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Canção do Amor Armado














Vinha a manhã no vento do verão,
e de repente aconteceu.
Melhor
é não contar quem foi nem como foi,
porque outra história vem, que vai ficar.
Foi hoje e foi aqui, no chão da pátria,
onde o voto, secreto como o beijo
no começo do amor, e universal
como o pássaro voando — sempre o voto
era um direito e era um dever sagrado.

De repente deixou de ser sagrado,
de repente deixou de ser direito,
de repente deixou de ser, o voto.
Deixou de ser completamente tudo.
Deixou de ser encontro e ser caminho,
deixou de ser dever e de ser cívico,
deixou de ser apaixonado e belo
e deixou de ser arma — de ser a arma,
porque o voto deixou de ser do povo.

Deixou de ser do povo e não sucede,
e não sucedeu nada, porém nada?

De repente não sucede.
Ninguém sabe nunca o tempo
que o povo tem de cantar.
Mas canta mesmo é no fim.
Só porque não tem mais voto,
o povo não é por isso
que vai deixar de cantar,
nem vai deixar de ser povo.

Pode ter perdido o voto,
que era sua arma e poder.
Mas não perdeu seu dever
nem seu direito de povo,
que é o de ter sempre sua arma,
sempre ao alcance da mão.

De canto e de paz é o povo,
quando tem arma que guarda
a alegria do seu pão.
Se não é mais a do voto,
que foi tirada à traição,
outra há de ser, e qual seja
não custa o povo a saber,
ninguém nunca sabe o tempo
que o povo tem de chegar.

O povo sabe, eu não sei.
Sei somente que é um dever,
somente sei que é um direito.
Agora sim que é sagrado:
cada qual tenha sua arma
para quando a vez chegar
de defender, mais que a vida,
a canção dentro da vida,
para defender a chama
de liberdade acendida
no fundo do coração.

Cada qual que tenha a sua,
qualquer arma, nem que seja
algo assim leve e inocente
como este poema em que canta
voz de povo — um simples canto
de amor.
Mas de amor armado.

Que é o mesmo amor. Só que agora
que não tem voto, amor canta
no tom que seja preciso
sempre que for na defesa
do seu direito de amar.

O povo, não é por isso
que vai deixar de cantar.

Rio, 6 de fevereiro, 1966

Thiago de Mello


Publicado no livro Faz Escuro Mas Eu Canto. A Canção do Amor Armado (1966).

In: MELLO, Thiago de. Vento geral, 1951/1981: doze livros de poemas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 198

Sonata para ir à Lua













Desnudo já me dou de mim doendo
na doação das folhas da floresta
que vão caindo sem saber-se sendo
pedaços de nós na noite deserta

A lua imponderável vai ardendo
cúmplice em nossa luz de fogo e festa
Meus braços são dois galhos te dizendo
que o forte às vezes treme em sua aresta

Esta outra face frágil de aparência
que só aos puros é dado conhecer
no abraço da paixão e sua ardência

Mesmo cego de mim eu pude ver
e sentir no teu beijo a clara essência
que faz do nosso amor raro prazer


Aníbal Beça

Genealogia do Amor

















E assim se fez verbo
o dom da palavra
para repartir-se
porque ele era só.

Da vértebra curva
veio para ouvir
aquela que se houve
para ser ouvida
na aventura a dois:
chamada Mulher
a chamado do Homem.

O primeiro grito
– parto da palavra –
se faz em sussurro
macio de gozo
veludo de ventos.

Aníbal Beça

Motivos














Por que a poeira da estrada já se faz pálida
Há um rumor clamando urgências.

Por que os olhos da noite já se tornaram glaucos
Há uma esteira iluminando ontens.

Por que as nuvens galopam desenhos do instinto
Há uma foice ceifando minutos.

Por que o presto está prestes a partir na aventura
Há grãos debulhando agoras.

Por que o desejo alimenta a lentidão
Há um pandeiro no ritmo de frevo.

Por que a fala já é rouca no eco das sílabas
Há um discurso rotulando verbos.

Por que a carícia se assola no solo da pele
Há uma partitura sem sons no silêncio da gruta.

