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Trechos...parte 3
(...)
Falta-me agora o amor, esse perfeito artista decorador dos momentos em ninho. Ou esse grande explosivo que de um beijo faz nascer um oceano. Não importa. Guia-me-á na morte a poesia, como ao florentino guiou nos caminhos do Inferno e nas escarpas do Céu. (...)
Onde estou? Que lugar é este onde cheguei? que tarde quieta e única é esta, dourada no céu e verde no mar? Estamos chegando. Passo a passo, com extrema fadiga, aproximo-me da beira do abismo. Estou só. O mundo ficou para trás. O vento trouxe ainda pedaços do mundo, notícias soltas e rasgadas que dançam no ar... (...) Dizem que há uma guerra; que há incêndios; que moços caem como folhas; que ministérios se reúnem; que exércitos recuam. Há produtos farmacêuticos que anunciam a felicidade. Há sorrisos de aluguel impressos nos cartazes do mundo.
Trechos do livro Lições de Abismo do escritor Gustavo Corção
Trechos...parte 2
(...)
Quando viva, minha vida era suspensa e gratuita. E eu não sabia! Estava nela o meu segredo, o sinal, a explicação, o nexo, e a mistura - sim, a composição metafísica de ser e de não-ser de onde eu nascia continuamente.(...)
Doravante eu era adulto, irremediavelmente adulto, sem nenhum nexo, a não ser os livros, as estampas, as estátuas, sem nenhum nexo com o mundo em que eu não era. Aferrei-me à convicção de que havia no universo uma absoluta necessidade de que eu fosse. Assim, calava-se a minha angústia, e eu me instalava, deus solitário e melancólico, no centro de um inverso feito para mim.
Volta-me hoje, porém, à medida que se aproxima o outro nada tenebroso, o mesmo sentimento infantil de dependência total. Mais do que nunca, sinto-me suspenso. Entre um acaso criador e um acaso destruidor. Entre um nascimento incompreensível e uma morte incompreensível. Solto. Desamparado. Ontem caio por acaso num regaço que se abre; amanhã numa pedra que se fecha.
E o pensamento que me tortura é o da minha esterilidade.
Trechos do livro Lições de Abismo - Gustavo Corção
Trechos...parte 1
"...Não será a própria vida uma longa e desarrumada atividade dos bastidores para uma fugaz apoteose?...
...A conclusão que tiro é que a vida e a morte são heterogêneas, e que a vida não se pode tomar como um objeto de arte, música ou poema, como insinua o filósofo que diz que o homem é uma existência para a morte. Se a nossa vida fôsse um poema , a morte seria o têrmo. Se fôsse dança, o último passo do exausto dançarino mereceria o aplauso das galerias angélicas. Se alguma coisa tende impetuosamente para um têrmo, é a arte.(...) Na poesia, sim, a idéia de têrmo e de morte se casam. Cada poesia é uma boa morte. Um testamento novo. Uma vitoriosa agonia...
...Tentemos outras direções. A vida não é um poema; não tem a inteireza de um bailado; não se completa como a música. Mas será, quem sabe? uma coleção descontínua de momentos, com intervalos mais ou menos prolongados e mais ou menos insípidos. O conjunto será confuso, como as obras completas de um autor que tenha andado por caminhos diversos; mas os pedaços, os volumes, serão compreensíveis e razoáveis. Vem a morte e deixa um resto, como em gaveta de laborioso escritor que não teve tempo de rasgar seus abortos. Mas o que ficou, ficou....
...Mas, se é descontínua a vida, por que serei eu sempre o mesmo, por que a continuidade da consciência e a consciência da continuidade? Não vejo o nexo necessário entre essa acabrunhante mesmice e a estonteante diversidade dos momentos da vida....
(...)Quanto a não pensar, talvez exista um certo modo de não pensar na morte, digo na própria morte. Mas esses, que não pensam na morte, já a trazem consigo, recalcada, engolida, a comandar, como eminência parda, todos os atos desconexos da vida. Um medo difuso estará no seu sangue, morte dissolvida, morte contínua. E essa pessoa terá um medo profundo, pânico, irracional, de uma porção de coisas miúdas: terá medo de ficar sem dinheiro, medo de perder o prestígio,...
Trechos do livro Lições de Abismo - Gustavo Corção
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