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Calmaria















Água estagnada
nuvem parada,
folha perdida,
pássaro de asa
partida.

¾ Ó vento que morreis,
de leve, de leve,
despertai!

Luz que se apaga,
sombra diluída,
névoa que vaga,
voz que se cala,
ferida.

¾ Ó voz que adormeceis
de manso, de manso,
gritai, gritai!

Tímida esperança,
pálido desejo:
a tarde tão mansa,
tão lânguida a noite
que vem.

¾ Ó alma náufraga,
como tudo o mais:
desesperai!


Emílio Moura

Marinha

















Grito teu nome aos ventos.
Olha: há uma revoada marítima.
O horizonte se afasta, há um ritmo largo
de ondas que se espreguiçam.

Velas esguias,
para onde voam?

Sulcos de prata,
para onde levam?
Amiga, amiga! Ah, dize-me depressa:
Quem grita aos ventos o teu nome?
O mar, ou eu,
o grande mar que o está cantando?


Emílio Moura

Mundo imaginário

Sob o olhar desta tarde,
quantas horas revivem
e morrem
de uma nova agonia? Velhas feridas se abrem,
de novo somos julgados, o que era tudo some-se
e num mundo fechado outras vigílias doem.


A noite se organiza e, no entanto, ainda restam
certas luzes ao longe. Ah, como encher com elas
este ser já não-ser que se dissolve e deixa
vagos traços na tarde?


Emílio Moura

Exílio





















Já nada vejo nessa bruma
que ora te esconde.
Quero encontrar-te, mas à noite
não me traz nenhuma
esperança de onde nem quando.


Amor, ah, quanto me deves!
Que é dos pés que, leves, leves,
roçaram por este chão?


Alma, és só tempo e solidão.


Emílio Moura

Despedida















Ventura que nunca tive,
paz irreal que nunca veio.
A vida fecha o horizonte,
chega a noite sem rumor.


Cala-se a voz. (já era tímida).
Meu eco morre aqui mesmo.
Que importa à sombra que desce
o grito que não se ouviu?


Emílio Moura

Renúncia
















Se eu cheguei a esta renúncia total, foi porque o meu sofrimento me transfigurou sem que eu o percebesse.
Aqui estou, tímido e humilde.
Parece que aqui estou há séculos.


Meus olhos já não compreendem outra realidade.


A realidade que amei dorme na sombra.


Emílio Moura

Mar alto

















Que hei de fazer, se não me encontro,
se há tanto tempo estou perdido?
É o mar, meu pai: é o mar! E o mar está crescendo.
O mar é fundo, o mar é frio.


Meu pai, que silêncio,
que grave silêncio!
Por que não sorris?


Meu pai, estou perdido:
há tantos caminhos
no fundo do mar.
Como hei de voltar?


Emilio Moura

Os que se foram





















Pouco a pouco vou compreendendo esta verdade tão
simples:
Agora é que realmente existem
os que se foram.
Só agora é que todos eles se movimentam
livres, imensamente livres.
Só agora é que falam
o que sempre calaram e era precisamente o que me
levaria
à única verdade que traziam.
Saem de velhos retratos, ou de ressuscitadas palavras
soltas,
e caminham comigo que os não sabia tão transparentes
e comunicativos
tão lógicos,
tão completos.
Completos e definitivos.


Emílio Moura

Toada dos que não podem amar


















Os que não podem amar
estão cantando.
A luz é tão pouca, o ar é tão raro
que ninguém sabe como eles ainda vivem.
Os que não podem amar
estão cantando,
estão cantando,
e morrendo.


Ninguém ouve o canto que soluça
por detrás das grades.


Emílio Moura

Gênese





















Há sempre uma hora,
uma hora densa,
uma hora inesperada,
em que a paisagem mais inocente
tem o fulgor de um fiat.
O tempo sonha que é espaço,
o espaço sonha que é tempo,
a realidade se compenetra de sua irrealidade.
O homem repensa o mundo.
O mundo se recompõe em sua nostalgia de Deus.


Emílio Moura

Poema















Renasces em ti mesma e por ti mesma.
Movimentas o sonho, a poesia e as aventuras imprevisíveis.
O imponderável é a tua matéria.


A poesia só me visita para que te realizes,
para que eu te sinta e te compreenda.


Que caminhos te prendem,
que ignotas rotas te iluminam?


Uma rosa se forma entre o teu sorriso e a aurora.
De repente,
tudo se torna tão irreal
que te sinto visível.


Emílio Moura

O Tempo seca o Amor

O tempo seca a beleza, seca o amor, seca as palavras. Deixa tudo solto, leve, desunido para sempre como as areias nas águas. O tempo seca a ...

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