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Olhos verdes















São uns olhos verdes, verdes,
Uns olhos de verde-mar,
Quando o tempo vai bonança;
Uns olhos cor de esperança,
Uns olhos por que morri;
Que ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!

Como duas esmeraldas,
Iguais na forma e na cor,
Têm luz mais branda e mais forte,
Diz uma — vida, outra — morte;
Uma — loucura, outra — amor.
Mas ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!

São verdes da cor do prado,
Exprimem qualquer paixão,
Tão facilmente se inflamam,
Tão meigamente derramam
Fogo e luz do coração;
Mas ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!

São uns olhos verdes, verdes,
Que podem também brilhar;
Não são de um verde embaçado,
Mas verdes da cor do prado,
Mas verdes da cor do mar.
Mas ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!

Como se lê num espelho,
Pude ler nos olhos seus!
Os olhos mostram a alma,
Que as ondas postas em calma
Também refletem os céus;
Mas ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!

Dizei vós, ó meus amigos,
Se vos perguntam por mi,
Que eu vivo só da lembrança
De uns olhos cor de esperança,
De uns olhos verdes que vi!
Que ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!

Dizei vós: Triste do bardo!
Deixou-se de amor finar!
Viu uns olhos verdes, verdes,
Uns olhos da cor do mar:
Eram verdes sem esp’rança,
Davam amor sem amar!
Dizei-o vós, meus amigos,
Que ai de mi!
Não pertenço mais à vida
Depois que os vi!

Gonçalves Dias, no livro “Últimos cantos”. Série ‘Poesias diversas’. 1851.

Ideia de Deus















À voz de Jeová infindos mundos 
Se formaram do nada; 
Rasgou-se o horror das trevas, fez-se o dia, 
E a noite foi criada, 

Luziu no espaço a lua! 
Sobre a terra 
Rouqueja o mar raivoso, 
E as esferas nos céus ergueram hinos
Ao Deus prodigioso 

Hino de amar a criação, que soa 
Eternal, incessante, 
Da noite no remanso, no ruído 
Do dia cintilante! 

A morte, as aflições, o espaço, o tempo, 
O que é para o Senhor? 
Eterno, imenso, que lh’importa a sanha 
Do tempo roedor? 

Como um raio de luz, percorre o espaço, 
E tudo nota e vê – 
O argueiro, os mundos, o universo, o justo; 
E o homem que não crê. 

E Ele que pode aniquilar os mundos, 
Tão forte como Ele é, 
E vê e passa, e não castiga o crime, 
Nem o ímpio sem fé!

Porém quando corrupto um povo inteiro 
O Nome seu maldiz, 
Quando só vive de vingança e roubos, 
Julgando-se feliz; 

Quando o ímpio comanda, quando o justo 
Sofre as penas do mal, 
E as virgens sem pudor, e as mães sem honra. 
E a justiça venal; 

Ai da perversa, da nação maldita, 
Cheia de ingratidão, 
Que há de ela mesma sujeitar seu colo 
A justa punição. 

Ou já terrível peste expande as asas, 
Bem lenta a esvoaçar; 
Vai de uns a outros, dos festins conviva, 
Hóspede em todo o lar! 

Ou já torvo rugir da guerra acesa 
Espalha a confusão; 
E a esposa, e a filha, de tenor opresso, 
Não sente o coração. 

E o pai, e o esposo, no morrer cruento, 
Vomita o fel raivoso; - 
Milhões de insetos vis que um pé gigante 
Enterra em chão lodoso. 

E do povo corrupto um povo nasce 
Esperançoso e crente. 
Como do podre e carunchoso tronco 
Hástea forte e virente. 


II 
Oh! Como é grande o Senhor Deus, que os mundos 
Equilibra nos ares; 
Que vai do abismo aos céus, que susta as iras 
Do pélago fremente, 
A cujo sopro a máquina estrelada 
Vacila nos seus eixos, 
A cujo aceno os querubins se movem 
Humildes, respeitosos, 
Cujo poder, que é sem igual, excede 
A hipérbole arrojada! 
Oh! Como é grande o Senhor Deus dos mundos, 
O Senhor dos prodígios. 


III 
Ele mandou que o sol fosse princípio, 
E razão de existência, 
Que fosse a luz dos homens – olho eterno 
Da sua providência. 

Mandou que a chuva refrescasse os membros, 
Refizesse o vigor 
Da terra hiante, do animal cansado 
Em praino abrasador. 

Mandou que a brisa sussurrasse amiga, 
Roubando aroma à flor; 
Que os rochedos tivessem longa vida, 
E os homens grato amor! 

Oh! Como é grande e bom o Deus que manda 
Um sonho ao desgraçado, 
Que vive agro viver entre misérias, 
De ferros rodeado; 

O Deus que manda ao infeliz que espere 
Na sua providência; 
Que o justo durma, descansado e forte 
Na sua consciência! 

Que o assassino de contínuo vele, 
Que trema de morrer; 
Enquanto lá nos céus, o que foi morto, 
Desfruta outro viver! 

Oh! Como é grande o Senhor Deus, que rege 
A máquina estrelada, 
Que ao triste dá prazer; descanso e vida 
À mente atribulada!


Gonçalves Dias

Desejo



























Ah! que eu não morra sem provar, ao menos
Sequer por um instante, nesta vida
Amor igual ao meu!


Dá, Senhor Deus, que eu sobre a terra encontre
Um anjo, uma mulher, uma obra tua,
Que sinta o meu sentir;


Uma alma que me entenda, irmã da minha,
Que escute o meu silêncio, que me siga
Dos ares na amplidão!


Que em laço estreito unidas, juntas, presas,
Deixando a terra e o lodo, aos céus remontem
Num êxtase de amor!


Gonçalves Dias

Canção do exílio
























Kennst du das Land, wo die Citronen blühen,
Im dunkeln Laub die Gold-Orangen glühen?
Kennst du es wohl? — Dahin, dahin!
Möchtl ich... ziehn. *
Goethe



Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.


Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.


Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.


Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar — sozinho, à noite —
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.


Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.


Gonçalves Dias



* - "Conheces a região onde florescem os limoeiros ?
laranjas de ouro ardem no verde escuro da folhagem;
conheces bem ? Nesse lugar,
eu desejava estar"
(Mignon, de Goethe)

O Tempo seca o Amor

O tempo seca a beleza, seca o amor, seca as palavras. Deixa tudo solto, leve, desunido para sempre como as areias nas águas. O tempo seca a ...

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