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O Tempo seca o Amor





















O tempo seca a beleza,
seca o amor, seca as palavras.
Deixa tudo solto, leve,
desunido para sempre
como as areias nas águas.

O tempo seca a saudade,
seca as lembranças e as lágrimas.
Deixa algum retrato, apenas,
vagando seco e vazio
como estas conchas das praias.

O tempo seca o desejo
e suas velhas batalhas.
Seca o frágil arabesco,
vestígio do musgo humano,
na densa turfa mortuária.

Esperarei pelo tempo
com suas conquistas áridas.
Esperarei que te seque,
não na terra, Amor-Perfeito,
num tempo depois das almas.


Cecília Meireles

Mar absoluto














Foi desde sempre o mar,
E multidões passadas me empurravam
como o barco esquecido.

Agora recordo que falavam
da revolta dos ventos,
de linhos, de cordas, de ferros,
de sereias dadas à costa.

E o rosto de meus avós estava caído
pelos mares do Oriente, com seus corais e pérolas,
e pelos mares do Norte, duros de gelo.

Então, é comigo que falam,
sou eu que devo ir.
Porque não há ninguém,
tão decidido a amar e a obedecer a seus mortos.

E tenho de procurar meus tios remotos afogados.
Tenho de levar-lhes redes de rezas,
campos convertidos em velas,
barcas sobrenaturais
com peixes mensageiros
e cantos náuticos.

E fico tonta.
acordada de repente nas praias tumultuosas.
E apressam-me, e não me deixam sequer mirar a rosa-dos-ventos.
“Para adiante! Pelo mar largo!
Livrando o corpo da lição da areia!
Ao mar! – Disciplina humana para a empresa da vida!”
Meu sangue entende-se com essas vozes poderosas.
A solidez da terra, monótona,
parece-mos fraca ilusão.
Queremos a ilusão grande do mar,
multiplicada em suas malhas de perigo.

Queremos a sua solidão robusta,
uma solidão para todos os lados,
uma ausência humana que se opõe ao mesquinho formigar do mundo,
e faz o tempo inteiriço, livre das lutas de cada dia.

O alento heróico do mar tem seu pólo secreto,
que os homens sentem, seduzidos e medrosos.

O mar é só mar, desprovido de apegos,
matando-se e recuperando-se,
correndo como um touro azul por sua própria sombra,
e arremetendo com bravura contra ninguém,
e sendo depois a pura sombra de si mesmo,
por si mesmo vencido. É o seu grande exercício.

Não precisa do destino fixo da terra,
ele que, ao mesmo tempo,
é o dançarino e a sua dança.

Tem um reino de metamorfose, para experiência:
seu corpo é o seu próprio jogo,
e sua eternidade lúdica
não apenas gratuita: mas perfeita.

Baralha seus altos contrastes:
cavalo, épico, anêmona suave,
entrega-se todos, despreza ritmo
jardins, estrelas, caudas, antenas, olhos, mas é desfolhado,
cego, nu, dono apenas de si,
da sua terminante grandeza despojada.

Não se esquece que é água, ao desdobrar suas visões:
água de todas as possibilidades,
mas sem fraqueza nenhuma.

E assim como água fala-me.
Atira-me búzios, como lembranças de sua voz,
e estrelas eriçadas, como convite ao meu destino.

Não me chama para que siga por cima dele,
nem por dentro de si:
mas para que me converta nele mesmo. É o seu máximo dom.
Não me quer arrastar como meus tios outrora,
nem lentamente conduzida.
como meus avós, de serenos olhos certeiros.

Aceita-me apenas convertida em sua natureza:
plástica, fluida, disponível,
igual a ele, em constante solilóquio,
sem exigências de princípio e fim,
desprendida de terra e céu.

E eu, que viera cautelosa,
por procurar gente passada,
suspeito que me enganei,
que há outras ordens, que não foram ouvidas;
que uma outra boca falava: não somente a de antigos mortos,
e o mar a que me mandam não é apenas este mar.

Não é apenas este mar que reboa nas minhas vidraças,
mas outro, que se parece com ele
como se parecem os vultos dos sonhos dormidos.
E entre água e estrela estudo a solidão.

E recordo minha herança de cordas e âncoras,
e encontro tudo sobre-humano.
E este mar visível levanta para mim
uma face espantosa.

E retrai-se, ao dizer-me o que preciso.
E é logo uma pequena concha fervilhante,
nódoa líquida e instável,
célula azul sumindo-se
no reino de um outro mar:
ah! do Mar Absoluto.


Cecília Meireles, no livro “Mar absoluto”. 1945.

No mistério do sem-fim























No mistério do sem-fim
equilibra-se um planeta.

