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De esperas construímos o amor intenso e súbito













De esperas construímos o amor intenso e súbito
que encheu as tuas mãos de sol e a tua boca de beijos.
Em estranhos desencontros nos amamos.
Havia o rio mas sempre ficávamos na margem.
Eu tocava o teu peito e os teus olhos e, nas minhas mãos,
a tarde projectava as suas grandes sombras
enquanto as gaivotas disputavam sobre a água
talvez um peixe inquieto, algo que nunca pudemos ver.
As nossas bocas procuravam-se sempre, ávidas e macias
E por muito tempo permaneciam assim, unidas,
machucando-se, torturando as nossas línguas quase enlouquecidas.
Depois olhávamo-nos nos olhos.
No mais profundo silêncio.
E, sem palavras, partíamos com as mãos docemente amarradas
e os corações estoirando uma alegria breve
Quando a noite descia apaixonada
Como o longo beijo da nossa despedida.

Joaquim Pessoa

Gosto-te

















Gosto-te. E desta certeza se abre a manhã como uma

imensa rosa de desejo indestrutível. O futuro é o pró-
ximo minuto, o que está para além da infatigável religi-
ão dos meus versos, em cuja luz me acendo, feliz e nu.

O meu sorriso conhece a bondade dos animais, o po-
der frágil das corolas, e repete o nome feminino dos ar-
canjos de peitos redondos, perfumados pelas giestas
das veredas do céu.

Gosto-te. Amarrado pelos meus braços de beduíno do
sol, pobre senhor dos desertos, profeta da distância
que há dentro das palavras, onde se alongam sombras
e o sofrimento se estende até à orla da mais inquieta
serenidade.

Gosto-te. E tenho sido feliz por nunca ter seguido os
trilhos que me quiseram destinar. Aqui e ali me pergun-
to, despudoradamente. E sei que não sei mentir. É por
isso, que recolho na face a luz imprescindível ao orgu-
lho dos peixes e dos frutos.

Gosto-te. “Na-na-na, na-ô… Na-na-na, na-ô… na nô”,
canta o espírito do caminho, canta para mim e canta pa-
ra ti, eleva o coração das árvores grandes, coração de
coragem e de sangue fresco e verde, apaixonado e do-
ce, de tanto contemplar o perfil das tardes.

Gosto-te. Mas “longe” é agora uma palavra húmida, grá-
vida de água, onde os sinos da erva tocam para convocar
o imenso amor das sílabas. E, ao procurar-te, tremo ape-
nas de ternura, para que nem mesmo a inteligente brisa
da tarde possa dar pela minha presença.
Mais discreto que isto é impossível.

Joaquim Pessoa

Pela liberdade viva

















Meu amor

no teu peito de coragem
feito de pedras e cardos
há um país de viagem
e vinhos de cada cor
verdes maduros bastardos.

Há uma pedra de cal
em cada olhar que respira
há uma dor que já dura
desde que dura a mentira
há um muro levantado
numa seara madura.

Verde mar
verde limão
são os teus olhos de medo
o vento é este segredo
que escreve em cada manhã
o nome dela na erva
numa folha numa pedra
nos bagos de uma romã.

Acendo-te uma fogueira
nas tuas mãos acordadas
dou-te flores de laranjeira
dou-te ruas dou-te estradas
dou-te palavras secretas
dou-te coragem e setas
dou-te os meus dedos crispados
ponho cravos amarelos
à volta dos teus cabelos
dou-te o meu sangue vermelho
e o meu canto proibido

Dou-te o meu nome
raíz
há muito tempo arrancada
dou-te esta calma guardada
nos homens do meu país
dou-te a fome
do meu canto
dou-te os meus braços em cruz
e as mãos feitas num crivo
dou-te os meus pulsos abertos

mas é por outra que vivo.

Joaquim Pessoa

Resistir

















Dobrar na boca o frio da espora 
Calcar o passo sobre lume 
Abrir o pão a golpes de machado 
Soltar pelo flanco os cavalos do espanto 
Fazer do corpo um barco e navegar a pedra 
Regressar devagar ao corpo morno 
Beber um outro vinho pisado por um astro 

Possuir o fogo ruivo sob a própria casa 
numa chama de flechas ao redor. 



Joaquim Pessoa, in "Paiol de Pólen"

Encontrei-te



















Encontrei-te em todas as noites que não pude ter-te, que não pude
ver-te, que não pude tocar-te. Encontrei-te porque nunca saíste do
meu corpo, dos meus pensamentos, da minha voz, dos versos má-
gicos que a vida escreve para mim.

Encontrei-te no aroma dos meus cabelos, na lembrança iluminada
do teu último sorriso, e também nessa penumbra quente que um
dia retirei das tuas coxas.
E fiz amor com o silêncio que deixaste.