Motivos existem circundando mandalas
Mandá-las soar as sete notas sem as pausas
Alimentar os ventos aventureiros
Cantar a canção de embalo da sesta
Preservar a sedução no horário do corpo
Soprar nuvens no céu dos neurônios
Bem assim o pedido para alongar a música.


Aníbal Beça

Canto IV
























Meus olhos vão seguindo incendiados
a chama da leveza nesta dança,
que mostra velho sonho acalentado
de ver a bailarina que me alcança

os sentidos em febre, inebriados,
cativos do delírio e dessa trança.
É sonho, eu sei. E chega enevoado
na mantilha macia da lembrança:

o palco antigo, as luzes da ribalta,
renascença da graça do seu corpo,
balé de sedução, mar que me falta

para o mergulho calmo de amante,
que se sabe maduro de esperar
essa viva paixão e seu levante.


Aníbal Beça

Canto III
























O dorso que se curva elegante
desenha na memória a leve dança
da bailarina grácil, celebrante
de rito sedutor, que me balança

toda vez que me vejo tão distante,
torcendo meus desejos na lembrança
dos momentos vividos, no constante
aprendizado vasto da mudança.

Posto que a vida corre em curtas curvas,
transitória paisagem, vário atalho
que vai modificando linhas turvas.

Mutante claridade me agasalha:
no casulo do gozo de sussurros
sei-me bicho saído dessa malha.


Aníbal Beça

Canto II
















Tudo era descoberta
no abrir dessas palavras.

E a viagem seguia
construindo-se andaime
de leve arquitetura
nas ogivas das bocas
dos dois que se encantavam
nesse jogo onomástico.

E a mulher que era voz
ainda adormecida
balbuciou nomeando
esse homem fricativo:
– amado meu amado.

Então ele se soube
de pedra amolecida
mas senhor da tarefa.

E olhou-a como nunca
olhara em sua volta:
a íris revelando
o seu contentamento
no semblante de calma
na viva descoberta
do fogo prometido.

Havia agora como
repartir as centelhas
dos olhos revirados.

Apenas construir
um solo de pegadas
no sopro de ocarina
de música tão breve,
que o passo é de nuvens.

Saber-se passageiro
ao lado da parceira
no destino de andar
de ver para fincar
as flechas andarilhas
as palavras certeiras
no chão do transitório.

Então para alargar
o chão dessa morada
e para contentar
os impulsos dos pés
a vontade liberta
de ter aonde ir
no vão dos sonhos soltos
espanando a rotina
dessas favas do tédio
só havia a distância
desse mar dos mistérios
O mar das descobertas:

Ó Thálassa, ó Thálassa!

O mar da poesia
Esse mar do impossível.


Aníbal Beça

Canto I

















Eu parto da palavra
ao parto dos amantes:

Bem assim frente a frente
se inauguram os sons
aos olhos da surpresa:

E viu para falar
ouviu para dizer
tanta beleza agora
se vai a solidão
na maciez da pele
na relva dos cabelos
na fenda diferente.

E ele a chamou mulher
e sentiu o seu cheiro
e porque era de espanto
foi deitar-se com ela
no verde da campina
descobrindo seus poros
com o tato da língua
numa conversa muda
mas cheia de arrepios
reinventando colinas
na planície da pele.

No lastro das carícias
pesa o rumor dos corpos
com seu barulho de água
no suor represado.

E a vida neste instante
não era a mesma vida:
um tempero de febre
ardia na mudança.

No repouso dos corpos
no embalo da fadiga
vinha a fala alumbrada
palpando a geografia
guiada nas carícias
de dedos alpinistas.

E eles se revezavam
no batismo do corpo
na ablução das salivas
purificando as partes
no sal de suas águas.

A lua em seu modelo
nessas quatro mudanças
serviu para dar nome
aos dois quartos crescentes
bandas de níveas nádegas
com suas duas curvas
claras e tão macias;
colinas e montanhas
desenham os dois seios
com a cor do alabastro,
e a relva dos pentelhos
- o manto da vagina -
raízes de alfazema;
a boca uma romã;
estrelas são os olhos;
os búzios são ouvidos,
e o nariz promontório;
a forma mais ereta
obelisco de rocha
forjado pelos ventos
o pênis de atalaia.

