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Credo


















Não acho meu caminho: no velado espaço,
Não se avista nenhuma estrela a cintilar;
E não se ouve também nenhum sussurro no ar
De voz vivente, mas um som distante e escasso
Que apenas chega a mim como imperial compasso
De música perdida, para acompanhar
Formosos dedos de anjos, postos a trançar
Grinaldas, onde as rosas não deixaram traço.

Não, não, vislumbre algum, nenhum chamado vem
A quem saúda, com receios tão humanos,
O caos denso e terrível que o negror induz;
Pois através de tudo, – muito acima e além, –
Eu conheço a remota mensagem dos anos,
E pressinto a chegada gloriosa da Luz.


Credo

I cannot find my way: there is no star
In all the shrouded heavens anywhere;
And there is not a whisper in the air
Of any living voice but one so far
That I can hear it only as a bar
Of lost, imperial music, played when fair
And angel fingers wove, and unaware,
Dead leaves to garlands where no roses are.

No, there is not a glimmer, nor a call,
For one that welcomes, welcomes when he fears,
The black and awful chaos of the night;
For through it all – above, beyond it all –
I know the far-sent message of the years,
I feel the coming glory of the Light.


Edwin Arlington Robinson. 

Credo / Credo. Tradução de Paulo Vizioli. In: VIZIOLI, Paulo (Seleção e Tradução). Poetas norte-americanos. Antologia bilíngue. Edição comemorativa do bicentenário da independência dos Estados Unidos da América: 1776-1976. Rio de Janeiro, RJ: Lidador, 1974. Em inglês e em português: p. 48

O ladrão da Babilônia


















Nos morros verdes do Rio
Há uma mancha a se espalhar:
São os pobres que vêm pro Rio
E não têm como voltar.

São milhares, são milhões,
São aves de arribação,
Que constroem ninhos frágeis
De madeira e papelão.

Parecem tão leves que um sopro
Os faria desabar
Porém grudam feito liquens
Sempre a se multiplicar,

Pois cada vez vem mais gente.
Tem o morro da Macumba,
Tem o morro da Galinha,
E o morro da Catacumba;

Tem o morro do Querosene,
O Esqueleto, o do Noronha,
Tem o morro do Pasmado
E o morro da Babilônia.

Micuçu era ladrão,
Assassino, salafrário.
Tinha fugido três vezes
Da pior penitenciária.

Dizem que nunca estuprava,
Mas matou uns quatro ou mais.
Da última vez que escapou
Feriu dois policiais.

Disseram: “Ele vai atrás da tia,
Que criou o sem-vergonha.
Ela tem uma birosca
No morro da Babilônia”.

E foi mesmo lá na tia,
Beber e se despedir:
“Eu tenho que me mandar,
Os home tão vindo aí.

“Eu peguei noventa anos,
Nem quero viver tudo isso!
Só quero noventa minutos,
Uma cerveja e um chouriço.

“Brigado por tudo, tia,
A senhora foi muito legal.
Vou tentar fugir dos home,
Mas sei que eu vou me dar mal”.

Encontrou uma mulata
Logo na primeira esquina.
“Se tu contar que me viu
Tu vai morrer, viu, menina?”

Lá no alto tem caverna,
Tem esconderijo bom,
Tem um forte abandonado
Do tempo de Villegaignon.

Micuçu olhava o mar
E o céu, liso como um muro.
Viu um navio se afastando,
Virando um pontinho escuro,

Uma mosca na parede,
Até desaparecer
Por detrás do horizonte.
E pensou: “Eu vou morrer”.

Ouvia berro de cabra,
Ouvia choro de bebê,
Via pipa rabeando,
E pensava: “Eu vou morrer”.

Urubu voou bem baixo,
Micuçu gritou: “Péra aí”,
Acenando com o braço,
“Que eu ainda não morri!”

Veio helicóptero do Exército
Bem atrás do urubu.
Lá dentro ele viu dois homens
Que não viram Micuçu.

Logo depois começou
Uma barulheira medonha.
Eram os soldados subindo
O morro da Babilônia

Das janelas dos barracos,
As crianças espiavam.
Nas biroscas, os fregueses
Bebiam pinga e xingavam.

Mas os soldados tinham medo
Do terrível meliante.
Um deles, num acesso de pânico,
Metralhou o comandante.

Três dos tiros acertaram
Os outros tiraram fino.
O soldado ficou histérico:
Chorava feito um menino.

O oficial deu suas ordens,
Virou pro lado, suspirou,
Entregou a alma a Deus
E os filhos ao governador.

Buscaram depressa um padre,
Que lhe deu a extrema-unção.
— Ele era de Pernambuco,
O mais moço de onze irmãos.

Queriam parar a busca,
Mas o Exército não quis.
E os soldados continuaram
A procurar o infeliz.

Os ricos, nos apartamentos,
Sem a menor cerimônia,
Apontavam seus binóculos
Pro morro da Babilônia.

Depois, à noite no mato,
Micuçu ficou de vigília,
De ouvido atento, olhando
Pro farol lá longe, na ilha,

Que olhava pra ele também,
Depois dessa noite de insônia
Estava com frio e com fome,
No morro da Babilônia.

O sol nasceu amarelo,
Feio feito um ovo cru.
Aquele sol desgraçado
Era o fim de Micuçu.

Ele via as praias brancas,
Os banhistas bem dormidos,
Com barracas e toalhas.
Mas ele era um foragido.

A praia era um formigueiro:
Toda a areia fervilhava,
E as pessoas dentro d’água
Eram cocos que boiavam.

Micuçu ouviu o pregão
Do vendedor de barraca,
E o homem do amendoim
Rodando sua matraca.
Mulheres que iam à feira
Paravam um pouco na esquina
Pra conversar com as vizinhas,
E às vezes olhavam pra cima.

Os ricos, com seus binóculos,
Voltaram às janelas abertas.
Uns subiam nos telhados
Para assistir mais de perto.

Um soldado — ainda era cedo,
Oito horas, oito e dez —
Fez mira no Micuçu
E errou pela última vez.

Micuçu ouvia o soldado
Ofegando, esbaforido,
Tentou se embrenhar no mato:
Levou uma bala no ouvido.

Ouviu um bebê chorando
E sua vista escureceu.
Um vira-lata latiu.
Então Micuçu morreu.

Tinha um revólver Taurus
E mais as roupas do corpo,
Com dois contos no bolso.
Foi tudo que acharam com o morto.

A polícia e a população
Respiraram aliviadas.
Porém na birosca a tia
Chorava desesperada.

“Eu criei ele direito,
Com carinho, com amor.
Mas não sei, desde pequeno
Micuçu nunca prestou.

“Eu e a irmã dava dinheiro,
Nunca faltou nada, não.
Por que foi que esse menino
Cismou de virar ladrão?

“Eu criei ele direito,
Mesmo aqui, nessa favela”.
No balcão os homens bebiam,
Sérios, sem olhar pra ela.

Mas já fora da birosca
Comentou um dos fregueses:
“Ele era um ladrão de merda.
Foi pego mais de seis vezes”.

Hoje está chovendo fino
E estão de volta os soldados,
Com fuzis metralhadoras
E capacetes molhados.

Vieram dar mais uma batida,
Só que é outro criminoso.
Mas o pobre Micuçu —
Dizem — era mais perigoso.

Nos morros verdes do Rio
Há uma mancha a se espalhar:
São os pobres que vêm pro Rio
E não têm como voltar.

Tem o morro do Querosene,
O Esqueleto, o do Noronha,
Tem o morro do Pasmado
E o morro da Babilônia.


Elizabeth Bishop

Marina





















Quis hic locus, quae regio, quae mundi plaga?

Que mares que praias que rochas grises que ilhas
Que águas a lamber a proa
Que aroma de pinho e gorjeio de tordo na neblina
Que imagens retornam
Ó minha filha.