Encontrei-te no meu olhar perdido, na tristeza das rochas, na infi-
delidade das ondas e no infindável território que a inquietação me
deu a conhecer.

Encontrei-te na procura. Enquanto me doía procurar-te. Enquanto
me desesperava saber de ti, reconhecer-te em tudo, em todos, em
limites, indiferenças, solidões, vazios, secretos entusiasmos.

Encontrei-te debruçada no parapeito onde as crianças cantam com
as vozes luzindo e penetrando em mim, como sempre penetrei em
ti, cheio de coragem e de medos, pesquisador de estrelas, amante
curvado sobre a tua boca, essa estrela húmida que sempre me sou-
be ao vento adocicado da nudez.

Encontrei-te, ainda amarrada em mim, pedindo tudo, não exigindo
mais do que a terra pede à chuva, na embriagante dor das cerejei-
ras que querem florir, como o teu corpo floria em minhas mãos e a
tua voz nos meus ouvidos.

Encontrei-te, sim, sem precisar sequer de procurar-te.



Joaquim Pessoa

Amar-te...
















Amar-te, é escrever-te.

Amar-te é deixar que me toques até ser teu,

até que te deites no meu corpo e adormeças

inteira dentro de mim.

Peço-te. Não pises as violetas que trago no olhar.

Cheiram a ti. São para ti.

Um "bouquet" de palavras que floriram

neste tempo de amor.


Joaquim Pessoa

A tua casa é o meu coração

















A tua casa é o meu coração 
e o teu perfume enche de nostalgia as minhas noites. 
Pelos meus braços vens caminhando nua, com a doçura da gazela 
e a brevidade suicida das flores do hibisco. 
O meu coração dá abrigo a um grande amor, 
como a palmeira protege as tâmaras dos ventos do deserto 
ou a romã se transforma em cofre para guardar os seus rubis. 
Não há armadilhas montadas no percurso que te leva 
à minha cama, e nada será perturbado pelo júbilo 
de beijar todas as sílabas que a tua boca pronuncia. 
És em mim. Estás em mim. Há-de o meu coração 
ficar em ruínas e, assim mesmo, defenderá 
o teu corpo, a tua vontade, e o teu sorriso que 
tem a envergonhada cor da flor do lótus. 
Há-de o meu coração calar-se, mas 
esse silêncio não impedirá a promessa 
de uma eterna noite de amor. 


Joaquim Pessoa, in “O Poeta Enamorado”

O Fim do Aqui



















Amanheci ontem. E preparo-me
para abocanhar o futuro com
a minha boca de tigre.
Desafio-te a morrer, se for
preciso, para que o possas alcançar.
Traz contigo apenas a esperança
e a lucidez das tuas mãos. Traz
a lição da história, esse belo pavão
que serve também
para comer.

Procurar a liberdade
é castigo para um ser livre. Não
jures perante nada. Não te comprometas
a não ser com o Livro da Vida.
Os teus bens são o poderes passar
sem eles. Na verdade, ninguém detém
a riqueza, apenas a pode utilizar para
transformar o rosto, o corpo, o perfil das
cidades; transformar a boca dos livros,
os olhos agudos dos poetas, os elementos nus
que depositam a chuva no coração do
pássaro que transforma o canto
em azul puro
de modo a transformar o brilho das moedas
num eterno discurso de paixão.

Transformar. E transformar. E transformar.
Transformar sempre. E transformar
depois, o sempre. Fazer o fim
do aqui.

E transformar o agora.


Joaquim Pessoa

Canção de Amor




















Eu cantaria mesmo que tu não existisses,
faria amor, assim, com as palavras.
Eu cantaria mesmo que tu não existisses
porque haveria de doer-me a tua ausência.

Por isso canto. Alegre ou triste, canto.
Como se, cantando, tocasse a tua boca,
ainda antes da tua presença.
Direi mesmo, depois da tua morte.

Eu cantaria mesmo que tu não existisses,
ó minha amiga, doce companheira.
Eu festejo o teu corpo como um rio,
onde, exausto, chegarei ao mar.

Sim, eu cantaria mesmo que tu não existisses,
porque nada eu direi sem o teu nome.
Porque nada existe além da tua vida,
da tua pele macia, dos teus olhos magoados.

Assim quero cantar-te, meu amor,
para além da morte, para além de tudo.


Joaquim Pessoa, in 'Canções de Ex-Cravo e Malviver'

Bastava-nos Amar



















Bastava-nos amar. E não bastava
o mar. E o corpo? O corpo que se enleia?
O vento como um barco: a navegar.
Pelo mar. Por um rio ou uma veia. 



Bastava-nos ficar. E não bastava
o mar a querer doer em cada ideia.
Já não bastava olhar. Urgente: amar.
E ficar. E fazermos uma teia.


