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TEOREMA DOS PLANETAS

















Antes de tudo, te observo em órbita
Te convoco a soltar o pés do solo
De pronto, te abraço em meu colo
Antes que atropele a minha fala

Junto aos passos que você coreografa
Escorrego enquanto você me agarra
Pra que a gente veja estrelas em cascata
Peço ao céu pra abençoar nosso destino

Se a gente patina
na rotina insana
Brinca de cai-levanta
Faz do deslize a dança
Conserva sempre
O encanto nas retinas

Quando as luzes se fundem
A gente sempre tá junto
E o universo imenso
Soma o manso e o tenso

Faz parar o tempo
Bem no momento
Do nosso encontro

Eu que pouco falo, bailo
Pra que até a lua veja
E os planetas giram em ciclo
Do universo em equilíbrio
E até os pombinhos miram
Quando a gente se beija


Alan Salgueiro

NO MEIO DO TIROTEIO

















No meio do tiroteio
o alvo tem forma de teia
Eu caminho como aranha
no equilíbrio em corda bamba

A bala que se aloja é feita de palavra
e as rajadas vêm de todos os lados
Aos ouvidos cada grito é um surto
Como um anúncio de tudo ao mesmo tempo

Quem dera apenas os motores berrassem barulho
e o meu escapismo se aquietasse de alento
Quem sabe um dia a fuga afugente o mundo
E eu possa por uns dias morar no silêncio

No meio do tiroteio se enfrenta a carga
O fogo se ateia em cabeça de fósforo
Afago já não tenho nem mais do horóscopo
Os tempos são difíceis pra quem é de água

Quem dera fossem os pássaros que me falassem
E o som do vento arfante abrande os meus anseios
E a serenidade amena me imunize
Pra eu sair intacto do tiroteio




Alan Salgueiro

MENOS
















Dias de janela e de panela no campo
Hora de acordar na revoada de um canto
Instante da manhã em que a alma se eleva
Concede-me um segundo pra fugir dessa selva

Entrega a minha alma
Lá onde o andar é calmo
E os passos só seguem o amor em cada ato
E a serenidade flutua na espuma das ondas

Dá-me o que eu aprenda
Dá-me um idioma que entenda as diferenças
Dá-me a recompensa e não julgamento
Por dizer que quero menos

Menos cafeína
Menos toxicina
Menos correria

E que meu grito de basta
Não seja ouvido
Quando for muito tarde


Alan Salgueiro

SOMOS TODOS ÍNDIOS
















Desde sempre
lá dos portugueses
dos espelhos
nos enganam
desde os engenhos de cana
nos tornamos estrangeiros
de nós mesmos
na terra que a gente ama

Desde sempre
em nome do progresso
das estradas de rodagem
do interesse econômico
que se rasgam as florestas
as famílias e as culturas
e batizam o extermínio
de Transamazônico

E os escravos fortes fogem pra cidade
firmam sua memória ainda não devastada
na aldeia urbana em meio à metrópole
são atropelados pelos canos torpes

O manifesto contra o despejo
decreta a morte coletiva:
Se for pra me tirar aqui dessa terra
me mate nela que eu ganho vida

Resistência não é ser selvagem
Desde sempre genocídio
Me atearam fogo, dormi na calçada
Deixaram-me em chamas, me chamaram índio

Marcamos a pele
Andamos em tribo
Temos nossos ritos
Somos todos índios


Alan Salgueiro

SÓ O SOFRIMENTO NÃO SE TERCEIRIZA​



Aquele que ativa o botão da máquina
Veste um cinza semi invisível
Só o sofrimento não se terceiriza
Pois pra cada lombo há uma chibata

Gente moendo carne de gente
Servida estragada ao chão da fábrica
Enquanto suas massas encefálicas
Eclodem de angústias quase mudas

As dores duradouras querem férias
Mas quando se institui a miséria
A uniformidade linda e bela
Faz da migalha não misericórdia

Mas ouro pra quem nada tem na horta
E antes do sol nascer também acorda
E sofre à flor da idade a sua poda
Morrendo quase no fim da jornada


Alan Salgueiro
Rascunhos de Revolução

O UNÍSSONO INCESSANTE













Alguns sonhos sobrepõem-se ás nuvens
e não se intimidam com o apito
com os limites, com os finitos
Alguns sonhos não se subjulgam
e se articulam com a força da luta
mesmo diante de acidentes de percurso

Vislumbra o continente com afinco
em dois tempos de quarenta e cinco
sem nem suspeitar que tudo finda
e em apenas um segundo se eterniza

E se de outros planos decolar um sonho
Daqui da arquibancada a gente não se cala
Mesmo que pareça que não há mais graça
Não vai ser em qualquer pouso que a gente pausa