Aqueles que os dentes do cão afiam, significando
Morte
Aqueles que na glória do colibri cintilam, significando
Morte
Aqueles que na pocilga da satisfação se assentam, significando
Morte
Aqueles que do êxtase dos animais partilham, significando
Morte

Tornam-se incorpóreos, reduzidos a nada por um golpe de vento
Uma exalação de pinho, e a neblina da canção silvestre
Por esta graça no espaço se dissolve.

Que há neste rosto, menos claro e mais claro
O pulso no braço, menos forte e mais forte
— Dado ou emprestado? Mais distante que as estrelas e mais próximo que os olhos
Sussurros e risinhos entre folhas e pés precipites
Submersos no sono, onde todas as águas se entrelaçam.

O gurupés no gelo se espedaça, a pintura ao calor estala.
Eu o fiz, e esqueci
E recordo.
A cordoalha frouxa e o velame em farrapos
Entre certo junho e outro setembro.
E o fiz desconhecido, semiconsciente, ignoto, meu.
O verdugo da carcaça faz água, as fendas reclamam o calafate.
Esta forma, este rosto, esta vida
Vivendo por viver numa esfera de tempo que me excede. Que eu possa
Renunciar à minha vida por esta vida, à minha fala pelo inexpresso,
O desperto, lábios abertos, a esperança, os novos barcos.
Que mares que praias que graníticas ilhas contra minha quilha
E que tordo chama através da neblina
Minha filha.

.

Marina

Quis hic locus, quae regio, quae mundi plaga?

What seas what shores what grey rocks and what islands
What water lapping the bow
And scent of pine and the woodthrush singing through the fog
What images return
O my daughter.

Those who sharpen the tooth of the dog, meaning
Death
Those who glitter with the glory of the hummingbird, meaning
Death
Those who sit in the stye of contentment, meaning
Death
Those who suffer the ecstasy of the animals, meaning
Death

Are become insubstantial, reduced by a wind,
A breath of pine, and the woodsong fog
By this grace dissolved in place

What is this face, less clear and clearer
The pulse in the arm, less strong and stronger—
Given or lent? more distant than stars and nearer than the eye

Whispers and small laughter between leaves and hurrying feet
Under sleep, where all the waters meet.

Bowsprit cracked with ice and paint cracked with heat.
I made this, I have forgotten
And remember.
The rigging weak and the canvas rotten
Between one June and another September.
Made this unknowing, half conscious, unknown, my own.
The garboard strake leaks, the seams need caulking.
This form, this face, this life
Living to live in a world of time beyond me; let me
Resign my life for this life, my speech for that unspoken,
The awakened, lips parted, the hope, the new ships.

What seas what shores what granite islands towards my timbers
And woodthrush calling through the fog
My daughter.


T. S. Eliot, em “Poesia”. [tradução, introdução e notas de Ivan Junqueira]. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1981.

Soneto à Ciência



















Ciência! Do velho Tempo és filha predileta!
Tudo alteras, com o olhar que tudo inquire e invade!
Por que rasgas assim o coração do poeta,
abutre, que asas tens de triste Realidade?

Poderia êle amar-te, achar sabedoria
em ti, se ousas cortar seu vôo errante e ao léu
quando tenta extrair os tesouros do céu,
mesmo que a asa se eleve indômita e bravia?

Não furtaste a Diana o carro? E não forçaste
a Hamadríade do bosque a procurar, fugindo,
estrêla mais feliz, que para sempre a esconda?

Não arrancaste à Ninfa as carícias da onda,
e ao Elfo a verde relva? E a mim, não me roubaste
o sonho de verão ao pé do tamarindo?


Em inglês:


SONNET — TO SCIENCE


Science! true daughter of Old Time thou art!
Who alterest all things with thy peering eyes.
Why preyest thou thus upon the poet's heart,
Vulture, whose wings are dull realities?

How should he love thee? or how deem thee wise,
Who wouldst not leave him in his wandering
To seek for treasure in the jewelled skies,
Albeit he soared with an undaunted wing?

Hast thou not dragged Diana from her car?
And driven the Hamadryad from the wood
To seek a shelter in some happier star?

Hast thou not torn the Naiad from her flood,
The Elfin from the green grass, and from me
The summer dream beneath the tamarind tree?


Edgar Allan Poe - 'Ficção completa, poesias & ensaios". [organização, tradução e anotações Oscar Mendes com a colaboração Milton Amado]. Rio de Janeiro: Companhia Aguilar Editora, 1965. (grafia original 1965).

Descoberta
















Como se tocá-la fosse capaz
de torná-lo conhecido a si mesmo,

como se o deslizar de sua mão
sobre o corpo dela pudesse revelar quem
ele é, como se ele a penetrasse, um país

percorrido por sua mão a descoberto,
como se tal país despontasse
continuamente à frente dela
para encontrar-se com sua mão a expandir os limites.

E os lugares em seu corpo não têm nomes.
Ela é a imensidão no correr da noite.
E suas roupas no chão estão dispostas
ao esquecimento.


Em inglês:

Dwelling

As though touching her
might make him known to himself,

as though his hand moving
over her body might find who
he is, as though he lay inside her, a country

his hand’s traveling uncovered,
as though such a country arose
continually up out of her
to meet his hand’s setting forth and setting forth.

And the places on her body have no names.
She is what’s immense about the night.
And their clothes on the floor are arranged
for forgetfulness.


Li-Young Lee


LEE, Li-Young. Dwelling. In: McCLATCHY, J. D. (Ed.). The vintage book of contemporary‎american poetry. 2nd ed. New York, NY: Vintage Books (A Division of ‎Random House Inc.), march 2003. p. 585.

Canção de Mim Mesmo - Song of Myself - parte 20



















Quem vai ali? Cheio de realizações, tosco místico, nu;
Como extraio energia da carne que consumo?
O que é um homem afinal? O que sou eu? O que és tu?

Tudo o que marco como sendo meu tu deves compensar
com o que é teu.
De outro modo seria perda de tempo me ouvir.

Não lanço a lamúria da minha lamúria pelo mundo inteiro,
De que os meses são vazios e o chão é lamaçal e sujeira.

Choradeira e servilismo são encontrados junto com os
remédios para inválidos, a conformidade polariza-se
no ordinário mais remoto.
Uso meu chapéu como bem entender dentro ou fora de casa.

Por que eu deveria orar? Por que deveria venerar e ser
cerimonioso?

Tendo inquirido todas as camadas, analisado as minúcias,
consultado os doutores e calculado com perícia,
Não encontro gordura mais doce do que aquela que
se prende aos meus próprios ossos.

Em todas as pessoas enxergo a mim mesmo, em nenhuma
vejo mais do que eu sou, ou um grão de cevada a menos.
E o bem e o mal que falo de mim mesmo eu falo delas.

Sei que sou sólido e sadio.
Para mim os objetos convergentes do universo
perpetuamente fluem,
Todos são escritos para mim, e eu devo entender o que a
escrita significa.

Sei que sou imortal,
Sei que a órbita do meu eu não pode ser varrida pelo
compasso de um carpinteiro,
Sei que não passarei como os círculos luminosos que as crianças
fazem à noite, com gravetos em brasa.


Sei que sou augusto.
Não perturbo meu próprio espírito para que se defenda ou
seja compreendido,
Vejo que as leis elementares nunca pedem desculpas,
(Reconheço que me comporto com um orgulho tão alto
quanto o do nível com que assento a minha casa, afinal).

Existo como sou, isso me basta,
Se ninguém mais no mundo está ciente, fico satisfeito.
E se cada um e todos estiverem cientes, satisfeito fico.

Um mundo está ciente e esse é incomparavelmente o maior
de todos para mim, e esse mundo sou eu mesmo,
E se venho para o que é meu, ainda hoje ou dentro de
dez mil anos, ou dez milhões de anos,
Posso alegremente recebê-lo agora, ou esperá-lo com
alegria igual.

Meus pés estão espigados e encaixados no granito,
Debocho daquilo que chamas de dissolução,
E conheço a amplitude do tempo.