Respirar. Respirar. Até que o mar
pudesse ser amor em maré cheia.
E bastava. Bastava respirar 


a tua pele molhada de sereia.
Bastava, sim, encher o peito de ar.
Fazer amor contigo sobre a areia. 



Joaquim Pessoa, in 'Português Suave'

Estou Mais Perto de Ti porque Te Amo















Estou mais perto de ti porque te amo.
Os meus beijos nascem já na tua boca.
Não poderei escrever teu nome com palavras.
Tu estás em toda a parte e enlouqueces-me. 



Canto os teus olhos mas não sei do teu rosto.
Quero a tua boca aberta em minha boca.
E amo-te como se nunca te tivesse amado
porque tu estás em mim mas ausente de mim. 


Nesta noite sei apenas dos teus gestos
e procuro o teu corpo para além dos meus dedos.
Trago as mãos distantes do teu peito. 


Sim, tu estás em toda a parte. Em toda a parte.
Tão por dentro de mim. Tão ausente de mim.
E eu estou perto de ti porque te amo.



Joaquim Pessoa, in 'Os Olhos de Isa'

Tudo é Paixão



















Assim me perguntaste,
assim te respondi:
tudo é paixão.

Como não lamber
da tua pele, o mel
que o desejo fabrica?

E como a minha boca
não recolher o néctar
da tua boca?

Ou como não sorver
das tuas mãos o pólen
da ternura?

E se, em vez de paixão,
for sexo apenas,
ou loucura?

Pode até não ser amor.
Mas, seja o que for,
não é pior.

Joaquim Pessoa, in 'Ano Comum'

Tu Ensinaste-me a Fazer uma Casa






















Tu ensinaste-me a fazer uma casa:
com as mãos e os beijos.
Eu morei em ti e em ti meus versos procuraram
voz e abrigo.
E em ti guardei meu fogo e meu desejo. Construí
a minha casa.
Porém não sei já das tuas mãos. Os teus lábios perderam-se
entre palavras duras e precisas
que tornaram a tua boca fria
e a minha boca triste como um cemitério de beijos.
Mas recordo a sede unindo as nossas bocas
mordendo o fruto das manhãs proibidas
quando as nossas mãos surgiam por detrás de tudo
para saudar o vento.
E vejo teu corpo perfumando a erva
e os teus cabelos soltando revoadas de pássaros
que agora se recolhem, quando a noite se move,
nesta casa de versos onde guardo o teu nome.


Joaquim Pessoa, in 'Os Olhos de Isa'

CANÇÃO DE ESTAR EM TERRA




















Da sede meu amor farei um barco.
Uma vela no porto. E ao vê-la perto
eu direi meu amor que por ti parto
e fico e firo e faço e sigo e ardo.

Direi a rosa o cravo o trevo o cardo.
Darei o corpo, amor. Direi um astro.
Ai flor de quem está farto farto farto
de rimar contra a maré em pinho incerto.

Que mais direi amor? Eu que maldigo
eu que mal amo as coisas conquistadas
que mais direi? Anéis corais espadas?
Já mal me há-de bastar o que eu não digo.

É aqui, de bruços sobre a espuma
que o mar nos causa a dor de estar em terra.
E as palavras nos doem uma a uma.
E os homens em Lisboa fazem guerra.

Joaquim Pessoa

DIZER CATORZE VERSOS













Dizer catorze versos ao acaso,
falar de ti, de mim, falar de nós.
De nós, que nos cantamos num abraço
e que nos abraçamos com a voz.

Que vou dizer de ti, eu, que te amo
e isso é ter-te em mim, como se eu fosse
cada um dos momentos em que chamo
por Deus que me criou quando te trouxe.

Ó meu amor, que vou dizer-te agora
quando nada me chega para o canto
que de ti se alimenta e me devora?

Cantar-te, estando lúcido, é estar louco.
Não sei que mais dizer-te nesta hora
pois dizer que te amo é muito pouco.


Joaquim Pessoa

Houve uma Ilha em ti


























Houve uma ilha em ti que eu conquistei.
Uma ilha num mar de solidão.
Tinha um nome a ilha onde morei.
Chamava-se essa ilha Coração.

Que saudades do tempo que passei.
Nenhum desses momentos foi em vão.
Do teu corpo, de ti, já nada sei.
Também não sei da ilha, não sei, não.

Só sei de mim, coberto de raízes.
Enterrei os momentos mais felizes.
Vivo agora na sombra a recordar.

A ilha que eu amei já não existe.
Agora amo o céu quando estou triste
por não saber do coração do mar.


Joaquim Pessoa, in 'Ano Comum'

O Tempo seca o Amor

O tempo seca a beleza, seca o amor, seca as palavras. Deixa tudo solto, leve, desunido para sempre como as areias nas águas. O tempo seca a ...

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