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Mente minha ?
















A minha mente é como se não fosse, flutua…
Leveza e vontade de voar, uma criança brincando.


É minha mente.


Distraída do mundo, compenetrada a detalhes,
Cadê minha mente?


Se me perguntarem o que habita em minha mente, direi:
- Descubra, só você o pode.


Nos atos,
Nos gestos,
Nas palavras que dela saem.


Só sei que minha mente brinca comigo
Enquanto meu coração fala sério.
Meu coração é meu abrigo.
Minha mente é mistério.


Ana Helena Ribeiro Tavares

O orvalho e a semente





















No inverno, o aconchego
O medo do sossego
No outono, as quedas
E algumas entregas


Mas é primavera
Depois da espera
E o verão virá
E também passará


Um pingo de orvalho
Naquela semente,
Parece dizer: essa primavera tá diferente


Engano: tudo se mistura
Enquanto a vida dura
E a dança das estações
Só se traduz a quem as sente.


Ana Helena Ribeiro Tavares

O tempo e o caçador de borboletas


























Lutar contra o tempo
É como caçar borboletas
Aprisiona-lo parece belo
Mas nada como admirar seu vôo…


Vôo de pássaros sem espingarda
É como vida a rumar sem medo
Um tiro… Todo um bando se dipersa…
Uma pausa… Toda uma vida olha pra trás…


Olhar pra trás no reino animal
É como dar chance ao caçador
Olhar pra trás em nossa vida
Pode ser dar uma chance ao tempo


E assim aquele caçador de borboletas
Que num descuido de uma a aprisionou
Percebeu que não queria dela a beleza
Queria mesmo era saber voar como ela…


Ana Helena Ribeiro Tavares - 5 de junho 2008

O mar - água que vai, vida que dura


























Água que volta, água que bate
Pegadas desconhecidas na areia
O mar as apaga… Eterno empate!
Lá vem novas pegadas em cadeia.


Vida que vai, vida que traz
Rostos dispersos na multidão
O tempo os mistura… E faz mais!
Deixa as marcas de uma lição.


Um grupo seria igual
Sem um de seus integrantes?
O mar se manteria original
Sem uma gota que estava lá antes?


Água que vai, vida que dura
Gotas que já não são mais do mar…
Rostos dispostos numa moldura
Vida que segue seu renovar.


Ana Helena Ribeiro Tavares
Livremente inspirado numa aula de sociologia… Eterno empate!

O raro ensejo da hora


´
















Morte: ausência de vida?
É certo que não só…
Dentro da própria vida
Também se pode virar pó!
Virar pó, morrer vivendo –
Andar vivo sem viver –
Dar um nó nas leis do tempo,
Ser nocivo ao próprio ser.


Deixar nuas, a cair,
As vestes do agora.
Cruzar ruas a fugir
Àquele beijo que aflora.
Em suas mãos ver sumir
O raro ensejo da hora.
Passar luas sem sorrir
Ao lampejo da aurora.


E só quando vestir novamente
O que despiu por vergonha
Aquele agir no presente
E com que hoje só sonha
Fará surgir realmente
Uma manhã mais risonha.


Ana Helena Ribeiro Tavares

Rotinas e Retinas


















A moça pobre estirada no chão
Adormece na cama de cimento
O senhor com o cigarro na mão
Sorri em meio ao fumo cinzento


A moça que não larga o celular
Se sente na moda, se sente chique
A trabalhadora cheia de bolsas pra carregar
Se vê a ponto de um chilique


O mauricinho rói unhas… Velho vício
Música e buzina a se misturar
Os aposentados seguram cartões de benefício
Benefício de que? Parecem pensar…


O soldador se arrisca sem segurança
Talvez seja o sustento de sua casa
O motoqueiro na calçada esbanja confiança
Até parece que sua moto tem asa


E o sono de quem segura cartazes?
Opa! Cuidado, assim a placa cai…
Mas o pior são os que já perderam as bases
É triste não se saber pra onde vai…


Mas sempre há quem tente clarear a estrada
A maravilha da cidade é seu povo camarada.


Ana Helena Ribeiro Tavares

Coisas Impossíveis


























Tocar saxofone em Marte
O mundo sem arte

Bandeiras paradas na ventania
Morcego morder de dia

Uma cobra andar de lado
Dançar freneticamente o fado

Correr numa bicicleta a 300 por hora
Chupar cana comendo amora

Passear livre e solto pela parede
Ficar dois dias sem água e sem ter sede

Construir um país em dois meses
A humanidade sem interesses

O bem trapaceando o mal
Pepinos formando um grupo social

Líder sem seguidor
Sacrifício indolor

Lágrima que brota colorida
Uma guerra mundial ser vencida

Paz com muro
O sol raiar escuro

Uma vida assim, assim
Banqueiro sem din-din

Venda sem produto
Palmeira dar fruto

Saci sem cachimbo
Fim-de-semana sem domingo

Beta sem alfa antes
Quixote sem Cervantes

Julieta sem Romeu
Um padre ateu

O céu virar chão
Homem sem coração

Sangue azul
Estar no norte e no sul

Jornal sem notícia
Verdade fictícia

Bebê que fale ao nascer
Sem versos um poeta viver

A Terra sem o mar
A poesia acabar…


Ana Helena Ribeiro Tavares

O Dom do Amor
















Julguei ser um corriqueiro assunto…
Para versar o amor fiquei comedida.
Sem harmonia ficou o conjunto.
Neguei o pintor da vida.