Em Inglês:

20

Who goes there? hankering, gross, mystical, and nude;
How is it I extract strength from the beef I eat?
What is a man anyhow? what am I? what are you?

All I mark as my own you shall offset it with your own,
Else it were time lost listening to me.

I do not snivel that snivel the world over,
That months are vacuums and the ground but wallow and filth.

Whimpering and truckling fold with powders for invalids,
conformity goes to the fourth-remov’d,
I wear my hat as I please indoors or out.

Why should I pray? why should I venerate and be ceremonious?

Having pried through the strata, analyzed to a hair, counsel’d
with doctors and calculated close,
I find no sweeter fat than sticks to my own bones.

In all people I see myself, none more and not one a
barley-corn less,
And the good or bad I say of myself I say of them.

I know I am solid and sound,
To me the converging objects of the universe perpetually flow,
All are written to me, and I must get what the writing means.

I know I am deathless,
I know this orbit of mine cannot be swept by a carpenter’s
compass,
I know I shall not pass like a child’s carlacue cut with a burnt
stick at night.

I know I am august,
I do not trouble my spirit to vindicate itself or be understood,
I see that the elementary laws never apologize,
(I reckon I behave no prouder than the level I plant my
house by, after all.)

I exist as I am, that is enough,
If no other in the world be aware I sit content,
And if each and all be aware I sit content.

One world is aware and by far the largest to me, and that
is myself,
And whether I come to my own to-day or in ten thousand
or tem million years,
I can cheerfully take it now, or with equal cheerfulness
I can wait.

My foothold is tenon’d and mortis’d in granite,
I laugh at what you call dissolution,
And I know the amplitude of time.


Walt Whitman
Canção de mim mesmo: 20. Quem vai ali? Tradução de Luciano Alves Meira. In: __________. Folhas de relva. Texto integral. Tradução e introdução de Luciano Alves Meira. 2. ed. São Paulo (SP): Martin Claret, 2012. p. 66-68. (Série Ouro: Coleção A Obra-Prima de Cada Autor, n. 42)

Aos que falharam














Aos que falharam, grandes na aspiração,
aos soldados sem nome caídos na vanguarda do combate,
aos calmos e esforçados engenheiros, aos pilotos nos barcos,
aos super-ardorosos viajantes,
a tão sublimes cantos e pinturas sem reconhecimento
– eu gostaria de erguer um momento coberto de louros
alto, bem alto, acima dos demais:
A todos os truncados antes do tempo,
arrebatados por algum estranho espírito de fogo,
tocados por morte prematura.

.

To Those Who’ve Fail’d. 


To those who’ve fail’d in aspirations vast,
To unnamed soldiers, fall’n in front, on the lead,
To calm, devoted engineers, to over ardent
travellers, to pilots on their ships,
To many a song and picture without parturition,
I’d rear a laurel cover’d monument
High, high above the rest—to all cut off before
their time,
Possess’d by some great spirit of fire
Quenched by an early death.

Walt Whitman, 
em “Folhas de Relva”. [seleção e tradução Geir Campos; ilustrações Darcy Penteado]. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1964; 2002.

Travar Conhecimento com a Noite













Sou um que travou conhecimento com a noite.
Eu fui passear na chuva – e na chuva voltei.
Deixei longe a luz mais distante da cidade.

Olhei a mais triste ruela da urbe.
Passei pelo vigia em sua ronda
E para não explicar baixei os olhos.

Fiquei imóvel sem o barulho dos meus passos
Quando de longe um grito interrompido
Veio, por sobre as casas, de outra rua,

Mas não era chamado ou despedida;
E mais longe ainda, numa altura incrível,
Contra o céu, havia um relógio iluminado

Proclamando que a hora não era certa nem errada.
Fui um que travou conhecimento com a noite.



em Inglês:

Acquainted with the Night

I have been one acquainted with the night.
I have walked out in rain – and back in rain.
I have outwalked the furthest city light.

I have looked down the saddest city lane.
I have passed by the watchman on his beat
And dropped my eyes, unwilling to explain.

I have stood still and stopped the sound of feet
When far away an interrupted cry
Came over houses from another street,

But not to call me back or say good-bye;
And further still at an unearthly height,
One luminary clock against the sky

Proclaimed the time was neither wrong nor right.
I have been one acquainted with the night.

Robert Frost

FROST, Robert. Travar conhecimento com a noite. Tradução de Marisa Murray. In: __________. Poemas escolhidos de Robert Frost. Tradução de Marisa Murray. 1. ed. Rio de Janeiro: Lidador, 1969. p. 80.

Travesseiro

















Não há nada que não possa encontrar lá embaixo.
Vozes nas árvores, as páginas desaparecidas
do mar.

Tudo exceto o sono.

E a noite é um rio a unir
os bancos da fala e da escuta,

uma fortaleza, indefesa e inviolável.

Não há nada que ali não se encaixe:
fontes obstruídas com lama e folhas,
as casas de minha infância.

E a noite começa quando os dedos de minha mãe
soltam o fio
que eles atam e desatam
para tocar a borda de nossa desgastada história.

A noite é a sombra das mãos do meu pai
ajustando o relógio para a ressurreição.

Ou está o relógio desenredado, os números esvoaçados?

Nada há que não tenha encontrado lá em casa:
asas descartadas, sapatos perdidos, um alfabeto em frangalhos.

Tudo exceto o sono. E a noite se inicia

com o primeiro jasmim
decepado, quando, enfim, sua fragrância cativa
libera-se das roupas mortuárias.




Pillow

There’s nothing I can’t find under there.
Voices in the trees, the missing pages
of the sea.

Everything but sleep.

And night is a river bridging
the speaking and the listening banks,

a fortress, undefended and inviolate.

There’s nothing that won’t fit under it:
fountains clogged with mud and leaves,
the houses of my childhood.

And night begins when my mother’s fingers
let go of the thread
they’ve been tying and untying
to touch toward our fraying story’s hem.

Night is the shadow of my father’s hands
setting the clock for resurrection.

Or is it the clock unraveled, the numbers flown?

There’s nothing that hasn’t found home there:
discarded wings, lost shoes, a broken alphabet.

Everything but sleep. And night begins

with the first beheading
of the jasmine, its captive fragrance
rid at last of burial clothes.



Li-Young Lee


LEE, Li-Young. Pillow. In: McCLATCHY, J. D. (Ed.). The vintage book of contemporary american ‎poetry. 2nd ed. New York, NY: Vintage Books (A Division of Random House ‎Inc.), march 2003. p. 583-584.

Vinda do Oceano Revolto, a Multidão















1
Vinda do oceano revolto, a multidão, chegou suave a mim uma gota,
Sussurrando, eu te amo, antes que um dia eu morra,
Fiz uma longa viagem, para meramente te ver, te tocar,
Pois eu não podia morrer até eu te ver uma vez,
Pois eu temia poder depois te perder.


2
(Agora nos conhecemos, nos vimos, estamos seguros;
Retorne em paz ao oceano, meu amor;
Sou também parte deste oceano, meu amor – nós não estamos tão separados;
Contemple a grande curvatura – a coesão de tudo, como é perfeita!
Mas, quanto a mim, a você, o irresistível mar irá nos separar,
A hora nos carrega, distintos – mas não pode nos carregar assim para sempre;
Não seja impaciente – por um pequeno espaço – Eu te conheço, eu saúdo o ar, o oceano e a terra,
Todo dia, no ocaso, por você, meu amor.)



Walt Whitman

Chopin Bukowski
















este é meu piano.
o telefone toca e as pessoas perguntam,
o que você está fazendo? que tal
encher a cara com a gente?

e eu digo,
estou ao piano.

o quê?

desligo.

as pessoas precisam de mim. eu as
completo. se não podem me ver
por um tempo ficam desesperadas, ficam
doentes.

mas se as vejo muito seguido
eu fico doente. é difícil alimentar
sem ser alimentado.

meu piano me diz coisas em
troca.

