador Adriane Garcia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Adriane Garcia. Mostrar todas as postagens






















cheguei no arraial com uma bota tão avançada
que mal o descasquei do papel
e já estava nas VII léguas, caçando fernão,
chorando por nego - que ficou para trás -
e por menino do seu nego – foge, menino!
vendo cocares dançando na mata,
querendo que o conde morra cedo.


(eita, que eu devorei, ligeira, ligeiro,
umas tantas, com os olhos)

tanta palavra bonita, essa menina
que não sei armar direito o elogio:
pra mim, até onde miro as letras
você é a melhor desses tempos
magros, medrosos, melancólicos,
cheios ainda do sumo das canas
que esse povo sujo e feio, a nobreza,
os cheios de si senhores, faziam moer,
da terra que mandavam cavoucar até doer:
feridas, samboques, minas.

e nunca nada dessa miséria
parece desaparecer – tenebrosa herança
de sangue – que el rei mandou dizer.

eu digo só: muito obrigada, poeta.
(e historiadora).


Adriane Garcia

Deuses que dançam














Aceitar o movimento
Essa desordem
Ordem

Que nada ficará
Inerte
Nem eu nem você
Ou a pedra (que não rola e cria limo)

Que mudei
Que você mudou
Que o mundo
Ainda que o mesmo
É diferente

Que é sempre igual
Isto:
Que o que era há um milésimo
Já é outro.
.

Adriane Garcia

Este Poema






















Este poema não vai
Segurar a lâmina
Não vai arrebentar a corda
Não vai dar de comer à criança
Suja estendendo a mão
Na rua

Não vai
Ressuscitar a ave extinta
Nem sacolejar o coração
Traído
Pelo último bombeamento
Do sangue, este poema
Não vai

Limpar a ardência dos olhos
Secar lágrimas, abrir
Sorrisos
Nem falar a palavra amiga
Ao menos abrigar uma ilusão

Não, este poema não vai
Segurar o homem no
Abismo
Voltar o tempo, acender a
Luz
Esclarecer qualquer
Confusão

Falar a verdade
Saber a verdade
Desistir da verdade
Ser a verdade

Este poema não vai
Melhorar o trânsito.


Adriane Garcia - in Garrafas ao Mar - Penalux, Guaratinguetá-SP, 2018

Fisionomias


















O metrô vai
Carregado de rostos

Este tem uma bolsa
E uma conta para pagar

Aquele tem uma lembrança
Não quer lembrar

Mas o metrô é tão contínuo
Que embala...

E em cada curva
Em cada linha de expressão
Uma história que é a mesma
Para todos

Vá lá, admita,
Somos apegados a detalhes
E é só isso que faz
Rostos diferentes

Aquele outro, tão jovem
Sorri:
Tem um bilhete
E uma inocência.


Adriane Garcia

Esculturas vivas























Repare nas mães
Tendo ao colo filhos dormindo:

Pietás de carne e osso
Carregando destinos.

.

Adriane Garcia























Ao mesmo tempo que um grito
É universal
Um grito é algo inaudível

É de surdez que morremos
E matamos
Linguagem alguma suficiente
Para nos salvar

Gritamos
No fundo invisível do poço
Também ninguém vê

Um dia
Finalmente
(Oh, paz!)
Silenciamos.

.


Adriane Garcia

Pacificada















Que liberdade essa
De encarar a dor
De não querer mais
Curá-la
De chamá-la para uma conversa
Quase todos os dias
E dizer: - senta aí.

Quase o amor obrigatório e
Doído
Por uma parenta velha
Doente, chata e longeva
Que a gente aceitou
E que não pode mais pôr
Para fora de casa.


Adriane Garcia

Escolher















Há você
Um espaço
Para os passos
E uma porta

Não é por que
É uma porta
Que você tem que
Abri-la

Liberdade
Pode ser
Antes da porta.


Adriane Garcia

Viúva























Refeita, vou aquietar-me
Chega de querer colo
Isso agita

O coração aguenta
Sofrer muito
Ou a humanidade não existiria

Vou prender meus cabelos num coque
Com todos os meus fios prata
E vou cozinhar para netos
Receitas que os distraiam
Do que eu sei.


Adriane Garcia, poema que fecha o livro O nome do mundo (ed. Armazém da Cultura)

Acender as luzes















Abaixo pálpebras
E apago o dia
Dentro de mim
O escuro avia
Minha intimidade

Pudesses me tocar
Eu diria:
– Aí dói muito
E tu deixarias
Quieto
O meu rio?

Os peixes nadam
Num lodaçal difícil
E ainda há um monstro
De comer pântanos

Tu fazes um
Movimento brusco
Eu choro e
Me inundo
E para não me afogar eu
Abro os olhos.