Nomes adocicados
alfenim de momentos
rebuçados na língua
e o tempo derretendo
no espaço dos sentidos
nas bocas de um só gozo.


Aníbal Beça

Constatação














Chega um tempo em que as nuvens não te reconhecem.
Não digas nada.
Longe não deslindas um som que te frequentava.
Não aguces os ouvidos.
Na gruta passam por ti como se te não vissem.
Não esfregues os olhos.
Caminhas pela campina e teu pés nada sentem.
Não troques de passo.
A palavra não é mais dita, apenas lida por outrem.
Não fales nada.

No universo transverso desse tempo
Na contramão de versos claudicantes
Ainda restam as mãos para o incêndio das horas.



Aníbal Beça

Parêmias
















Colho do olhar a calma mansidão
presente, sempre armada na visão.
Vejo e muito olho o lombo nas retinas
de livros grossos lidos na surdina.

Eis que de estante fogem personagens
todos aqueles vistos na viagem

Na descoberta mágica do sonho
Acordado, nas lentes, um sardônico


ser, plasmado entre o medo e os meus pecados
de Sade a Nabukov degredado

lambendo em Chatterley godivas ladies
prendo lolitas dóceis nas paredes.

Madame Bovary o teu Flaubert sou seu!
Despindo as tuas vestes, teu plebeu.

Entre basílios e bentinhos sei-me Eça
Cruzado com Machado em dor expressa.

Na verdade nem Freud nem Masoch
Apenas um comum ser sem retoque.


Aníbal Beça

Contra métrica



















Não posso metrificar teus sentimentos,
há um tempo e um espaço para te amar?
Nestes quatorze degraus vou ao lugar
mesmo cansado do ar desses momentos

de subidas e descidas, ondas do mar,
(gangorra desenha fumaça em segmentos),
tuas mãos bailando aos quatro ventos
até teu coração, num frêmito, expulsar

a escrita do trigal e do teu nome, onde
deitamos e os lírios assomam teus cabelos,
amor, campina, tudo para e se esconde

e se repete amor, campina, brancos ventos,
eis a paisagem, amostra dos meus apelos
por não poder metrificar teus sentimentos!


Aníbal Beça

Espelho

















Para fechar sem chave a minha sina
Clara inversão da jaula das palavras
As vestes da sintaxe que componho
De baixo para cima é que renovo.

Escancarando um solo transmutado
Para o sol da surpresa nas janelas
Ao mesmo pouso de ave renascida
Do fim regresso fera não domada.

Na duração que escorre nessa arena
Lambendo vem a pressa em que me aposto
Nessa voragem, vaga um mar de calma

Que me alimenta os ossos da memória.
Sobrada sobra, cinza dos minutos,
O que sobrou de mim são essas sombras.


Aníbal Beça

Profissão de Fé


















Meu verso quero enxuto mas sonoro
levando na cantiga essa alegria
colhida no compasso que decoro
com pés de vento soltos na harmonia.

Na dança das palavras me enamoro
prossigo passional na melodia
amante da metáfora em meus poros
já vou vagando em vasta arritmia .

No vôo aliterado sigo o rumo
dos mares mais remotos navegados
e em faias de catraias me consumo.

É meu rito subscrito e bem firmado
sem o temor do velho e seu resumo
num eterno retorno renovado.


Anibal Beça

As ensinanças da dúvida


Tive um chão (mas já faz tempo)
todo feito de certezas
tão duras como lajedos.

Agora (o tempo é que fez)
tenho um caminho de barro
umedecido de dúvidas.

Mas nele (devagar vou)
me cresce funda a certeza
de que vale a pena o amor


Thiago de Mello, em "Mormaço na floresta", 1981.

Como um rio
















Ser capaz, como um rio
que leva sozinho
a canoa que se cansa,
de servir de caminho
para a esperança.
E de lavar do límpido
a mágoa da mancha,
como o rio que leva,
e lava.

Crescer para entregar
na distância calada
um poder de canção,
como o rio decifra
o segredo do chão.

Se tempo é de descer,
reter o dom da força
sem deixar de seguir.
E até mesmo sumir
para, subterrâneo,
aprender a voltar
e cumprir, no seu curso,
o ofício de amar.