Daqui em diante os anjos vestem verde
E cobrem de esperança o campo celeste
e o herói que cede o peito em seu extremo oeste
ressurge na lembrança de uma paz extrema
e ecoa em cada voz presente em tua arena
o uníssono incessante da Chapecoense



Alan Salgueiro

ALGO QUE NUM VERSO CAIBA

























Hoje o congestionamento embargou os olhos
e fez da lágrima parte do trânsito
Inerte testemunha à sinfonia de buzinas
Alerta ao holofote incessante intermitente

Receia o caos diário da hora do rush
em meio ao céu cinzento relâmpago e a PEC
O fôlego que falha à moléstia do corte
Com a mão que dilacera, a seara do golpe

Como se fosse pleno pesadelo
pousa o dia inteiro
sobre o travesseiro
esse pulsar tenso de dor de cabeça

E a clausura que nos nega até as ruas
por trás dos vidros escuros
faz as faces se esconderem
dos pingos de chuva

Mas vai ter uma prece de agradecimento
no meu compêndio sobre resistência
Mas vai ter uma tese que explique o sofrimento
E a luta do momento existe em resistência

Algo que promova o alívio
mas que não seja comprimido
combatido ou confiscado
algo que num verso caiba


Alan Salgueiro

Vá de Bike
























Quando te sentires preso
Quando lhe faltar a prosa
Quando lhe enxergar a rosa
Leve a liberdade na garupa

Vá onde achares longe
Onde houver uma ponte
que avance com o vento
em qualquer ponto do mundo

Quando faltar palco e público
pra ouvir o teu discurso
pra seguir no teu circuito
Faz da ciclovia tua própria carta

E escreva a cada curva
Faz do teu caderno o asfalto
Pinta a avenida turva
Se liberta e vá de bike


Alan Salgueiro

PENA QUE NÃO DÁ MEDALHA


Pena que não dá medalha:
A crise política
A calamidade pública
A corrupção que é cíclica
O transporte fétido
E o heróico atleta
compete sem incentivo
Pena que não dá medalha

Pena que não dá medalha:
O estado quebrado
e a Lava-Jato
e o levar jeito
pro estelionato
e o tiroteio
e a acomodação precária
Pena que não dá medalha

Pena que não dá medalha:
A queda da ciclovia
E a força da vaia
E o próximo escândalo
E mais esse trânsito
que me assalta o tempo
feito uma navalha
Pena que não dá medalha

E a sinuca de bico
E o golpe e a fossa
E a zica e a sínica mania
de negar o desastre
e a capacidade
de ser o lanterna da tabela
e os miseráveis
no contraste da paisagem

Enquanto aqui se responde
a pergunta ínfima:
Onde anda a tocha olímpica?
Eu subo no pódio
mas de mãos vazias
tendo a fé como a única glória
que talvez me valha
Pena que não dá medalha


Alan Salgueiro

ACIMA DAS SERRAS



Acima das serras
minhas guerras internas se dissipam
As nuvens convertem a incerteza insípida
em tranquilidade e calmaria

Perto do céu nós estamos mais vivos
Do alto das colinas se respira o alívio
A avenida se ilumina com os astros
Nossos passos viram fogos de artifício

Desliza de pantufa sem perder a pose
Desmancha ao céu da boca um biscoito doce
As vitrines se enfeitam de estrelas
Entre o altar e os vitrais a gente faz a prece

Tanta gente que aparece em meio a nossa foto
Tem pingente na feirinha de artesanato
Nossos laços se renovam de frente ao palácio
Querer se acocar por lá é coisa lúcida

Pipoca na praça amanteiga o passeio
Aperta mais o passo pra partida às oito
O desejo que fica é de uma breve volta
Desce da brisa fresca que amanhã tem praia

E mesmo que o sono te esconda as montanhas
teu amor tem grandeza tamanha
que me faria proclamar algum decreto
se eu fosse rei e isso não fosse algo secreto
De confrontar teus olhos sempre com o inédito
E fazer do teu coração o meu império


Alan Salgueiro

ÚTEROS VITORIOSOS

















Era um útero
aparentemente infrutífero
e relatos diários
de tristeza e luto

A frustração a cada mês
Não conseguir a gravidez
Vida que não germina é morte em dobro
São os traços imaginados inconcebíveis
Quem dera fosse a dor dor parto
Só se alastravam as cicatrizes

E os tratamentos caros
E os hormônios alterando o humor
E a dor maior
As crianças ao redor crescendo
E o casal volta pra casa
cabisbaixo, em silêncio

Mas entraríamos,
segundo o anjo
num ano fecundo
e após tantas tentativas
vem à tona o anúncio:
resultado positivo!

