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Morrer

















Pois morrer é apenas isto:
cerrar os olhos vazios
e esquecer o que foi visto;

é não supor-se infinito,
mas antes fáustico e ambíguo,
jogral entre a história e o mito;

é despedir-se em surdina,
sem epitáfio melífluo
ou testamento sovina;

é talvez como despir
o que em vida não vestia
e agora é inútil vestir;

é nada deixar aqui:
memória, pecúlio, estirpe,
sequer um traço de si;

é findar-se como um círio
em cuja luz tudo expira
sem êxtase nem martírio.


Ivan Junqueira - De O Grifo (1983-86)

Tristeza















Esta noite eu durmo de tristeza.
(O sono que eu tinha morreu ontem
queimado pelo fogo de meu bem.)
O que há em mim é só tristeza,
uma tristeza úmida, que se infiltra
pelas paredes de meu corpo
e depois fica pingando devagar
como lágrima de olho escondido.

(Ali, no canto apagado da sala,
meu sorriso é apenas um brinquedo
que a mãozinha da criança quebrou.)

E o resto é mesmo tristeza.


Ivan Junqueira

Ritual
























Fecho as janelas desta casa
(seus corredores, seus fantasmas
sua aérea arquitetura de pássaro)
fecho a insônia que inundava
meu quarto debruçado sobre o nada
fecho as cortinas onde a larva
do tempo tece agora sua praga
fecho a clara algazarra plácida
das vozes sangüíneas da alvorada
fecho o trecho taciturno da tocata
a chuva percutindo as teclas do telhado
as sombras navegando pelo pátio
e o bambuzal

Fecho as torneiras da memória

Fecho também a tumultuosa torrente de vida
que poderia ter rompido o cerco das paredes
e feito explodir a argamassa de calcário e solidão

Fecho ainda as lentas pálpebras da amada
o mofo acumulado entre seus lábios
o limo que vestiu sua carne desolada

Fecho tudo e depois me fecho

Estou cansado
estou triste
estou só

Ivan Junqueira - do livro Os Mortos (1956-64)

É o vento














É o vento que vem uivando
pelas frinchas do infinito
é o vento que vem gemendo
na espinha do plenilúnio
é o vento que vem rolando
como um cascalho de treva

É o vento que vem quebrando
as vidraças do silêncio
é o vento que vem abrindo
as cicatrizes da véspera
é o vento que vem pulsando
nas veias murchas do tempo

É o vento que vem mordendo
a carne tenra das nuvens
é o vento que vem regendo
a sinfonia das águas
é o vento que vem varrendo
a nostalgia dos túmulos

É o vento que vem trazendo
teu sorriso embalsamado
é o vento que vem despindo
a salsugem de teus seios
é o vento que vem moldando
tua gótica nudez

É o vento que vem brincando
de roda com minha infância
é o vento que vem tangendo
meus pensamentos sem rumo
é o vento que vem traçando
o mapa de minha face

É o vento que vem roendo
o pergaminho das horas
que monótonas gotejam
sobre as escarpas herméticas
do abismo turvo insondável
que me separa de mim


Ivan Junqueira

O Poema






















Não sou eu que escrevo o meu poema:
ele é que se escreve e que se pensa,
como um polvo a distender-se, lento,
no fundo das águas, entre anêmonas
que nos abismos do mar despencam.

Ele é que se escreve com a pena
da memória, do amor, do tormento,
de tudo o que aos poucos se relembra:
um rosto, uma paisagem, a intensa
pulsação da luz manhã adentro.

Ela se escreve vindo do centro
de si mesmo, sempre se contendo.
É medido, estrito, minudente,
música sem clave ou instrumentos
que se escuta entre o som e o silêncio.

As palavras com que em vão ao invento
não são mais que ociosos ornamentos,
e nenhuma gala lhe acrescentam.
Seja belo ou, ao invés, horrendo,
a ele é que cabe todo engenho,

não a mim, que apenas o contemplo
como um sonho que se sustenta
sobre o nada, quando o mito e a lenda
eram as vísceras de que o poema
se servia para ir-se escrevendo.