E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,

entre o planeta e o sem-fim,
a asa de uma borboleta


Cecília Meireles

Tempo Verbal




















Eu só quero um presente
E você com esse tal futuro do pretérito.

É um tempo verbal que eu não entendo
É esse o futuro do pretérito
Um tempo verbal enganador.
Ele diria mas não diz.
Ele amaria mas não amará.
É um tempo verbal que ninguém lê
Carregado de condições
Que quase ninguém vê.

Thiago Kuerques - no livro Ensaio dos Poemas Pelados (Poemas com despudor são muito mais sinceros)

círculo















atrás das roupas
inquietas no varal

a asa
na mudez do pouso

círculo da
luz
suspensa

na água
trêmula do balde



Carlos Orfeu, nasceu em Queimados, Rio de Janeiro. Publicou Invisíveis cotidianos em 2017 pela editora paraense Literacidade. Nervura em 2019, pela editora Patuá.

E relançou Invisíveis cotidianos em 2020 pela editora Patuá.

Encomenda

















Desejo uma fotografia
como esta — o senhor vê? — como esta:
em que para sempre me ria
como um vestido de eterna festa.

Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.

Não meta fundos de floresta
nem de arbitrária fantasia...
Não... Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia.

Cecília Meireles - Inserido no livro Vaga Música (1942)

A vida está em suspenso
















[ ... ]

Ontem fiz planos pra hoje,
Não os realizei...

E antes de ontem,
E antes,
Fiz planos...

Mas não os realizei

E desde o primeiro dia
De isolamento
Todos os planos que fiz
Não realizei nenhum deles

O poema não veio
A leitura não veio
A burocracia em pausa
A esperança não me deixa

E em respeito às vítimas
Cujas vidas
O vírus varreu da Terra

(Enquanto
Espero a Vida
Voltar ao normal)

Sinto que o melhor
É ficar em silêncio

[ ... ]

Até lá
Seguirei assim

Dando o melhor
De mim

Em suspenso

[ ... ]



Alexandre Guarnieri 


(carioca de 1974) é poeta e historiador da arte. Integra o corpo editorial da revista eletrônica Mallarmargens. Lançou Casa das Máquinas (Editora da Palavra, 2011), Corpo de Festim [livro ganhador do 57o Jabuti/ 2a Edição pela Penalux], Gravidade Zero (Penalux, 2016) e O sal do Levitã (Penalux, 2018). Em 2016, também publicou pela Patuá a antologia Escriptonita (poemas tematizando super-heróis), do qual foi um dos organizadores.

http://www.mallarmargens.com/2020/03/a-vida-esta-em-suspenso-poema-de.html

Epigrama nº 1
















POUSA sobre esses espetáculos infatigáveis
uma sonora ou silenciosa canção:
flor do espírito, desinteressada e efêmera.

Por ela, os homens te conhecerão:
por ela, os tempos versáteis saberão
que o mundo ficou mais belo, ainda que inutilmente,
quando por ele andou teu coração.

Cecília Meireles, no livro “Viagem”. 1939.

Receita de poema
















Um poema que desaparecesse
à medida que fosse nascendo,
e que dele nada então restasse
senão o silêncio de estar não sendo.

Que nele apenas ecoasse
o som do vazio mais pleno.
E depois que tudo matasse
morresse do próprio veneno.

Antonio Carlos Secchin

À sua espera














No cais eu permaneci durante um longo período
Observei o bailar das gaivotas ao horizonte
Junto a brisa fresca que pairava sobre minha face
Admirei o crepúsculo que adentrava àquela cena sem pedir licença
Reparei intrínseca e calmamente
Na suavidade com que as águas se movimentavam
Formando ondas, horas silenciosas, outras arredias
A perfeição seria alcançada, porém,
Se sobre minhas mãos frias estivessem repousadas as suas
E se o meu corpo fosse acalentado ao enlace de seus abraços.


Vinícius Morésis















negro no branco
branco no negro

veias
poros
suor
iguais

na morte
os mesmos
pés
juntos

não há raça
há humanos
na
teia
do
tempo
presente


Carlos Orfeu

Negro


















Pesa em teu sangue a voz de ignoradas origens.
As florestas guardaram na sombra o segredo da tua história.

A sua primeira inscrição em baixo-relevo
foi uma chicotada no lombo.

Um dia
atiraram-te no bojo de um navio negreiro.
E durante longas noites e noites
vieste escutando o rugido do mar
como um soluço no porão soturno.

O mar era um irmão da tua raça.

Uma madrugada
baixaram as velas do convés.
Havia uma nesga de terra e um porto.
Armazéns com depósitos de escravos
e a queixa dos teus irmãos amarrados em coleiras de ferro.

Principiou aí a sua história.

O resto,
o que ficou para trás,
o Congo, as florestas e o mar
continuam a doer na corda do urucungo. (*)


Raul Bopp
De: “Urucungo: poemas negros” (1932)

Nota:

(*) Instrumento musical africano.