Fiz de mim branca barreira pomposa,
Ao invés de cercar-me com muros de cor.
Uma aparência que se queria formosa
Sentiu falta da leveza do amor.


Não sei se ele age da melhor forma,
Talvez não precise mesmo saber.
Se é o amor algo puro e sem norma,


Se é ele quem nos ensina a viver,
Com sua tão recortada plataforma
Nos bem cabe amar… Pra que entender?


Ana Helena Ribeiro Tavares

Por que escrevo?




















O escritor é um observador.
Observa tão atentamente
Que na escrita tem que expor
Tudo o que percebe à frente.


E ainda sabe ele que ao escrever
De fugir da timidez é capaz…
Se cara a cara não consegue deixar ver
Tudo o que seu coração traz…


E, enfim, nos textos que cria
(Com gosto doce, salgado ou azedo)
Está a sua mais profunda fantasia,


Toda sua emoção, todo seu medo.
Brincar com as letras é, com magia,
Levar seu mundo à ponta do dedo.


Ana Helena Ribeiro Tavares - Livremente inspirado no poema “Autopsicografia“, de Fernando Pessoa.

Uma pergunta para Platão - poema






















Há quem queira ser Deus e abandonar o humano
Vejo isso, meu Deus, será engano?
Tem gente querendo ocupar o Seu lugar, e de vez!
Não se importam com Suas leis!
Pensam que ninguém vê quando erram, que fica tudo no escuro
Será que não vêem as câmeras atrás do muro?
Há até, veja só, quem ache que imortalidade traz felicidade
Nessa hora minha cabeça dá nó, isso não pode ser verdade
A morte faz parte da vida tanto quanto a tristeza não existe sem a alegria
Estão querendo manipular tudo, meu Deus, onde vai parar tanta rebeldia?
Não conheço coisa mais maravilhosa que o tropeço de uma criança
Pra que eu iria querer nascer um robô que não sabe o que é dança?
Dança de emoções, que doem e deixam seqüela
Dança de sonhos, suspirados na janela
Sou errônea, meu Deus, e sei que da morte não me esquivo
Será que Platão hoje queria ser vivo?


Ana Helena Ribeiro Tavares

A Garça




















A garça com seu pescoço palito
Olhava a água de um negro infinito
Bem queria avistar ali alimentos
Bem queria estar vendo outros ventos


Inerte, em sua imposta impotência,
Da proa de um velho barco, põe-se a olhar o horizonte
Parece pedir ao mundo clemência
Ou talvez ela só quisesse voar


Ana Helena Ribeiro Tavares

Negócios negócios, paz à parte














- Para minha amiga Bete Trotte, que “se mudou para Gaza”.

Faz-se noite por onde passaram os filisteus
Faz-se noite sobre a sombra do belicismo
daqueles pra quem a paz não interessa
Faz-se noite e a manhã não começa
Escureceram o sol, já não ouvem Deus
aprisionaram sua voz num abismo



Faz-se noite sobre um mundo de sofás atentos
Assisti-se ao sangue derramado pelo vil metal
Negócios negócios, paz à parte
Em que parte? Pra que olhos? Não é um filme?
Mas os olhos das mães de Gaza choram
Lágrimas lágrimas, ficção à parte



Não sei como os generais do Estado sorriem
depois de tantos cogumelos nocivos à humanidade
cravando de mortes a terra onde Cristo escolheu viver
impedindo o broto de chegar à mocidade
fazendo vidas valerem menos que poder
e tapando o sol com balas de canhão



Contam com a inércia de um mundo doente
Ouvi dizer por esse meu Brasil:
“Não sou judeu nem mulçumano. Pra que me preocupar?”
Faz-se noite nessa mente senil
que só com a morte frente à frente
verá que na palestina todos vão parar


Ana Helena Ribeiro Tavares

Os óculos quebrados




















Eu vejo tudo desregrado
Numa sociedade tão cheia de louça
Veja que incoerência, meu caro…
Fazem exigência e têm os pés na poça


Mas vejo por um prisma distorcido
O meio me deu óculos e ele mesmo os quebrou
É tanta informação passando em meu tecido
Que há dias em que não sei nem quem sou


Vejo o povo colocar as leis e quem as aplica numa margem, ou seria um pedestal?
E mandar o espaço urbano, seio das causas sociais, pra outro rio…
Quem me dera que isso fosse só uma miragem hibernal!
Daqui a uns anos, eu não quero ver meu país chorando em lugar frio


A moda é ser hipócrita, virou sonho de consumo
Hipocrisia resolve tudo, dá status, virou troféu
Pro meu olhar qual pode ser o melhor rumo
Senão ficar querendo admirar o céu?


Mas poetas gostam de observar a sociedade
Por isso Drummond sentava-se de costas pro mar
Só me resta uma grande curiosidade:
Quantos juízes ele terá visto passar?


Ana Helena Ribeiro Tavares

O Tempo seca o Amor

O tempo seca a beleza, seca o amor, seca as palavras. Deixa tudo solto, leve, desunido para sempre como as areias nas águas. O tempo seca a ...

Nos últimos 30 dias.