Como um rio, aceitar
essas súbitas ondas
feitas de água impuras
que afloram a escondida
verdade nas funduras.

Como um rio, que nasce
de outros, saber seguir
junto com outros sendo
e noutros se prolongando
e construir o encontro
com as águas grandes
do oceano sem fim.

Mudar em movimento,
mas sem deixar de ser
o mesmo ser que muda.
Como um rio.


Thiago de Mello, em "Mormaço na floresta", 1981.

A boca da noite


















O que não fiz ficou vivo
pelo avesso. O que não tive
pertence à dor do meu canto.
A estrela que mais amei
acende o meu desencanto.
Vinagre? Sombra de vinho?
De noite, a vida engoliu
(é doce a boca da noite)
as dores do meu caminho.
O meu voo se apazigua
quando a tormenta me abraça.
O que tenho se enriquece
de tudo que não retive.
Diamante? Flor de carvão.

Thiago de Mello, em "Poemas Preferidos pelo autor e seus leitores", 2001.

Da eternidade


















Da eternidade venho. Dela faço
parte, desde o começo da vida
dos que me fizeram ser
até chegar ao que sou.
Transporto com a minha vida
a eternidade no tempo.
Menino deslumbrado com as águas,
os ventos, as palmeiras, as estrelas,
prolonguei sem saber a eternidade
que neste instante navega
no meu sangue fatigado.


Thiago de Mello (Santiago, 93)

Do livro ‘De uma vez por todas, (1996)’, reunido em "Melhores poemas Thiago de Mello”. [Seleção Marcos Frederico Krüger Aleixo], São Paulo: Global Editora, 2009.

Surto poético

















Revelo meu querer, numa variação!
... Eternas lembranças...
Sou menor, apenas o pó, poesia envolta
Gota no oceano de esperanças


A poesia sublimação voluntaria do ser
Jorra do poeta que ama... Que ama escrever
E fala de seus mistérios, segredos de sua alma
Do silêncio propício ao amor que lhe acalma


Não me negarei palavras, jogá-las-ei aos ventos
Que rebusquem meus pensamentos alados
Sem nunca os entender, de que valem os
Mistérios revelados?


Poesia vertente salutar...
Partículas de amor espalhadas pelo ar
Em cada gota desfaz-se um sentir
E por cada gota faz-se existir


Poesia, expande, eclode seus versos de amor
Eternize-se em mim, mera mortal indefesa
Que a ti me rendo coesa.
Para livrar-me de toda tristeza e dor.


Silviah Carvalho
Publicado no Recanto das Letras em 03/11/2010
Código do texto: T2595365

Hoje
















Estremeço ante ao vento sibilante do amor
Fujo de sua força, do seu poder,
O amor é entrega despercebida da alma
Passamos a viver a vida de outro ser


Hoje contenho meus sentimentos
Cansei de me ver sofrer
Abri no peito um esconderijo
Onde me escondo quando quero me perder


Hoje meu coração se contenta com o silêncio, é ausente.
Vez ou outra quer voar, não permito
Ele fica descontente...
Tudo é tão efêmero aqui dentro da minha mente


Hoje calei minha voz, ouço o vento, que nada diz
Apenas ecos de momentos vãos
Que nada importam, são lembranças do que não fiz
...Aquieto-me no consciente segredar do meu coração.


Silviah Carvalho
Publicado no Recanto das Letras em 02/09/2010
Código do texto: T2475138

Recomeçar






















Prontos para fazer novo começo
assim como o bom dia novamente
sai do sol sem a névoa, seu avesso,
busquemos claridades displicentes.


O teu mundo não é maior que o meu
nem o meu choro é pouco do teu muito;
a pedra que me cabe nesse intuito
também te servirá no apogeu.


Todas as paixões passam num circuito
do Malecón de Cuba ao Coliseu
no bem viver da vida e o seu minuto


O recomeço pousa nas pegadas
no desafio de verbo fortuito
de ressaltar as sombras salteadas.


Aníbal Beça

O Tempo seca o Amor

O tempo seca a beleza, seca o amor, seca as palavras. Deixa tudo solto, leve, desunido para sempre como as areias nas águas. O tempo seca a ...

Nos últimos 30 dias.