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Desfilam
















Emergem do passado, novamente,
Fantasmas, que marcaram o viver,
Toldando cada novo amanhecer
Com sombra visionária, no presente.

Manchada por angústias, de repente,
A alma, que não deixa de sofrer,
Espalha dor profunda em todo o ser
E acaba magoada p'lo que sente.

Desfilam, à porfia, pela mente,
Memórias, desfocadas, a dizer
Que nunca, nunca mais, se há-de esquecer.

E tudo o que o viver de combatente
Impôs, a cada um, como dever,
Há-de marcá-lo sempre, até morrer.

Vítor Cintra  - do livro: Passos da História

Riscos


















Enquanto olho no tempo a minha vida
Preservo, com saudade, na lembrança,
Irmã, os nossos tempos de criança,
Deixados na distância percorrida.


A vida toma rumos imprevistos,
Difíceis de sonhar na juventude,
Mas tem, por isso mesmo, mais virtude
Saber vivê-la bem, vencendo riscos.


Aqueles que corri, e foram tantos,
Alguns co' o coração lavado em prantos,
Por força do fervor e da vontade.


Marcaram dalgum modo o meu destino,
Distante dos meus sonhos de menino,
Mas feitos na vivência da verdade.


Vitor Cintra

Passagem


















Só eu, que vivo um sonho de gigante,
Na pequenez dos versos que componho,
Cantando o que é passado, bem distante,
E, do presente, o que é apenas sonho;


Só eu, que desejei que a lusa gente
Se mantivesse nobre, como outrora,
E que, na pequenez do seu presente,
Levasse essa nobreza mundo fora ;


Direi que alguma vez será passado
Aquilo que, nos povos africanos,
Por lá deixou ficar cada soldado.


Bem mais do que a lembrança dessas guerras,
Perdurará ainda, muitos anos,
O muito que fizeram nessas terras.


Vitor Cintra

Outono




















Não há mais andorinhas nos beirais
Nem zumbem as abelhas pelos campos,
Nos rios já aumentam os caudais
Mercê da Natureza com seus prantos.


Passou a Primavera e o Estio
Deixou atrás seus tempos de pujança.
Do Norte sopra agora um vento frio
Que acende uma lareira na lembrança.


No chão, de folhas mortas, um tapete
De que se despojou o arvoredo
Em tempo, que é agora, de seu sono.


Qual ordem que em silêncio se repete
Por toda a Natureza, num segredo,
Sintomas da chegada de Outono.


Vitor Cintra

Prostituta



















Chamas-lhe " mulher sarjeta "
Porque se vende na rua ...
- Afinal, uma faceta
Duma vida, como a tua . -

" Sarjeta " ?! ... " Mulher da vida" ?! ...
Pois chama-lhe o quiseres
Há tanta mulher perdida
Igual às outras mulheres !


É mais nobre a prostituta
Que, mesmo num rumo torto,
Não vende os seus sentimentos,

Que muita "dama" impoluta
Que, no recurso ao aborto,
Mascara comportamentos.


Vitor Cintra

Reencontro

















Assim me queiras tu que, por meu lado
Não vou deixar de amar-te, nunca mais,
Ainda que os dislates do passado
Nos tornem mais diferentes do que iguais.


Nasci para te amar e ser amado
Por ti, que me fizeste recordar
Distantes horizontes do meu fado,
Tão cheio dos azuis de céu e mar.


Nem tudo está perdido, no meu mundo,
Enquanto eu encontrar, no teu sorriso,
A força e o carinho, que preciso.


Serei feliz até, cada segundo
Que vir, do teu olhar, a ansiedade
Sair p'ra dar lugar à f'licidade.


Vitor Cintra

Cheiro




















Teu corpo, poema ardente.
Frenética rima de ais,
Aurora, pedindo mais,
Com louco vigor, fremente.


Teu rosto, sorriso aberto,
Promessa, sonho, desejo,
Tornando-se a cada beijo
Tão quente, quanto tão certo.


E o dia feito uma hora,
Por entre os ais e os gemidos,
Festim, sem par, dos sentidos.


Mas, quando te vais embora,
Só fica o teu cheiro, intenso,
Enchendo o vazio imenso.


Vitor Cintra

Inverno



















Vestida está, de branco, toda a serra,
Prenúncio do Natal que se aproxima;
O vento, que nos sopra lá de cima,
É gelo que fustiga toda a terra.


O fumo que se escapa de repente,
Do topo duma ou outra chaminé,
Indica que a aldeia põe-se a pé,-
Desperta, como o dia, lentamente -.


Um galo, que ao romper da madrugada
Se esforça por saudar a alvorada,
Já canta no mais alto dos poleiros.


Em ciclo natural, que surge eterno,
Sucedem-se as chuvadas do Inverno,
Depois dos muitos dias soalheiros.


Vitor Cintra

Fim de Tarde

















Os olhos vagueando o horizonte
Vislumbram lá no cume, atrás do monte,
O sol que se recolhe ao fim do dia.
Pintado de laranja o arenito
Desperta nesse ocaso,como um grito,
Fantasmas, com um toque a fantasia.


Saídas das memórias da infância
Ressoam badaladas, à distância,
Chamando à oração o povo crente;
Na tarde, que se esvai, melancolica
,A par de quanto resta de alegria,
Acalma o coração de toda a gente.


A noite, que ao cair envolve tudo,
Abafa, numa sombra, gesto mudo,
Um tempo que não volta mais atrás;
Do norte soa agora a voz do vento,
Baixinho, quase apenas um lamento,
Com medo de quebrar aquela paz.


Vitor Cintra

O Tempo seca o Amor

O tempo seca a beleza, seca o amor, seca as palavras. Deixa tudo solto, leve, desunido para sempre como as areias nas águas. O tempo seca a ...

Nos últimos 30 dias.