Ivan Junqueira

Vai tudo em mim

















Vai tudo em mim, enfim, se despedindo
neste pomar sem ramos ou maçãs,
sem sol, sem hera ou relva, sem manhãs
que me recordem o que foi e é findo.

Tudo se faz sombrio, e as sombras vãs
do que eu não fui agora vão cobrindo
os ermos epitáfios, indo e vindo
entre as hermas e as lápides mais chãs.

Tudo se esvai num remoinho infindo
de atávicas moléculas malsãs:
essas do avô, do pai e das irmãs
que o sangue foi à alma transmitindo.

Tudo o que eu fui em mim de mim fugindo
em meu encalço vem me perseguindo.


Ivan Junqueira, in “O outro lado”

Quase uma sonata
















É música o rigor com que te moves
à fluida superfície do mistério,
os pés quase suspensos, a aérea
partitura do corpo, seus acordes.

Espaço e tempo são teu solo. E colhem,
não tanto a luz que entornas, mas o pólen
com que ela cinge e arroja as coisas mortas
além da espessa morte que as enrola.

E música o silêncio que te cobre
quando lampeja à noite tua nudez,
em franjas derramada sobre o leito

das águas, onde as algas te incendeiam
porque semelhas, mais que o mar profundo,
o intemporal princípio e fim de tudo.


Ivan Junqueira, in “De Opus Descontínuo”

O Poema


















Que será o poema,
essa estranha trama
de penumbra e flama
que a boca blasfema?

Que será, se há lama
no que escreve a pena
ou lhe aflora à cena
o excesso de um drama?

Que será o poema:
uma voz que clama?
Uma luz que emana?
Ou a dor que algema?


Ivan Junqueira, in “A Sagração dos Ossos"

Hoje


A sensação oca de que tudo acabou
o pânico impresso na face dos nervos
o solitário inverno da carne
a lágrima, a doce lágrima impossível...
e a chuva soluçando devagar
sobre o esqueleto tortuoso das árvores


Ivan Junqueira, em Os mortos". Rio de Janeiro: Atelier de Arte, 1964.

Antes que o sol se ponha















Antes que o sol se ponha e seja tarde,
e o azul crepuscular me deite a garra,
e eu, nu, retorne à terra sem fanfarra
ou mortalha que o corpo me resguarde;

antes que murche a pétala na jarra,
e eu cale, para sempre, sem alarde,
e tudo o que me coube, por covarde,
não mais recorde a relva que se agarra

às últimas raízes da existência;
antes que eu cerre os olhos e adormeça,
e em minhas próprias células esqueça

as chamas que me arderam na consciência;
antes que a luz regresse e que amanheça,
e eu a mim mesmo já não me conheça.



Ivan Junqueira,

"A sagração dos ossos". em:_____. Poemas reunidos. Rio de Janeiro: Record, 1999.

Esse punhado de ossos - Falecimento do Poeta Ivan Junqueira

















Esse punhado de ossos que, na areia,
alveja e estala à luz do sol a pino
moveu-se outrora, esguio e bailarino,
como se move o sangue numa veia.
Moveu-se em vão, talvez, porque o destino
lhe foi hostil e, astuto, em sua teia
bebeu-lhe o vinho e devorou-lhe à ceia
o que havia de raro e de mais fino.
Foram damas tais ossos, foram reis,
e príncipes e bispos e donzelas,
mas de todos a morte apenas fez
a tábua rasa do asco e das mazelas.
E ai, na areia anônima, eles moram.
Ninguém os escuta. Os ossos choram.