Negro. In: __________. Seleta em prosa e verso. Organização, estudo e notas do Prof. Amariles Guimarães Hill. Rio de Janeiro, GB: Livraria José Olympio Editora; Brasília, DF: Instituto Nacional do Livro - Ministério da Educação e Cultura, 1975. p. 13. (Coleção “Brasil Moço”)

Os Trabalhadores do Mundo
























Bate, coração do Mundo,
Bem escuto o teu ritmo,
Os saltos do sangue humano correndo pelas artérias
Do doloroso corpo mapa-múndi.

Os pés em marcha, as máquinas gesticulando,
A terra em seu labor de guerra eterna.

Ímpeto de lutar
Por qualquer coisa que ainda há de acontecer.
Pelo que outrora os sinos repicaram,
Pelo que agora os apitos gritam desesperadamente,
Pela explosão de um sol
Brilhando no aço das lanças e dos cascos
Dos cavaleiros com penachos, sob bandeiras,
Ao lado a procissão misteriosa das sombras no chão,

Marcha de heróis ou leva de prisioneiros?

Dante Milano. Os trabalhadores do mundo. In: __________. Poesias. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1948. p. 75.

simbologia do esquecido













os peixes que esqueci no sonho
que esqueci
não morreram sem comida:
multiplicaram-se

a água pouca e suja
para os peixes muitos
pequenos e vários

alimentei-os


Fabio Rocha

A ninguém preciso dizer adeus














A ninguém preciso dizer adeus:
todos têm suas ocupações, e estão longe, embebidos
em seus enganos, que a felicidade imitam.
A ninguém preciso dizer adeus:
nenhum espaço formará lugar de ausência,
pois a presença nunca formou nenhum espaço.
A ninguém preciso dizer adeus:
parece triste partir assim, sem lembrança nem lagrima.
Não é, porém, mais alegre, desaparecer ao longe
sem ter deixado atrás nem lagrimas nem lembrança?

Cecília Meireles, ‘Dispersos (1918-1964)’. em “Poesia completa”.

Morrer

















Pois morrer é apenas isto:
cerrar os olhos vazios
e esquecer o que foi visto;

é não supor-se infinito,
mas antes fáustico e ambíguo,
jogral entre a história e o mito;

é despedir-se em surdina,
sem epitáfio melífluo
ou testamento sovina;

é talvez como despir
o que em vida não vestia
e agora é inútil vestir;

é nada deixar aqui:
memória, pecúlio, estirpe,
sequer um traço de si;

é findar-se como um círio
em cuja luz tudo expira
sem êxtase nem martírio.


Ivan Junqueira - De O Grifo (1983-86)

Resistir é preciso















a menina que voltou a viver pela poesia
e passou a dobrar calças todo dia
as mesmas dobras
as mesmas calças
nas mesmas horas
no mesmo lugar
não consegue mais escrever poesia

sua agonia ronda esse poema há uns dias


Fabio Rocha

A Foca























Quer ver a foca
Ficar feliz?
É por uma bola
No seu nariz.
Quer ver a foca
Bater palminha?
É dar a ela
Uma sardinha.
Quer ver a foca
Fazer uma briga?
É espetar ela
Bem na barriga!

Vinicius de Moraes

A bailarina


















Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.
Não conhece nem dó nem ré
mas sabe ficar na ponta do pé.

Não conhece nem mi nem fá
Mas inclina o corpo para cá e para lá

Não conhece nem lá nem si,
mas fecha os olhos e sorri.

Roda, roda, roda, com os bracinhos no ar
e não fica tonta nem sai do lugar.

Põe no cabelo uma estrela e um véu
e diz que caiu do céu.

Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.

Mas depois esquece todas as danças,
e também quer dormir como as outras crianças.

Cecília Meireles

Tempo acabado


















Castelos do tempo, calabouço da dor
A poeira fina e cinza
Adentra ao peito como orvalho da manhã
Da mais fria e deletéria manhã
Já não me faz bem olhar adiante
Pois no passado encontro a resposta
Ela sempre esteve lá!
Por entre ruínas úmidas e tristes
Luz medrosa e tímida aparece
Como gume de espada polida
Que rasga a retina acostumada à escuridão
E soca o peito pálido
Parcialmente coberto por trapos encardidos
Pobre vassalo do tempo
Que vive o tempo
Habita o tempo
Até que não haja mais o que contar
Pois não há mais a quem contar
Tudo se foi
Tudo acabou


Charles de Campos

O Tempo seca o Amor

O tempo seca a beleza, seca o amor, seca as palavras. Deixa tudo solto, leve, desunido para sempre como as areias nas águas. O tempo seca a ...

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