Cada mero passo
era uma vitória
a barriga crescente
como as fases da lua
o sorriso gestante
no seu álbum de fotos

E o pré-natal
E o ultrassom
E escutar
o coração
pela primeira vez batendo
foi grande a celebração

O primeiro sapatinho
quem deu foi a prima
cor de rosa, pra menina
e os abraços apertados
do pai na barriga
que era ainda tímida

O chute
Os enjoos
Os desejos
de milhos verde
O berço e os desenhos
pra pô-los na parede

A libertação da ansiedade
foi num dia de independência
naquele Setembro
celebrou a vida
Ana Clara
vinha ao mundo

Eu conheci o sorriso
da menina bela
anos depois
nos caminhos dos trilhos
de poesia
e bicicleta

As crianças
são como os textos:
são gestações pra nascerem
mas depois que viram seres
todos eles
filhos são

A história de Vanusa e Ana,
mãe e filha
é de exemplos frequentes
poderia ser com outros nomes
tantas outras tentantes
construindo famílias
em sagas de insistência
de muita fé, apesar da dor

Não há útero infértil
que não se fecunde
quando se faz tudo certo
no tratamento do amor


Alan Salgueiro

A CADA PASSO


A cada passo, marca ou pegada
caminhada árdua, luta nossa
levantar de madrugada
da cama pula, trabalha e estuda
jornada dupla e outras coisas tantas

A cada passo, pulso firme
cumpre o prazo, veia e sobressalto
cansaço bate a cada metro percorrido
até parecer de fato
que a gente tá esgotado

... que a ladeira é muito íngreme
mas a entrega nos define
e assim surge um gás
que nos faz capaz
de vencer qualquer aclive

A cada passo sacolejo o desânimo
Espetacular é o obstáculo
quando a gente ama
e se amontoa de uma força
que nos transporta pra vitória

A cada passo a sede mato
suplanto, raiz forte finco
pernas bem postadas, às suas marcas
fôlego novo, pedalo nas curvas da estrada
outro horizonte tão logo estará próximo

E feito esse esforço
ao lado dela, cessar um pouco
olhar pra nossa história construída
respirar do frescor que nos inspira
permear de amor a nossa trilha
e as paisagens acompanham a sinergia


Alan Salgueiro

NÃO VAI TER GOLPE


Tive que ser forte pra fugir do golpe
me esquivar pra esquerda pra evitar a queda
e driblar a espada e escuta escusa
e usar o escudo à lança pontiaguda

Tive que ser bravo pra estancar o sangue
sem anestesia arrancar o grampo
que tal como tora me feria a pele
a mira certeira do martelo soberano

Tive que ser ágil pra escapar das cordas
dos reacionários e dos cães raivosos
Tive que escutar um discurso de ódio
e temer a tônica da ameaça

Tive outra vez que ali tomar a praça
pra que a força fosse a do debate
pra que não houvesse outro ato covarde
como no nocaute de sessenta e quatro

Tive que sair do gancho e do direto
e fazer valer o Estado Democrático
e do que no voto ficou decidido
antes de haver contagem regressiva
e numa mordida me levarem à lona
tal qual Mike Tyson a Hollifield

Tive que contar com a presença da massa
pra então lutar contra posturas rasas
e correr na rua tal como Balboa
sob chuva forte, vento ou garoa
e me perfilar sobre as escadarias
defender as cores da democracia
do ponto mais alto do clamado pódio
só bradar a todos que não vai ter golpe


Alan Salgueiro

EU VOU PRA REDENÇÂO























Ainda que nada me sobre
que me façam o rapa no bolso
no mundo dos falsos acúmulos
ao teu lado eu volto farto
de coragem na garrafa
e mesmo depois do furto
de enfrentar outro sarrafo
tenho o meu porto seguro

E mesmo que eu me perca
seguir tua mandala
vai me puxar pra rota
Vai haver o Norte
o salmo, o bálsamo, a bússola
para me trazer de volta ao solo
E ela que me eleva a alma
vai me inspirar pra um novo salto

Se envolve dos meus braços
e me beija das mãos o dorso
com o amor mais forte
que possa existir
e me diz simplesmente:
"Eu tô aqui"
Não é qualquer discórdia
que vai nos acossar

E apesar das rasteiras
a vida nos brinda
de forma incrível
deixando a lição
Em vez me render ao que se espera
Com ela eu vou pra redenção


Alan Salgueiro

TUDO COMBINADO


Combinei com as cortinas
pra que elas se abrissem
e interagissem fazendo teatro
com os seus olhos, num final de tarde
pra que o pôr-do-sol fosse
o principal dos atos

e o alaranjado
refletido feito
lentes de contato
em contraste
aos teus semi-verdes
naturais verdades

Combinei com as pedras
para que guardassem segredos
Pedi que fossem todas observadoras
como aquelas que espiam do alto
as águas que tentam furá-las
como se as alas abrissem
o caminho de um sonhador
e a gente chegasse sem escorregar
no topo do Arpoador

