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Desintegração
















Eu tenho o coração cheio de coisas para dizer...
E a minha voz, se eu acaso falasse,
teria a força de uma revelação!
Meu espírito palpita ao ritmo desordenado e aflito
de asas prisioneiras que se dilaceraram
na arrancada impossível da libertação e da altura.

Minhas mãos tremem ainda ao contato
imaterial, sobre-humano e fugitivo
de qualquer coisa além e acima deste mundo...

Adormeceu para sempre no fundo dos meus olhos
a saudade de paisagens estranhas e longínquas,
que nunca, nunca mais voltarão neste tempo e neste espaço.

Doem meus olhos. Tremem, ansiosas, as minhas mãos.
Meu espírito palpita. Tenho o coração cheio de coisas para dizer...
Eu estou vivo, Senhor! mas, em verdade, é como se estivesse morto...


Abgar Renault

Mensagem ao Poeta Carlos Drummond de Andrade
















Fazendeiro sem fazenda,
eu escuto a tua moenda
moendo a cana dolorida
de que escorre intenso caldo
com gosto de sangue e vida;
teu trigo de nuvens, alto,
contemplo, que surge em ouro
do teu brejo de lembranças,
e perscruto salso coro
de póstumas esperanças;
bebo a tua água de sede,
de todo ti me embriago,
e na tua áspera rede
me vou, me levo, me trago,
de chão e dia me esqueço:
montado no teu cavalo,
densas roças atravesso,
a longínquos ventos falo,
sobre bocas cismadoras
velhos bigodes escuto,
que percorrem as lavouras,
impondo seu estatuto;
vejo um anjo: é fel e doce,
tomou tua mão de infância
e pelo escuro te trouxe;
tua essência e circunstância
vão subindo ausente escada
de tênue casa de lua;
flor de palavra fechada
em tua alma se insinua;
rosa-cardo desabrocha
o seu perfume de espinho
no cimo da tua rocha,
destila pungente vinho
na corola de uma taça,
tingindo-a amargosamente;
pelo seu terreiro esvoaça
vôo de canto silente,
e o colhes entre teus lábios,
e a ele teu dom se mistura;
engendras teus astrolábios,
constróis teus abismos e altura,
dás olhar a escuros seres
desces a peitos opacos
e vês sombrios haveres,
letras, horas, cinzas, cacos;
compões palhadas e esteiras,
abacelas as raízes
alporcas fuscas roseiras,
estrumas cansadas terras,
cuidoso limpa os pastos,
cavalo, pensas e ferras,
voas sobre os campos vastos;
voltas, casas as camélias,
fenas e ensilas forragens,
desgalhas árvores velhas,
e os teus pés engolem viagens
para amanhares alqueires;
e regas os teus transplantes,
examinas teus alfeires,
com sábias mãos incessantes
podas, sachas e mondas,
e em cada de tuas tulhas
teus grãos de estrelas escondes,
sóis disfarçados debulhas
das mais inscientes espigas;
se penetras nas senzalas,
em seu negrume respigas
brilhos de duras opalas;
és tu a foice e a colheita
dos teus íntimos idiomas,
e indelével lua espreita
ruas de tempo em que assomas.

*

Homem de pranto sem pranto,
que soluças, do teu barro
escondido sob o manto,
vida e amor — anéis sem aro;
Homem triste de Itabira
que do galpão da memória
extrais a nublosa tira
de uma estrada merencória.
revelhas arcas exumas,
cavalgas teu submarino
dentro de argilas e brumas,
pões no bolso o raro sino
de murcho som de violetas
esferas de sumos grossos
e pélagos de ondas pretas
que comoveram teus ossos
no ontem país dos Andrade,
— colhe a voz que, há quarenta anos
mais um, te disse amizade,
e no vale dos enganos
nunca se enganou contigo,
tua voz de ouro calado,
amaridúlcido amigo!
sulcos de teu grave arado,
teu sideral moenda,
fazendeiro sem fazenda.


Abgar Renault

Soneto do impossível

















Não ouvirás nem luz, nem sombra inquieta
das sílabas que beijam tuas asas,
nem a curva em que morre a ardente seta,
nem tanta eternidade em horas rasas.


Não medirás a bêbeda corola
que abriste no final do meu sorriso,
nem tocarás o mel que canta e rola
na insônia sem estradas onde piso.


Não saberás o céu construído a fogo,
que tua jovem chave cerra e empana,
nem os braços de espuma em que me afogo.


Não verão os teu olhos quotidiana
a minha morte de homem embebida
no flanco de ouro e luar da tua vida.


Abgar Renault

Humildade

















Minha humildade de água me trouxera
ao mais íntimo pó do pós de ti
e rira à desatada primavera
os ouros e cristais que ela sorri.


Trajada de urze, barro, liquen e hera,
ficara em desbotado e eterno aqui,
marcando, à tinta de ar, pelo ar a espera
de se entreabrirem tempestades e


silêncios para os lumes do teu passo.
Modelara-me em terra ou limo crasso
para ser teu desdém, objeto ou chão.


Vivera no final de selva e furna,
tornara o coração ilha noturna,
século, inverno a dormir o teu clarão.


Abgar Renault

Alegoria




















Em vão busco acender um diálogo contigo:
a alma sem tom da tua boca de água e vento
despede cinza, névoa e tempo no que digo,
devolve ao chão o meu mais longo pensamento,


e entre cactos estira esse deserto ambíguo
que vem da tua altura ao vale onde me ausento,
procurando o teu verbo. O silêncio, investigo-o,
e ouço o naufrágio, o vácuo e o deperecimento.


Sonho: desces a mim de um céu de algas e rosas,
falas às minhas mãos vozes vertiginosas,
e palavras de flor no teu cabelo enastro.


Desperto: pairas ainda em silêncio e infinita:
meu ser horizontal chora treva e medita
tua distância, teu fulgor, teu ritmo de astro.


Abgar Renault

O Tempo seca o Amor

O tempo seca a beleza, seca o amor, seca as palavras. Deixa tudo solto, leve, desunido para sempre como as areias nas águas. O tempo seca a ...

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