às vezes as coisas estão
confusas e nada boas.
outras vezes
consigo ser tão bom e sortudo como
Chopin.

às vezes me sinto enferrujado
desafinado. isso
faz parte.

posso me sentar e vomitar sobre as
teclas
mas é meu
vômito.

é melhor do que sentar em uma sala
com 3 ou 4 pessoas e
seus pianos.

este é meu piano
e é melhor que os deles.

e eles gostam e desgostam
dele.

*

Charles Bukowski - em "O amor é um cão dos diabos", tradução de Pedro Gonzaga

Ao jardim, o mundo












Ao jardim, o mundo, renovado em ascensão,
Parceiros potentes, filhas, filhos, em prelúdio,
O amor, a vida de seus corpos, ser e sentido,
Curioso, contemple aqui minha ressurreição, após o sono;
Os ciclos em revolução, em seu amplo movimento, aqui me trouxeram outra vez,
Amoroso, maduro – tudo belo para mim – tudo maravilhoso;
Meus membros, e o fogo trêmulo que folga neles, pelos mais maravilhosos motivos;
Existindo, eu perscruto e penetro ainda,
Contente com o presente – contente com o passado,
Ao meu lado, ou atrás de mim, Eva me seguindo,
Ou à frente, e eu a segui-la do mesmo jeito.


To the Garden the World

To the garden, the world, anew ascending,
Potent mates, daughters, sons, preluding,
The love, the life of their bodies, meaning and being,
Curious, here behold my resurrection, after slumber;
The revolving cycles, in their wide sweep, have brought me again,
Amorous, mature—all beautiful to me—all wondrous;
My limbs, and the quivering fire that ever plays through them, for reasons, most wondrous;
Existing, I peer and penetrate still,
Content with the present—content with the past,
By my side, or back of me, Eve following,
Or in front, and I following her just the same.


Walt Whitman

Estão Todas as Verdades à Espera em Todas as Coisas























Estão todas as verdades
à espera em todas as coisas:
não apressam o próprio nascimento
nem a ele se opõem,
não carecem do fórceps do obstetra,
e para mim a menos significante
é grande como todas.
(Que pode haver de maior ou menor
que um toque?)

Sermões e lógicas jamais convencem
o peso da noite cala bem mais
fundo em minha alma.

(Só o que se prova
a qualquer homem ou mulher,
é que é;
só o que ninguém pode negar,
é que é.)

Um minuto e uma gota de mim
tranquilizam o meu cérebro:
eu acredito que torrões de barro
podem vir a ser lâmpadas e amantes,
que um manual de manuais é a carne
de um homem ou mulher,
e que num ápice ou numa flor
está o sentimento de um pelo outro,
e hão-de ramificar-se ao infinito
a começar daí
até que essa lição venha a ser de todos,
e um e todos nos possam deleitar
e nós a eles.



@-;–

All truths wait in all things,
They neither hasten their own delivery nor resist it,
They do not need the obstetric forceps of the surgeon,
The insignificant is as big to me as any,
(What is less or more than a touch?)
Logic and sermons never convince,

The damp of the night drives deeper into my soul.
(Only what proves itself to every man and woman is so,
Only what nobody denies is so.)

A minute and a drop of me settle my brain,
I believe the soggy clods shall become lovers and lamps,
And a compend of compends is the meat of a man or woman,
And a summit and flower there is the feeling they have for each other,
And they are to branch boundlessly out of that lesson until it
becomes omnific,
And until one and all shall delight us, and we them.

Walt Whitman

Fica


Ficai, pedi
às flores cortadas.
Elas curvaram
ainda mais as cabeças.

Fica, disse à aranha,
que fugiu.

Fica, folha.
Ela enrubesceu
de vergonha por mim e por si.

Fica, disse ao meu corpo.
Ele sentou-se como o faria um cão,
obediente por instantes,
depois começou a tremer.

Fica, disse à terra de vales e prados ribeirinhos,
de escarpas fossilizadas,
de calcário e arenito.
Ela olhou para trás,
a expressão insegura, em silêncio.

Ficai, disse aos meus amores.
Cada um deles respondeu:
Sempre.


Jane Hirshfield

O Canto da Estrada Aberta


















1
A pé e de coração leve eu tomo a estrada aberta,
Saudável, livre, o mundo diante de mim,
O longo caminho de terra diante de mim me levando para onde quer que eu escolha.

Doravante eu não peço boa sorte, eu mesmo sou a boa sorte,
Doravante eu não choramingo mais, não adio mais, não preciso de nada,
Basta de reclamações em interiores, bibliotecas, querelas críticas,
Forte e satisfeito eu viajo a estrada aberta.

A terra, isto é o suficiente,
Eu não quero as constelações mais perto,
Eu sei que elas estão muito bem lá onde estão,
Eu sei que elas bastam para aqueles que pertencem a elas.

(Mesmo aqui eu carrego meus velhos e deliciosos fardos,
Eu os carrego, homens e mulheres, eu os carrego comigo para onde quer que eu vá,
Eu juro que é impossível me livrar deles,
Eu estou preenchido com eles, e vou preenchê-los de volta).


2.
Você eu adentro, estrada, e olho em volta, acredito que você não é tudo o que há aqui,
Eu acredito que muito não-visto também está aqui.
Aqui a profunda lição da recepção: nem preferência, nem negação,
O negro com sua cabeça encaracolada, o meliante, os enfermos, o analfabeto, não são negados;
O nascimento, a busca apressada pelo médico, o passo lento do pedinte, o cambalear do bêbado, a festa sorridente dos mecânicos,
O jovem foragido, a carruagem do rico, o esnobe, o casal fugitivo,

O mercador que madruga, o carro funerário, o transporte da mobília para a cidade, o retorno de volta da cidade,
Eles passam, eu também passo, qualquer coisa passa, nenhum pode ser interditado,
Nenhum deixará de ser aceito, nenhum deixará de ser querido por mim.


3.
Você ar que me oferece fôlego para respirar!
Vocês objetos que chamam da difusão os meus sentidos e lhes dão forma!
Você luz que envolve a mim e a todas as coisas em chuvas delicadas e constantes!
Vocês caminhos gastos nos desníveis irregulares pelos acostamentos!
Eu acredito que vocês são latentes de existências não-vistas, vocês me são tão caros.

Vocês passeios sinalizados das cidades! Vocês sarjetas fortes nas beiradas!
Vocês barcas! Vocês pranchas e postes do cais! Vocês laterais revestidas de madeira! Vocês barcos distantes!

Vocês colunas de casas! Vocês fachadas encrustadas de janelas! Vocês telhados!
Vocês sacadas e entradas! Vocês cumeeiras e grades de ferro!
Vocês janelas cujas cascas transparentes podem expor tanto!
Vocês portas e degraus ascendentes! Vocês arcos!
Vocês pedras cinzentas das calçadas intermináveis! Vocês cruzamentos percorridos!
De tudo que os tocou, acredito que vocês transferiram para si mesmos, e agora transfeririam o mesmo secretamente para mim,
De vivos e mortos vocês povoaram suas superfícies impassivas, e assim devem ser os espíritos visíveis e amigáveis para comigo.


4
A terra expandindo à direita e à esquerda,
A imagem viva, cada parte em sua melhor luz,
A música se derramando onde é querida e parando onde não é querida,
A voz jubilosa da estrada pública, o sentimento fresco e alegre da estrada.

Ó rodovia eu viajo, você me diz Não me abandone?
Você diz Não ouse, se me deixar você estará perdido?
Você diz Eu já estou pronta, bem batida e inegável, adere a mim?

Ó estrada pública, Eu digo de volta Eu não tenho medo de te deixar, embora eu te ame,
Você me expressa melhor do que eu mesmo posso me expressar,
Você será mais para mim do que meu poema.

Eu acho que feitos heróicos foram todos concebidos ao ar livre, e todos os poemas livres também,
Eu acho que eu poderia parar aqui e fazer milagres,
Eu acho que eu devo gostar de qualquer coisa que eu encontre na estrada, e qualquer um que me veja deve gostar de mim,
Eu acho que qualquer um que eu vir deve estar feliz.