Combinei com a rotina
o tempo e o roteiro
pra que não houvesse
nenhum imprevisto
e se acontecesse isso
de usar o improviso
que você gostasse
e que a gente gastasse o beijo
até os corpos ficarem fartos
em puro desgaste físico

Combinei com o acaso
que a gente combinaria
ao menos num fim de semana
ainda que fosse único
que houvesse consensos e sonhos
que houvesse turismo e descobertas
que não houvesse coberta
e que os ventiladores testemunhassem
nosso sono conjunto


Alan Salgueiro

JOGO QUASE TUDO FORA
















Jogo quase tudo fora
preciso esvaziar
as gavetas da cabeça
pra que cresçam logo
novos pensamentos
assim como plantas

Preciso me livrar das bugigangas
desertar o quarto e o guarda-roupa
como uma mudança interna
enterrar o que não serve
garimpar o que é preciso
e que o resto seja lixo

Sou gari dos meus acúmulos
dos estímulos que se empilham
das expectativas frustradas
dos projetos que vegetam
todo a obsolescência
que não angaria nada

Jogo quase tudo fora
por mais que me fira
renovar a estrutura
ou mera desculpa
pra tentar tudo de novo
pra consertar o erro
pra ver se não me ferro
na próxima tentativa

Jogo quase tudo fora
até a mim mesmo
por mais que seja duro
pra que o amanhã seja
um esboço dos resquícios do passado
ou um ensaio com alentos pro futuro

Alan Salgueiro

JÁ É NATAL NA LÍDER



Já é Natal na líder
mas não se engane
com os magazines

Pré-Natal que era de grávida
virou data Black Friday
Partos de Cesária por I-Cloud
Marca de vacina é código de barra
Já é Natal na Lista de Schindler
das necessidades criadas
nas filas dos shoppings
do SPC e Serasa

Já é Natal pras elites
e pra quem é deixado de lado
pra quem brinca de amigo oculto
e pras crianças do orfanato

Já é Natal de tender
Já é Natal de chester
Já é Natal pra gente
que a gente finge
que não enxerga
Natal pra prometer outra dieta

É Natal por antecedência
pra dividir em mais parcelas
as vidas que cheiram a plástico
envoltas num papel dourado
produto com prazo contado
pra ser o novo obsoleto

Já é Natal na líder
mas não se engane
com os magazines


Alan Salgueiro

VOU SAIR PRA VER O MAR


Deixa eu viver de forma plena
nem arma de fogo
nem rota de fuga
nem fita que isola
nem o muro que separa
vão me proibir de ver o mundo

Deixa eu sair pra ver a rua
que o luto e o nó na garganta
não me intimidem tanto
pois se pro caos não há hora marcada
é tão latente essa ameaça
que até trava o meu passo à frente

Mas se eu pisar na areia
haverá quem creia
que vai ser mais forte a resiliência
Com essa coragem que me arremessa
vou subir nas pedras
para que o vento então me acalante

E entardecendo no colo da moça
resistir aos trancos com a sua força
destravar bloqueios
que antes me prendiam num canto do quarto
Que o medo não meça os passos de me libertar
Hoje avanço, vou sair pra ver o mar


Alan Salgueiro

RASCUNHO

















Quem explica a logística da órbita?
O que leva a caneta a ferir a página?
O que leva a escrita a alcançar a lágrima?
Por que se aproxima se depois se afasta?

Se é pela paz que a gente briga
Se é pra sorrir que a gente chora
Quem vai controlar o rumo dessa história?

Se na equidistância entre os pontos
Se no alinhamento dos planos
Lua e sol nunca se encontram

Se te alertassem
que não atinges teu ápice
mostrando teus superpoderes
mas sim nos teus momentos frágeis
talvez te visitasse outra galáxia
talvez desativasse o pára-quedas

Respiro
Rabisco meu próprio infinito
Sou só caminho, rascunho
Incessante tentativa


Alan Salgueiro

E AS MINHAS MENINICES...
















Ainda tem o atrevimento
aqueles olhos que não se contentam
e as minhas meninices
não se amedrontam

Ainda tem o ato impensado
e a pureza da brincadeira
e as minhas meninices
lá se amontoam

Ainda tem a roupa suja
e o sorriso enfeitado de farra
e as minhas meninices
não se amarrotam

Ainda tem a turma, a cura
e um restinho de tinta na cara
e as minhas meninices
não se amarguram

Tem verdade gigante
em alma de pequenino
e as minhas meninices
não se amenizam
Alan Salgueiro

O Tempo seca o Amor

O tempo seca a beleza, seca o amor, seca as palavras. Deixa tudo solto, leve, desunido para sempre como as areias nas águas. O tempo seca a ...

Nos últimos 30 dias.