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Islândia - Uma variação insular















Cratera estranha, fria quanto baste
E húmida, uma secreção intumescendo
A haste da figueira e o figo único
Que a boca rasga;

Não é aqui a saga de Thor, nem a espada
De Tristão, flácida.
Dobra-se o herói de lava e, em rotação de si,
Abraça o fogo petrificado.
E teme o gelo à deriva no mar, as palavras
Brancas, o sal que escorre
- alguém disse: “da terra, de onde sois” –
seu corpo aberto em fissuras cósmicas
ou lucernário; Ele que se metamorfoseou
em relâmpago e breve sabia como derivam
no tempo os frutos e o seu esplendor;

O figo único que a palavra rasga.


Luis Carlos Patraquim, O Osso Côncavo e outros poemas, Lisboa: Caminho, 2004, p.50, 93-4, 130

Metamorfose

























quando o medo puxava lustro à cidade
eu era pequeno
vê lá que nem casaco tinha
nem sentimento do mundo grave
ou lido Carlos Drummond de Andrade

os jacarandás explodiam na alegria secreta de serem vagens
e flores vermelhas
e nem lustro de cera havia
para que o soubesse
na madeira da infância

sobre a casa

a Mãe não era ainda mulher
e depois ficou Mãe
e a mulher é que é a vagem e a terra
então percebi a cor
e metáfora
mas agora morto Adamastor
tu viste-lhe o escorbuto e cantaste a madrugada
das mambas cuspideiras nos trilhos do mato
falemos dos casacos e do medo
tamborilando o som e a fala sobre as planícies verdes
e as espigas de bronze
as rótulas já não tremulam não e a sete de Marco
chama-se Junho desde um dia de há muito com meia dúzia
de satanhocos moçambicanos todos poetas gizando
a natureza e o chão no parnaso das balas
falemos da madrugada e ao entardecer
porque a monção chegou
e o último insone povoa a noite de pensamentos grávidos
num silêncio de rãs a tisana do desejo
enquanto os tocadores de viola
com que latas de rícino e amendoim

percutem outros tendões da memória
e concreta
a música é o brinquedo
a roda
e o sonho
das crianças que olham os casacos e riem
na despudorada inocência deste clarão matinal
que tu
clandestinamente plantaste
AOS GRITOS


Luís Carlos Patraquim

A VOZ E O VENTO

















com palavras faço a voz
e o vento
de que viajam e são

insistente desejo a lucilar
sobre a pele morna
de girassóis filtrando
teu rosto
seios
paisagem nua de ventre
com palavras a voz do que faço

estes dias infensos
a pendor de gume


Luís Carlos Patraquim

REMINISCÊNCIA
















às vezes o exílio
é uma árvore aberta
na imponderável noite

e nada espreita
a estrada larga
fonte do olhar

principia como um homem
multidões ao vento
a terra exangue
o grito arável


Luís Carlos Patraquim

CANÇÃO
















chegarei com as árvores
meu amor ao som do sangue
às catedrais do puro gesto
com o grito e as aves
marítimas dentro das sílabas
ao breve cume da espuma
mãos nas mãos chegarei

chegarei com as espadas
areia verde dó planície
ao tutano meu amor da fome
com os frutos nos teus olhos
amante vento à espera
ao sexo nuclear do mundo
nervo a água chegarei

chegarei nas manhãs suadas
da voz meu amor liberta
à nocturna onda do poema
com as aves dentro do grito
ou só marítimo eco
à raiz exígua dos cristais
morte a morte chegarei

chegarei de pé ao silêncio
que vaza meu amor nos rios
remo a canto deslumbrados
contigo ao princípio chegarei


Luís Carlos Patraquim

Lugar




















É aqui onde me estripam. Lugar
Obsessivo sussurro de chegar. 
Aqui. À hemorragia fremendo
das palmeiras com as vísceras
a leve matéria verde da linguagem.
Às insondáveis monções, extáticas,
sobre a nervura dos barcos.
Hoje, nenhuma massala te diz
os seios no poema. A terra
Porque é aqui onde me estripam
e tarde se confunde a manhã
nas gengivas da noite. O lugar.


Luís Carlos Patraquim

O Tempo seca o Amor

O tempo seca a beleza, seca o amor, seca as palavras. Deixa tudo solto, leve, desunido para sempre como as areias nas águas. O tempo seca a ...

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