5.
Desta hora em diante eu me declaro solto de linhas e limites imaginários,
Indo onde eu me alisto, meu próprio mestre, total e absoluto,
Escutando os outros, levando bastante em consideração o que eles dizem,
pausando, procurando, recebendo, contemplando,
Com gentileza, mas com vontade inegável, me afastando das travas que me travariam.
Eu inalo grandes lufadas de espaço,
O leste e oeste são meus, e o norte e o sul são meus.

Eu sou maior, melhor do que eu pensei,
Eu não sabia que eu continha tanta bondade.

Tudo parece bonito para mim,Eu posso repetir várias vezes para mulheres e homens Você me fez tão bem Eu faria o mesmo por você,
Eu recrutarei para mim e para você em minha ida,
Eu me espalharei entre homens e mulheres em minha ida,
Eu lançarei uma nova satisfação e dureza entre eles,
Quem quer que me negue não me incomodará,
Quem quer que me aceite ele ou ela será abençoado e me abençoará.


6.
Agora se mil homens perfeitos fossem aparecer isto não me surpreenderia,
Agora se mil belas figuras de mulheres aparecessem isto não me impressionaria.

Agora eu vejo o segredo da criação das melhores pessoas,
É crescer ao ar livre e comer e dormir com a terra.

Aqui há espaço para um grande feito pessoal,
(Tal feito se apodera dos corações de toda a raça humana,
A efusão de sua força e vontade supera a lei e zomba de toda a autoridade e todo argumento contrário a si).

Aqui está o teste da sabedoria,
A sabedoria não é testada definitivamente nas escolas,
A sabedoria não pode ser passada de alguém que a tem para outro que não a tem,
A sabedoria é da alma, não é suscetível de prova, é sua própria prova,
Se aplica a todos os estágios e objetos e qualidades e é contente,
É a certeza da realidade e imortalidade das coisas, da excelência das coisas;
Há algo no flutuar da visão das coisas que a provoca para fora da alma.

Agora eu reexamino filosofias e religiões,
Elas podem funcionar bem dentro das salas de aula,
mas simplesmente não funcionam sob nuvens espaçosas e ao redor da paisagem e das correntes que fluem.

Aqui está a compreensão,
Aqui está um homem apurado - ele compreende aqui o que ele tem em si,
O passado, o futuro, majestade, amor - se eles estão ausentes de você, você está ausente deles.

Apenas o núcleo de cada objeto nutre;
Onde está aquele que rasga as cascas para você e para mim?
Onde está aquele que desfaz estratagemas e envólucros para você e para mim?

Aqui está a adesão, ela não é previamente formada, é oportuna;
Você sabe o que é ser amado por estranhos ao passar?
Você conhece a fala daqueles olhos que se viram?


7.
Aqui está o efluxo da alma,
O efluxo da alma vem de dentro através de portões amparadores, sempre provocando questões,
Estes anseios por que eles existem? Estes pensamentos na escuridão por que eles existem?
Por que há homens e mulheres que quando estão perto de mim a luz do sol expande o meu sangue?
Por que quando eles me deixam minhas flâmulas de alegria se afundam lisas e planas?
Por que há árvores sob as quais eu nunca caminho mas de onde pensamentos grandes e melodiosos recaem sobre mim?
(Eu acho que eles ficam lá pendurados verões e invernos naquelas árvores e sempre deixam cair frutos quando eu passo)
O que é isto que eu troco tão subitamente com estranhos?
Com algum motorista enquanto eu viajo sentado ao seu lado?
Com algum pescador arrastando sua rede pela praia enquanto eu passo por lá e paro?
O que me dá ser livre com a benevolência de uma mulher ou um homem? O que lhes dá serem livres com a minha?


8.
O efluxo da alma é felicidade, aqui está a felicidade,
Eu acho que ela impregna o ar aberto, esperando em todos os momentos,
Agora ela flui até nós, nós estamos verdadeiramente carregados.

Aqui se ergue o fluído e seu caráter conector,
O fluído e seu caráter conector é o frescor e a doçura de homem e mulher,
(As ervas da manhã não brotam todos os dias mais frescas e doces das raízes de si mesmas do que ele brota fresco e doce continuamente de si mesmo)

Em direção ao fluído e seu caráter conector exala o suor do amor de jovem e velho,
Dele cai o feitiço destilado que zomba da beleza e dos feitos,
Em direção a ele suspira a dor que estremece de saudades do contato.


9.
Allons! Quem quer que você seja venha viajar comigo!
Viajando comigo você encontra o que nunca cansa.

A terra nunca cansa,
A terra é rude, silenciosa, incompreensível no começo, a Natureza é rude e incompreensível no começo,
Não se desencoraje, continue, há coisas divinas bem encobertas,
Eu te juro há coisas divinas mais bonitas do que as palavras podem dizer.

Allons! Não devemos parar aqui,
Por mais doces que sejam estes armazéns cobertos, por mais conveniente que seja esta morada nós não podemos permanecer aqui,
Por mais protegido que seja este porto e por mais calmas estas águas nós não devemos ancorar aqui,
Por mais bem-vinda que seja a hospitalidade que nos cerca nós só podemos receber um pouco dela.


10.
Allons! Os incentivos deverão ser maiores,
Nós navegaremos sem trilhas e em mares selvagens,
Nós iremos onde os ventos sopram, as ondas quebram e o veleiro Yankee acelera com suas velas cheias.

Allons! Com poder, liberdade, a terra, os elementos,
Saúde, questionamento, alegria, auto-estima, curiosidade;
Allons! De todas as fórmulas!
De todas as suas fórmulas, Ó padres materialistas com olhos de morcego.

O cadáver embolorado bloqueia a passagem - o enterro já não pode esperar.

Allons! Ainda assim, atenção!
Aquele que viaja comigo precisa do melhor sangue, músculo, resistência,
Nenhum poderá ser testado até que ele ou ela traga coragem e saúde,
Não venha aqui se você já gastou o melhor de si,
Só podem vir aqueles que vêm em corpos doces e decididos,
Nenhuma pessoa doente, nenhum bebedor de rum ou mácula venérea é permitida aqui.

(Eu e meu não convencemos por argumentos, símiles, rimas,
Nós convencemos com nossa presença).


11
Ouçam! Eu serei honesto com vocês,
Eu não ofereço os velhos prêmios suaves, mas os novos prêmios rudes,
Estes são os dias que têm que acontecer com vocês:
Vocês não devem amontoar o que é chamado de riquezas,
Vocês devem espalhar com mãos generosas tudo o que ganharem ou conseguirem,
Vocês quando chegarem a uma cidade destino, vocês mal aproveitarão a satisfação antes de serem chamados por um chamado irresistível de partir,
Vocês serão tratados com sorrisos irônicos e zombaria por aqueles que ficarem para trás,
Os acenos de amor que vocês receberem deverão ser respondidos com beijos apaixonados de partida,
Vocês não devem permitir o aperto daqueles que lançam suas mãos em busca de vocês.


12
Allons! Em busca dos grandes Companheiros, e de pertencer a eles!
Eles também estão na estrada - são os homens ágeis e majestosos - são as maiores mulheres,
Adoradores das calmas dos mares e das tempestades dos mares,
Marinheiros de muitos barcos, caminhantes de terras de muitas léguas,
Habituès de muitos países distantes, habituès de moradas muito longínquas,
Confiadores de homens e mulheres, observadores de cidades, labutadores solitários,
Pausadores e contempladores de tufos, flores, conchas da praia,
Dançarinos em bailes de casamento, beijadores de noivas, tenros ajudadores de crianças, carregadores de crianças,
Soldados de revoltas, vigias de covas abertas, descedores de caixões,
Jornadeiros pelas estações do ano consecutivas, através dos anos, os anos estranhos cada um emergindo daquele que o precedeu,
Jornadeiros com companheiros: suas próprias fases diversas,
Caminheiros adiante dos latentes dias de infância irrealizados,
Jornadeiros alegremente com sua própria juventude, jornadeiros com sua masculinidade de barba bem feita,
Jornadeiros com sua mulheridade, ampla, insuperável, satisfeita,
Jornadeiros com sua própria sublime e velha idade de masculinidade e mulheridade,
Velha idade, calma, expandida, ampla com a larguidão altiva do universo,
Velha idade, correndo livre com a deliciosa liberdade da morte próxima.