Adriane Garcia

Suficiente













Somente este dia
Pesando mil toneladas
Este dia com suas mil ignorâncias

Somente este, acordo e peço
Que eu o carregue
E me encontre viva

Este dia de asfalto
Que eu o respire
E ainda haja ar nos pulmões

Amanhã, não, suspeito que não fomos
Feitos
Para suportar duas manhãs.



Adriane Garcia

Ornitóloga

















Vai saber
O que passa no pássaro
Eu que não sei nem de mim
Me dou ares de laboratório e
Lupas, tubos de ensaio
Tenho uns
Pinçamentos estranhos

Cato amostragens
Para ver se me explicam
Voos
(Eu que
Nunca saí do chão
Quando saí
Era sonho)

Me intrigam os olhos pretinhos
Paradinhos
Dos pássaros mortos

Desde criança eu reparo
Se a morte é sempre fria.


Adriane Garcia

Haras


















Crio
Ninguém me diz o quê
Nem como

Domo
Meu cavalo eu quero aqui
No arreio

Mas gosto
Que ele corra
Desembestado

Até o meu
Assovio.


Adriane Garcia

Escrever























Dou água para meus
Unicórnios
E à tarde vou à costureira

Deus é engraçadinho
Deu-nos por dentro
Um irmão Lumière

Não pesquei nuvens
Hoje
Vou beber na taverna

E com um pouco de sorte
Talvez me perder
Na floresta

Quero contar
Mil mentiras
Para cada verdade
Insuficiente.


Adriane Garcia

Até amanhã

















Não há mais ninguém na janela
A mulher que vende os peixes
Foi dormir
Já nada espera
(Alguém foi deixando de vir
Apesar das promessas)


Há um visco lacrimal
Nos peixes de dentro
E de fora da água
O sono é um ensaio de morte

Enquanto o despertador
Não toca
A dor fica presa
No freezer.



Adriane Garcia

Transmutar



As vidraças balançaram
Eu estava distraída
Sentia tanto frio
Que não vi que o frio vinha

O vento disse meu nome
Avisou-me
Pegasse um casaco
E quando saí à porta
Rodou-me como aos sacos plásticos

Depois, pôs me no chão
E deu-me um beijo de folha

Uma chuva miúda caía
Como quem me trocasse de roupa.

Adriane Garcia

O Alfa e o Ômega


















Carregas tuas coisas
E na verdade nada tens
Elas apenas te parecem
Tuas
Teu, mesmo, é só teu consolo
De ter a ti ainda
Para que esperes que possas ter
Algo mais que outras coisas
Tu que fora de ti nada tens nem nunca terás
Tu que fora de ti nada és nem nunca serás
Tu, eterno efêmero buscante
Do que primeiro e último se chama Amor.



Adriane Garcia - O nome do mundo - ed. Armazém da cultura 2014.

Eu vi















Quando eu cheguei na boca
Da baía banguela
E vi o cheiro
Dos peixes mortos
Eu anunciei o fim da vida
Enquanto um enorme
Gafanhoto
Parado no ar procurava
O autor da bala perdida
Encontrada no corpo do
Pequenino
Vendedor de biscoito de
Polvilho
Tudo isso eu vi
E cheirei
E uma placa dizia
Linha Vermelha em letras
Pretas
Uma multidão se ajuntava
Na praia
Onde fungos descontrolados
Comiam células
Sob a bola de fogo
Chorei
Porque poetas não ficam em riste
Feito os profetas
E tombam ante o fim do mundo
E choram.

Adriane Garcia

FATAL























O amor te faz nascer
E morrer
Dez vezes por dia se ele quiser

O amor é senhor
E você sabe
Só é possível servir a um

O amor te acorda de noite
Te deixa sem sono
Te põe pra dormir, te deixa

Em coma, letárgico
O amor te dá sonhos
E tira

O amor se ri dos sonetos
De amor e gargalha e se finge
De terno, o amor

Se apresenta sério
O amor faz mistério
E entrega o jogo, se quer

O amor vai te deixar louco
Vai te fazer rouco
De gritar o amor

E aí, vai fingir estar surdo
Vai te tornar mudo
E perguntar: O quê?

O amor vai matar o seu deus
Te fazendo tão pleno
De só haver o amor

E vai sair muitas vezes
Deixando vazio o quarto
E o altar

O amor vai querer te matar
E te fazer querer morrer
E nascer
E morrer
De amor.
.

Adriane Garcia













Que alegria é ter-te, nuvem
Alívio de minha visão periférica
Tu, de algodão quando as arestas
São o tempo inteiro e mais algumas facas

Quis a natureza que existíssemos
E para isso inventou também nuvens
A natureza crudelíssima
Que bate e assopra

Mas tu, nuvem
Tu és minha esperança de chuva e choves
No meu dorso curvado e árido
Antes, durante e depois do deserto.
.

Adriane Garcia

O Tempo seca o Amor

O tempo seca a beleza, seca o amor, seca as palavras. Deixa tudo solto, leve, desunido para sempre como as areias nas águas. O tempo seca a ...

Nos últimos 30 dias.