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O Pássaro














Parece empalhado
O pássaro que
Ensimesmado
Pousa
Sobre o mourão
Da cerca
De arame farpado

Suas tênues penas
[Só as penas]
Sutilmente movem-se
Ao sopro
De uma leve brisa

Ninguém precisa
Perguntar-lhe:
- Em que pensa?

Vê-se:
Com os olhos
Embaçados
Fixos num ponto
Tenta decifrar
Enigma

[Seria a vida?]



Zélia Guardiano

O Corvo

















Vivia eu
Dia solitário
Dia triste
Cabeça vazia
Pensamento oco
Quando me chegou
Um corvo
[Não sei se lúgubre
Não sei se aziago
Não sei se ogro]
A pedir-me pouso

Explicou:
Vinha de um tempo
Já prescrito
Fora despejado
De uma cripta
Da qual
Tinha documentação
Legalizada
[Firma reconhecida]
Compreendi
[Sei o que é burocracia]
Aquiesci
[Precisava
Mesmo
De companhia]
E lá se foi
A ave agradecida
Buscar esposa
Buscar concubina

Instalaram-se
Os três
Na minha referida
Caixa craniana
Criaram descendência
[Eu criei dependência]
Ali viveram
[Melhor dizendo:
Ali vivemos]
Até o momento
Em que o espaço
Ficou parco:
Bateram asas
Bateram em retirada

Levando apêndice


Zélia Guardiano

NOVELOS COM OS QUAIS O GATINHO BRINCOU

















Minha cabeça
Emaranhado de lembranças
Turvas
Pensamentos toscos

Difícil convertê-los
Em versos:
São novelos diversos
Com os quais
O gatinho do tempo
Brincou

Água do café
Pulando na chaleira
Fumegando
Secando no fogo
E eu
Campeando maneira
De pôr ordem
No barraco mental
E/ou psicológico
[Tanto faz
Dá no mesmo]

Se ao menos
Abrisse
A flor da flor-de-cera

Se ao menos
Abrisse
A flor
Da flor- de- são-miguel

Ai
Este papel em branco
A encarar-me
Olhando feio

[Socorro:
Onde
Mesmo
O tal caminho do meio?]


Zélia Guardiano

SATÉLITE























Hibisco
Satelitizou beija-flor
Que
Diuturnamente
Gira
Em sua órbita
Posto que
Não lhe importa
Nada além

Enquanto observo
O sedutor movimento
Penso:
Todos temos
Um tempo
De ser lua
Ao redor de alguém


Zélia Guardiano

ESTÁTUA























Ai
Estátua
Hirta
Rígida
Fria

A despeito
Da certeza
De que nunca
Tiveste vida
Persiste-me
A impressão
De que tu morreste
Um dia


Zélia Guardiano

TRAPÉZIO















Ai
De novo
O sonho recorrente:
Sou trapezista
Lanço-me ao vazio
Em triplo salto mortal
Sem rede

Em meio à vertigem
Ante o abismo
Cismo
Choro
Me arrepio
E...
Acordo
(Infelizmente:
Parece que aquilo
Não é mais difícil do que isto)


Zélia Guardiano

ALMA VELHA


O tempo
Pega a alma
Da gente
Entretece
Ao redor
Uma crosta
Faz dela ostra

Vez por outra
(Excepcionalmente)
Coloca dentro
Uma pérola

(Não me iludo:
Excepcionalmente...)


Zélia Guardiano

PLANO DE VIAGEM
















As malas
Estão prontas
Desde sempre
Encostadas
Num canto
Do meu pensamento

O mapa-múndi
Aberto
Sobre a mesa

Muitos lugares
Me chamam
(Incessantemente)
Em vão:
A viagem
Tem de ser
Para dentro


Zélia Guardiano

CARTA-TESTAMENTO


Na madrugada
Há palavras
Caídas
Por todo lado

Uma dor nas costas
Quando me abaixo
Para apanhá-las

(E são
Absolutamente
Necessárias:
Quero escrever
Carta-testamento

Repartir os medos
Os maus pensamentos)


Zélia Guardiano

Filigrana


A tênue luz
Do poste
De iluminação pública
Como se viesse
Da antiguidade
Greco-romana
Trespassa
A planta do vaso
Da varanda
Projetando na parede
Rica filigrana

Cada particularidade
Cada detalhe
Cada minudência
Da fictícia
Ourivesaria
Encanta-me
Põe-me em estado
De graça

( Faz-me pensar:


Como seria?)


Zélia Guardiano

O Tempo seca o Amor

O tempo seca a beleza, seca o amor, seca as palavras. Deixa tudo solto, leve, desunido para sempre como as areias nas águas. O tempo seca a ...

Nos últimos 30 dias.