13.
Allons! Para o que é sem fim como foi sem começo,
Para aguentar muito, caminhadas dos dias, repousos das noites,
Para juntar tudo na viagem que eles tendem a fazer, e os dias e as noites para os quais eles tendem,
Novamente juntá-los no início de jornadas superiores,
Não ver nada em lugar algum que não seja o que se possa alcançar e ultrapassar,
Não conceber nenhum tempo, por mais longínquo, que não aquele que se possa alcançar e ultrapassar,
Não buscar ou desprezar estrada alguma que não as que se alongam e esperam por você, por mais longínquas mas que se alongam e esperam por você,
Não ver nenhum ser, nem de Deus, nem nenhum mas ir também até lá,
Não ver nenhuma posse mas poder tê-la, desfrutando de tudo sem trabalho ou compra, abstraindo o banquete sem abstrair uma partícula dele,
Tomar o melhor da fazenda do fazendeiro e da mansão elegante do homem rico, e as bençãos puras do casal bem casado, e as frutas das pomares e as flores dos jardins,
Tomar para seu uso próprio das cidades compactadas ao passar por elas,
carregar depois consigo prédios e ruas para onde quer que vá,
Recolher as mentes dos homens dos seus cérebros ao encontrá-los, recolher o amor dos seus corações,
Levar seus amores consigo na estrada, por tudo que você deixa para trás,
Conhecer o próprio universo como uma estrada, como muitas estradas, como estradas para almas viajantes.

Tudo parte para longe pelo progresso das almas,
Toda religião, todas as coisas sólidas, artes, governos - tudo o que foi ou é aparente sobre este ou outro globo cai em nichos e esquinas antes da procissão das almas pelas grandes estradas do universo.

Diante do progresso das almas de homens e mulheres pelas grandes estradas do universo, todo outro progresso é o emblema e o suporte necessários.

Para sempre vivos, para sempre adiante,
Imponentes, solenes, tristes, recolhidos, perplexos, loucos, turbulentos, débeis, insatisfeitos,
Desesperados, orgulhosos, afeiçoados, doentes, aceitos por homens, rejeitados por mulheres,
Eles vão! Eles vão! Eu sei que eles vão, mas não sei para onde vão,
Mas sei que vão em direção ao melhor - em direção a algo grande!

Quem quer que você seja, venha adiante! Homem ou mulher venha adiante!
Você não deve ficar dormindo ou se arrastando pela casa, mesmo que você a tenha construído ou que ela tenha sido construída para você.

Sair do confinamento escuro! Sair de trás da tela!
É inútil protestar, eu sei de tudo e o exponho.

Observe através de você tão mau quanto o resto,
Através da risada, do dançar, do jantar, do cear, das pessoas,
Dentro dos vestidos e ornamentos, dentro daqueles rostos lavados e aparados,
Observe uma repulsa e um desespero, secretos e silenciosos.

Nenhum marido, nenhuma esposa, nenhum amigo confiável para ouvir a confissão,
Outro eu, um duplo de cada um, se ocultando e se escondendo,
Sem forma e sem palavras pelas ruas das cidades, educado e brando nos salões,
Nos vagões das ferrovias, nos barcos a vapor, nas assembleias públicas,
Lar para as casas de homens e mulheres, na mesa, no quarto, em todo lugar,
Elegantemente vestido, semblante sorridente, postura ereta, morte atrás dos ossos do peito, inferno atrás dos ossos do crânio,
Sob o colete e as luvas, sob as fitas e flores artificiais,
Mantendo-se dentro dos costumes, não falando uma sílaba sobre si mesmo,
Falando sobre qualquer outra coisa, mas nunca de si mesmo.


14
Allons! Através de lutas e guerras!
O objetivo que não foi nomeado não pode ser revogado.

Foram bem-sucedidas as lutas passadas?
O que foi bem-sucedido? Você? Sua nação? A natureza?
Entendam-me bem agora - é dado pela essência das coisas que de qualquer fruto de sucesso, não importa qual, deverá vir adiante algo que fará uma luta ainda maior ser necessária.

Meu chamado é o chamado de batalha, eu nutro rebeliões ativas,
Aquele que vai comigo tem de ir bem armado,
Aquele que vai comigo tem frequentemente uma dieta esparsa, pobreza, inimigos raivosos, deserções.


15
Allons! A estrada está diante de nós!
É seguro - eu a testei - meus próprios pés a testaram bem - não se detenham!

Deixem o papel ficar sobre a mesa sem escritura, e o livro na prateleira sem ser aberto!
Deixem as ferramentas ficarem na oficina! Deixem o dinheiro ficar sem ser ganho!
Deixem a escola ficar lá! Não prestem atenção ao choro do professor!
Deixem o pregador em seu púlpito! Deixem o advogado argumentar na corte e o juiz expôr a lei.

Camerado, eu te dou minha mão!
Eu te dou meu amor, mais precioso que o dinheiro,
Eu te dou a mim mesmo, antes da prédica ou da lei;
Você me dará a si mesmo? Você virá viajar comigo?
Ficaremos colados um ao outro enquanto vivermos?




Song of the open road

1
Afoot and light-hearted I take to the open road,
Healthy, free, the world before me,
The long brown path before me leading wherever I choose.

Henceforth I ask not good-fortune, I myself am good-fortune,
Henceforth I whimper no more, postpone no more, need nothing,
Done with indoor complaints, libraries, querulous criticisms,
Strong and content I travel the open road.

The earth, that is sufficient,
I do not want the constellations any nearer,
I know they are very well where they are,
I know they suffice for those who belong to them.

(Still here I carry my old delicious burdens,
I carry them, men and women, I carry them with me wherever I go,
I swear it is impossible for me to get rid of them,
I am fill’d with them, and I will fill them in return.)


2
You road I enter upon and look around, I believe you are not all that is here,
I believe that much unseen is also here.

Here the profound lesson of reception, nor preference nor denial,
The black with his woolly head, the felon, the diseas’d, the illiterate person, are not denied;
The birth, the hasting after the physician, the beggar’s tramp, the drunkard’s stagger, the laughing party of mechanics,
The escaped youth, the rich person’s carriage, the fop, the eloping couple,

The early market-man, the hearse, the moving of furniture into the town, the return back from the town,
They pass, I also pass, any thing passes, none can be interdicted,
None but are accepted, none but shall be dear to me.


3
You air that serves me with breath to speak!
You objects that call from diffusion my meanings and give them shape!
You light that wraps me and all things in delicate equable showers!
You paths worn in the irregular hollows by the roadsides!
I believe you are latent with unseen existences, you are so dear to me.

You flagg’d walks of the cities! you strong curbs at the edges!
You ferries! you planks and posts of wharves! you timber-lined sides! you distant ships!

You rows of houses! you window-pierc’d façades! you roofs!
You porches and entrances! you copings and iron guards!
You windows whose transparent shells might expose so much!
You doors and ascending steps! you arches!
You gray stones of interminable pavements! you trodden crossings!
From all that has touch’d you I believe you have imparted to yourselves, and now would impart the same secretly to me,
From the living and the dead you have peopled your impassive surfaces, and the spirits thereof would be evident and amicable with me.


4
The earth expanding right hand and left hand,
The picture alive, every part in its best light,
The music falling in where it is wanted, and stopping where it is not wanted,
The cheerful voice of the public road, the gay fresh sentiment of the road.

O highway I travel, do you say to me Do not leave me?
Do you say Venture not—if you leave me you are lost?
Do you say I am already prepared, I am well-beaten and undenied, adhere to me?