Ivan Junqueira nasceu no Rio de Janeiro (RJ) em 3 de novembro de 1934 e aqui realizou seus primeiros estudos, ingressando em seguida nas faculdades de Medicina e de Filosofia da Universidade do Brasil, cujos cursos, porém, não chegou a concluir. Iniciou-se no jornalismo em 1963 como redator da Tribuna da Imprensa, tendo atuado depois no Correio da Manhã, Jornal do Brasil e O Globo, nos quais foi redator e sub-editor até 1987. Assessor de imprensa e depois diretor do Centro de Informações das Nações Unidas no Rio de Janeiro entre 1970 e 1977, tornou-se mais tarde supervisor editorial da Editora Expressão e Cultura e diretor do Núcleo Editorial da UERJ, além de colaborador da Enciclopédia Barsa, Encyclopaedia Britannica, Enciclopédia Deita Larousse, Enciclopédia do Século XAÇ Enciclopédia Mirador Internacional e Dicionário Brasileiro de Política, este último editado pelo CPDOC, da Fundação Getúlio Vargas. Foi também assessor de Rubem Fonseca na Fundação Rio. Como critico literário e ensaísta, tem colaborado em todos os grandes jornais e revistas do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, bem como em publicações especializadas nacionais e estrangeiras, entre elas Colóquio Letras, Revista do Brasil, Senhor, Leitura e Iberomania. Em 1984 foi escolhido como a "Personalidade Intelectual do Ano" pela UBE. Assessor da Fundação Nacional de Artes Cênicas (Fundacen) de 1987 a 1990, no ano seguinte transferiu-se para a Fundação Nacional de Arte (Funarte), onde foi editor da revista Piracema e chefe da Divisão de Texto da Coordenação de Edições, tendo se aposentado do serviço público em 1997. Foi ainda editor adjunto e depois editor executivo da revista Poesia Sempre, da Fundação Biblioteca Nacional. Conferencista, realizou palestras no Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Salvador, Fortaleza, Manaus, São Luis, Brasília, Recife, Porto Alegre, Florianópolis, Petrópolis, Buenos Aires, Santiago do Chile e Lisboa, onde, em 1994, abriu o Projeto Camões, patrocinado pelo Instituto Camões e a Fundação das Casas de Fronteira e Alorna, ocasião em que ministrou, na Biblioteca Nacional da capital portuguesa, o curso "A rainha arcaica: urna interpretação mítico-metafórica", além de realizar recitais de poesia na Casa de Fernando Pessoa e no Palácio da Fronteira. No ano seguinte voltou a participar do Projeto Camões, tendo proferido conferências em Coimbra, Porto, Vila Real, Lisboa e Ponte de Sor. De 1995 a 1997 tomou parte no Projeto Ponte Poética Rio-São Paulo, de que constavam leituras comentadas de poemas de sua autoria e palestras. Ainda em 1995 recebeu da UFRJ, por unanimidade de votos, o diploma de "notório saber", tendo ali participado também do ciclo de palestras "Os Poetas". É membro titular do Pen Club do Brasil e, em 1994, conquistou o Prêmio José Sarney de poesia inédita. De 1996 a 1997 participou, como poeta e ensaísta, das "Rodas de Leitura", do CCBB, organizando ainda, naquele último ano, com Moacyr Félix e Leonardo Fróes, as "Quintas de Poesia", sob patrocínio da Funarte. Em 1998 foi curador do Programa de Co-Edições da Fundação Biblioteca Nacional, que possibilitou a publicação de 35 títulos de autores das regiões Norte, Nordeste e Sudeste. Ainda em 1998 recebeu a Medalha Cruz e Sousa, da municipalidade de Florianópolis e, no ano seguinte, a Medalha Paul Ciaudel, da UBE. Sua poesia já foi traduzida para o espanhol, alemão, francês, inglês, italiano, dinamarquês, russo e chinês. Em 30 de março de 2000 foi eleito para a Academia Brasileira de Letras na vaga de João Cabral de Melo Neto (cadeira nº 37).

