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Mar Alto


















Esta água é todas as águas,
sem porto, nome ou naufrágio.
Rendada de espuma ao vento,
sem dor nem contentamento.

Esta água — lugar nenhum —
é perdição sem loucura.
Nela se dissolvem mágoa,
memória, tempo, aventura.

Sem lei nem rei, sem fronteiras,
além de verbo e silêncio,
esta é a pátria procurada:
incêndio de tudo — nada.



Hélio Pellegrino

A Cegueira de Édipo
























Caminha errante o velho rei da terra,
sangrando a cada passo o seu desterro.
Pesa-lhe luz demais, ausência de erro
e de noite — montanha que o soterra.

Cego de sua verdade, desenterra
do peito transfixado não o ferro
que o punge por inteiro, nem o berro
que lhe sobe das entranhas, enquanto erra.

Com sua garra terrosa de mendigo,
busca arrancar da carne não a morte
que o rodeia na treva, vinho forte

desde sempre provado. O desabrigo
que o atormenta é outro: sol candente
que vara a sua cegueira — e o faz vidente.


Hélio Pellegrino

Valsa de Adeus





















Tudo é partida de navio, velas
ao vento, coisas desancoradas
que se desgarram. Este copo, esta pedra
que pronuncio não são palavras, nem
versos de amor, nem o sopro
vivificante do espírito. São barcos
arrastados pelo tempo, cascas
de fruta na enxurrada, lenços
de adeus, enquanto o vapor se afasta,
e de longe ilumina essa ausência que somos.


Hélio Pellegrino

Luz Provisória





















Vejo a chuva que cai, e me dispensa
de vê-la cair. Também meu corpo me dispensa
de vê-lo, em sua queda: chuva breve
que escorre, sobre as rugas do tempo.


Sou uma luz provisória, prometida
à chuva que cai, ao rigor
da pedra e do vento, à escuridão
que não se apaga mais.


Rio, 23/1/84


Hélio Pellegrino

Momento



















Oh! A resignação das coisas paradas,
grávidas de silencio, reverentes,
em sua geometria sem jactância!


A placidez das ruas acolchoadas
contra a dura cintilação do dia;
o recato das arvores, a prece
das esquadrias de alumínio ionizado
na fachada do edifício em frente!


Todas as coisas – em clausura – cumprem votos,
enquanto a vã filosofia do século
pensa que move o mundo.


Hélio Pellegrino

La Vida es Sueño






















A pedra
a pedra como o fogo
com suas resinas e ramas
a pedra como o fogo
é um sonho
de pálpebras abertas.


O sonho é quando
no veludo íntimo da noite
fogo e pedra se sonham:
— as pálpebras cerradas.


Hélio Pellegrino

O Tempo seca o Amor

O tempo seca a beleza, seca o amor, seca as palavras. Deixa tudo solto, leve, desunido para sempre como as areias nas águas. O tempo seca a ...

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