O public road, I say back I am not afraid to leave you, yet I love you,
You express me better than I can express myself,
You shall be more to me than my poem.

I think heroic deeds were all conceiv’d in the open air, and all free poems also,
I think I could stop here myself and do miracles,
I think whatever I shall meet on the road I shall like, and whoever beholds me shall like me,
I think whoever I see must be happy.


5
From this hour I ordain myself loos’d of limits and imaginary lines,
Going where I list, my own master total and absolute,
Listening to others, considering well what they say,
Pausing, searching, receiving, contemplating,
Gently,but with undeniable will, divesting myself of the holds that would hold me.
I inhale great draughts of space,
The east and the west are mine, and the north and the south are mine.

I am larger, better than I thought,
I did not know I held so much goodness.

All seems beautiful to me,
I can repeat over to men and women You have done such good to me I would do the same to you,
I will recruit for myself and you as I go,
I will scatter myself among men and women as I go,
I will toss a new gladness and roughness among them,
Whoever denies me it shall not trouble me,
Whoever accepts me he or she shall be blessed and shall bless me.


6
Now if a thousand perfect men were to appear it would not amaze me,
Now if a thousand beautiful forms of women appear’d it would not astonish me.

Now I see the secret of the making of the best persons,
It is to grow in the open air and to eat and sleep with the earth.

Here a great personal deed has room,
(Such a deed seizes upon the hearts of the whole race of men,
Its effusion of strength and will overwhelms law and mocks all authority and all argument against it.)

Here is the test of wisdom,
Wisdom is not finally tested in schools,
Wisdom cannot be pass’d from one having it to another not having it,
Wisdom is of the soul, is not susceptible of proof, is its own proof,
Applies to all stages and objects and qualities and is content,
Is the certainty of the reality and immortality of things, and the excellence of things;
Something there is in the float of the sight of things that provokes it out of the soul.

Now I re-examine philosophies and religions,
They may prove well in lecture-rooms, yet not prove at all under the spacious clouds and along the landscape and flowing currents.

Here is realization,
Here is a man tallied—he realizes here what he has in him,
The past, the future, majesty, love—if they are vacant of you, you are vacant of them.

Only the kernel of every object nourishes;
Where is he who tears off the husks for you and me?
Where is he that undoes stratagems and envelopes for you and me?

Here is adhesiveness, it is not previously fashion’d, it is apropos;
Do you know what it is as you pass to be loved by strangers?
Do you know the talk of those turning eye-balls?


7
Here is the efflux of the soul,
The efflux of the soul comes from within through embower’d gates, ever provoking questions,
These yearnings why are they? these thoughts in the darkness why are they?
Why are there men and women that while they are nigh me the sunlight expands my blood?
Why when they leave me do my pennants of joy sink flat and lank?
Why are there trees I never walk under but large and melodious thoughts descend upon me?
(I think they hang there winter and summer on those trees and always drop fruit as I pass;)
What is it I interchange so suddenly with strangers?
What with some driver as I ride on the seat by his side?
What with some fisherman drawing his seine by the shore as I walk by and pause?
What gives me to be free to a woman’s and man’s good-will? what gives them to be free to mine?


8
The efflux of the soul is happiness, here is happiness,
I think it pervades the open air, waiting at all times,
Now it flows unto us, we are rightly charged.

Here rises the fluid and attaching character,
The fluid and attaching character is the freshness and sweetness of man and woman,
(The herbs of the morning sprout no fresher and sweeter every day out of the roots of themselves, than it sprouts fresh and sweet continually out of itself.)

Toward the fluid and attaching character exudes the sweat of the love of young and old,
From it falls distill’d the charm that mocks beauty and attainments,
Toward it heaves the shuddering longing ache of contact.


9
Allons! whoever you are come travel with me!
Traveling with me you find what never tires.

The earth never tires,
The earth is rude, silent, incomprehensible at first, Nature is rude and incomprehensible at first,
Be not discouraged, keep on, there are divine things well envelop’d,
I swear to you there are divine things more beautiful than words can tell.

Allons! we must not stop here,
However sweet these laid-up stores, however convenient this dwelling we cannot remain here,
However shelter’d this port and however calm these waters we must not anchor here,
However welcome the hospitality that surrounds us we are permitted to receive it but a little while.


10
Allons! the inducements shall be greater,
We will sail pathless and wild seas,
We will go where winds blow, waves dash, and the Yankee clipper speeds by under full sail.

Allons! with power, liberty, the earth, the elements,
Health, defiance, gayety, self-esteem, curiosity;
Allons! from all formules!
From your formules, O bat-eyed and materialistic priests.

The stale cadaver blocks up the passage—the burial waits no longer.

Allons! yet take warning!
He traveling with me needs the best blood, thews, endurance,
None may come to the trial till he or she bring courage and health,
Come not here if you have already spent the best of yourself,
Only those may come who come in sweet and determin’d bodies,
No diseas’d person, no rum-drinker or venereal taint is permitted here.

(I and mine do not convince by arguments, similes, rhymes,
We convince by our presence.)


11
Listen! I will be honest with you,
I do not offer the old smooth prizes, but offer rough new prizes,
These are the days that must happen to you:
You shall not heap up what is call’d riches,
You shall scatter with lavish hand all that you earn or achieve,
You but arrive at the city to which you were destin’d, you hardly settle yourself to satisfaction before you are call’d by an irresistible call to depart,
You shall be treated to the ironical smiles and mockings of those who remain behind you,
What beckonings of love you receive you shall only answer with passionate kisses of parting,
You shall not allow the hold of those who spread their reach’d hands toward you.


12
Allons! after the great Companions, and to belong to them!
They too are on the road—they are the swift and majestic men—they are the greatest women,
Enjoyers of calms of seas and storms of seas,
Sailors of many a ship, walkers of many a mile of land,
Habituès of many distant countries, habituès of far-distant dwellings,
Trusters of men and women, observers of cities, solitary toilers,
Pausers and contemplators of tufts, blossoms, shells of the shore,
Dancers at wedding-dances, kissers of brides, tender helpers of children, bearers of children,
Soldiers of revolts, standers by gaping graves, lowerers-down of coffins,
Journeyers over consecutive seasons, over the years, the curious years each emerging from that which preceded it,
Journeyers as with companions, namely their own diverse phases,
Forth-steppers from the latent unrealized baby-days,
Journeyers gayly with their own youth, journeyers with their bearded and well-grain’d manhood,
Journeyers with their womanhood, ample, unsurpass’d, content,
Journeyers with their own sublime old age of manhood or womanhood,
Old age, calm, expanded, broad with the haughty breadth of the universe,
Old age, flowing free with the delicious near-by freedom of death.


13
Allons! to that which is endless as it was beginningless,
To undergo much, tramps of days, rests of nights,
To merge all in the travel they tend to, and the days and nights they tend to,
Again to merge them in the start of superior journeys,
To see nothing anywhere but what you may reach it and pass it,
To conceive no time, however distant, but what you may reach it and pass it,
To look up or down no road but it stretches and waits for you, however long but it stretches and waits for you,
To see no being, not God’s or any, but you also go thither,
To see no possession but you may possess it, enjoying all without labor or purchase, abstracting the feast yet not abstracting one particle of it,
To take the best of the farmer’s farm and the rich man’s elegant villa, and the chaste blessings of the well-married couple, and the fruits of orchards and flowers of gardens,
To take to your use out of the compact cities as you pass through,
To carry buildings and streets with you afterward wherever you go,
To gather the minds of men out of their brains as you encounter them, to gather the love out of their hearts,
To take your lovers on the road with you, for all that you leave them behind you,
To know the universe itself as a road, as many roads, as roads for traveling souls.

All parts away for the progress of souls,
All religion, all solid things, arts, governments—all that was or is apparent upon this globe or any globe, falls into niches and corners before the procession of souls along the grand roads of the universe.