Obras publicadas:

- Os mortos (poesia, 1964), menção honrosa do Concurso Jorge de Lima

- Quatro quartetos, de T. 5. Eliot (tradução, 1967)

- Três meditações na corda lírica (poesia, 1977)

- A Rainha Arcaica (poesia, 1980), Prêmio Nacional de Poesia do Instituto Nacional do Livro (1981)

- T. S. Eliot. Poesia (tradução, introdução e notas, 1981)

- Testamento de Pasárgada (antologia critica da poesia de Manuel Bandeira, 1981)

- Dias idos e vividos (antologia critica da prosa de não-ficção de José Lins do Rego, 1981)

- Cinco movimentos (poesia, 1982), musicados por Denise Emmer no CD Cinco movimentos & um soneto (1997)

- Como a água que corre, de Marguerite Yourcenar (tradução, 1982)

- À sombra de Orfeu (ensaios, 1984), Prêmio Assis Chateaubriand, da Academia Brasileira de Letras (1985);

- Prólogos. Com um prólogo dos prólogos, de Jorge Luis Borges (tradução, 1985)

- As flores do mal, de Charles Baudelaire (tradução, introdução e notas, 1985)

- O grifo (poesia, 1987; tradução dinamarquesa, Griffen, 1994), menção honrosa do Prêmio Jabuti (1988)

- O encantador de serpentes (ensaios, 1987), Prêmio Nacional de Ensaísmo do Instituto Nacional do Livro (1998)

- Albertina desaparecida, de Marcel Proust (tradução, 1998)

- Ensaios, de T. S. Eliot (tradução, 1988), menção honrosa do Prêmio Jabuti (1989)

- De poesia e poetas, de T. S. Eliot (tradução, 1991)

- Poemas reunidos 1934-1953, de Dylan Thomas (tradução, introdução e notas, 1991), Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (1991) e Prêmio da Biblioteca Nacional (1992)

- Prosa dispersa (ensaios, 1991)

- Doze tipos, de G. K. Chesterton (tradução, 1993)

- O signo e a sibila (ensaios. 1993)

- A sagração dos ossos (poesia, 1994), Prêmio Jabuti (1995), da Câmara Brasileira do Livro, e Prêmio Luisa Cláudio de Sousa, do Pen Club do Brasil (1995)

- Os melhores poemas de Dante Milano (antologia, introdução e biografia, 1998)

- O fio de Dédalo (ensaios, 1998), e

- Poemas reunidos (1999).

Suas traduções dos poemas de Baudelaire e Leopardi constam das edições das obras reunidas desses dois autores, publicadas, respectivamente, em 1995 e 1996 pela Nova Aguilar.

Traduziu ainda, para o teatro:
- A tempestade, de William Shakespeare (com Tite de Lemos), e
- Os justos, de Albert Camus (com Yan Michalski).

Tem no prelo Baudelaire, Eliot, Dylan Thomas: três visões da modernidade (ensaios). (fonte: Academia Brasileira de Letras).



O poema acima, publicado em "Poemas Reunidos", Record - Rio de Janeiro, 1999, foi extraído do livro "Os cem melhores poemas brasileiros do século", Objetiva - Rio de Janeiro, 2001, pág. 317, seleção de Ítalo Moriconi.


Falecido morreu nesta quinta-feira (3) aos 79 anos no Hospital Pró-Cardíaco, em Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro. Ele estava internado há um mês e teve insuficiência respiratória. O corpo do acadêmico será sepultado no no Cemitério São João Batista às 15h.


Noticia:http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2014/07/morre-o-poeta-e-academico-ivan-junqueira-aos-79-anos-no-rio.html


Poesia e pequena biografia:http://www.releituras.com/ivanjunqueira_ossos.asp


Fotografia:http://www.senado.gov.br/noticias/tv/videos/cod_midia_237867.flv

Talvez o vento saiba




















Talvez o vento saiba dos meus passos,
das sendas que os meus pés já não abordam,
das ondas cujas cristas não transbordam
senão o sal que escorre dos meus braços.


As sereias que ouvi não mais acordam
à cálida pressão dos meus abraços,
e o que a infância teceu entre sargaços
as agulhas do tempo já não bordam.


Só vejo sobre a areia vagos traços
de tudo o que meus olhos mal recordam
e os dentes, por inúteis, não concordam


Sequer em mastigar como bagaços
talvez se lembre o vento desses laços
que a dura mão de Deus fez em pedaços.


Ivan Junqueira

O Tempo seca o Amor

O tempo seca a beleza, seca o amor, seca as palavras. Deixa tudo solto, leve, desunido para sempre como as areias nas águas. O tempo seca a ...

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