Of the progress of the souls of men and women along the grand roads of the universe, all other progress is the needed emblem and sustenance.

Forever alive, forever forward,
Stately, solemn, sad, withdrawn, baffled, mad, turbulent, feeble, dissatisfied,
Desperate, proud, fond, sick, accepted by men, rejected by men,
They go! they go! I know that they go, but I know not where they go,
But I know that they go toward the best—toward something great.

Whoever you are, come forth! or man or woman come forth!
You must not stay sleeping and dallying there in the house, though you built it, or though it has been built for you.

Out of the dark confinement! out from behind the screen!
It is useless to protest, I know all and expose it.

Behold through you as bad as the rest,
Through the laughter, dancing, dining, supping, of people,
Inside of dresses and ornaments, inside of those wash’d and trimm’d faces,
Behold a secret silent loathing and despair.

No husband, no wife, no friend, trusted to hear the confession,
Another self, a duplicate of every one, skulking and hiding it goes,
Formless and wordless through the streets of the cities, polite and bland in the parlors,
In the cars of railroads, in steamboats, in the public assembly,
Home to the houses of men and women, at the table, in the bedroom, everywhere,
Smartly attired, countenance smiling, form upright, death under the breast-bones, hell under the skull-bones,
Under the broadcloth and gloves, under the ribbons and artificial flowers,
Keeping fair with the customs, speaking not a syllable of itself,
Speaking of any thing else but never of itself.


14
Allons! through struggles and wars!
The goal that was named cannot be countermanded.

Have the past struggles succeeded?
What has succeeded? yourself? your nation? Nature?
Now understand me well—it is provided in the essence of things that from any fruition of success, no matter what, shall come forth something to make a greater struggle necessary.

My call is the call of battle, I nourish active rebellion,
He going with me must go well arm’d,
He going with me goes often with spare diet, poverty, angry enemies, desertions.


15
Allons! the road is before us!
It is safe—I have tried it—my own feet have tried it well—be not detain’d!

Let the paper remain on the desk unwritten, and the book on the shelf unopen’d!
Let the tools remain in the workshop! let the money remain unearn’d!
Let the school stand! mind not the cry of the teacher!
Let the preacher preach in his pulpit! let the lawyer plead in the court, and the judge expound the law.

Camerado, I give you my hand!
I give you my love more precious than money,
I give you myself before preaching or law;
Will you give me yourself? will you come travel with me?
Shall we stick by each other as long as we live?



Walt Whitman - Tradução: Tomaz Amorim Izabel

Coringa

























Sobre as águas, jogando seu pão,
Enquanto os olhos do ídolo, com a cabeça de ferro, estão brilhando.
Barcos distantes rumo à bruma seguem seus cursos,
Você nasceu com uma cobra em seus pulsos, enquanto um furacão estava soprando
Liberdade logo ao virar a esquina para você
Mas, com a confiança tão longe, de que servirá?


Curinga dance para a melodia do rouxinol,
Pássaro, voe alto ao luar
Oh, oh, oh, Coringa.


O sol põe-se tão velozmente no céu,
Você se levanta e diz adeus para ninguém.
Tolos correm para lugares onde anjos temem pôr seus pés,
O futuro dos dois, tão cheios de temor, você não tem nenhum.
Mudando mais uma camada de pele,
Mantendo-se a um passo a frente do perseguidor dentro de você.


Curinga dance para a melodia do rouxinol,
Pássaro, voe alto ao luar
Oh, oh, oh, Coringa.


Você é um homem das montanhas, você pode andar nas nuvens,
Manipulador de multidões, você distorce sonhos.
Você irá para Sodoma e Gomorra,
Mas o que te importa? Lá ninguém vai querer casar com a
sua irmã. Amigo do mártir, um amigo da mulher que causa vergonha,
Você olha dentro da fornalha escaldante, vê um homem rico sem nome.


Curinga dance para a melodia do rouxinol,
Pássaro, voe alto ao luar
Oh, oh, oh, Coringa.


Bem, o Livro do Levítico e Deuteronômio,
A lei da selva e do mar são seus únicos professores.
Na fumaça do crepúsculo sobre um corcel lácteo,
Michelangelo realmente poderia ter esculpido sua feição.
Repousando nos prados, longe do espaço turbulento,
Meio adormecido perto das estrelas, com um pequeno cachorro lambendo seu rosto.


Curinga dance para a melodia do rouxinol,
Pássaro, voe alto ao luar
Oh, oh, oh, Coringa.


Bem, o fuzileiro aproxima-se silenciosamente dos doentes e aleijados,
O pregador busca o mesmo, quem chegará lá primeiro é incerto.
Cassetetes e canhões de água, gás lacrimejante, cadeados,
Coquetéis molotov e pedras atrás de cada cortina,
Juízes pérfidos morrendo nas teias que eles mesmos tecem,
É só uma questão de tempo até que a noite se instale.


Curinga dance para a melodia do rouxinol,
Pássaro, voe alto ao luar
Oh, oh, oh, Coringa.


É um mundo sombrio, céus são escorregadamente cinzentos,
Uma mulher acabou de dar à luz a um príncipe hoje e o vestiu de escarlate.
Ele irá pôr o padre no bolso, pôr a lâmina para aquecer,
Tirem as crianças sem mães da rua
E coloquem-nas aos pés de uma meretriz.

Oh, Curinga, você sabe o que ele quer,
Oh, Curinga, você não demonstra nenhuma reação.


Curinga dance para a melodia do rouxinol,
Pássaro, voe alto ao luar
Oh, oh, oh, Coringa.



Jokerman


Standing on the waters casting your bread
While the eyes of the idol with the iron head are glowing.
Distant ships sailing into the mist,
You were born with a snake in both of your fists while a hurricane was blowing.
Freedom just around the corner for you
But with the truth so far off, what good will it do?


Jokerman dance to the nightingale tune,
Bird fly high by the light of the moon,
Oh, oh, oh, Jokerman.


So swiftly the sun sets in the sky,
You rise up and say goodbye to no one.
Fools rush in where angels fear to tread,
Both of their futures, so full of dread, you don't show one.
Shedding off one more layer of skin,
Keeping one step ahead of the persecutor within.


Jokerman dance to the nightingale tune,
Bird fly high by the light of the moon,
Oh, oh, oh, Jokerman.


You're a man of the mountains, you can walk on the clouds,
Manipulator of crowds, you're a dream twister.
You're going to Sodom and Gomorrah
But what do you care? Ain't nobody there would want to marry your sister.
Friend to the martyr, a friend to the woman of shame,
You look into the fiery furnace, see the rich man without any name.


Jokerman dance to the nightingale tune,
Bird fly high by the light of the moon,
Oh, oh, oh, Jokerman.


Well, the Book of Leviticus and Deuteronomy,
The law of the jungle and the sea are your only teachers.
In the smoke of the twilight on a milk-white steed,
Michelangelo indeed could've carved out your features.
Resting in the fields, far from the turbulent space,
Half asleep near the stars with a small dog licking your face.


Jokerman dance to the nightingale tune,
Bird fly high by the light of the moon,
Oh. oh. oh. Jokerman.


Well, the rifleman's stalking the sick and the lame,
Preacherman seeks the same, who'll get there first is uncertain.
Nightsticks and water cannons, tear gas, padlocks,
Molotov cocktails and rocks behind every curtain,
False-hearted judges dying in the webs that they spin,
Only a matter of time 'til night comes steppin' in.


Jokerman dance to the nightingale tune,
Bird fly high by the light of the moon,
Oh, oh, oh, Jokerman.


It's a shadowy world, skies are slippery gray,
A woman just gave birth to a prince today and dressed him in scarlet.
He'll put the priest in his pocket, put the blade to the heat,
Take the motherless children off the street
And place them at the feet of a harlot.

Oh, Jokerman, you know what he wants,
Oh, Jokerman, you don't show any response.


Jokerman dance to the nightingale tune,
Bird fly high by the light of the moon,
Oh, oh, oh, Jokerman.


Bob Dylan 

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