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Ao Pobre
























Tens apenas duas moedas
e a miséria te abate?
Compra um pão,
com a moeda primeira.

Com a segunda,
compra o orvalho da noite,
a amplidão: silêncio dos astros todos.
Compra os lírios que se libram
nas hastes do infinito.

Ainda com a segunda moeda,
compra o sol da manhã do destino,
a dor de amor em verso curto,
a liturgia das aves,
o ritual de acasalamento da aurora das cores.

Compra o clarão de sonho da alma do infante.
Compra, e a vida, de troco,
em troca,
dar-te-á a essência
das vidas de tua vida.



Nara Rúbia Ribeiro, do livro “Pazes”, a publicar.

Sem pele


















A alma de toda a gente tem cercanias.
A minha, não tem.
É um descampado.
Não tem telhado, não tem paredes.
Muitas vezes, nem chão.

E sinto no peito as encostas
de tudo o que sangra e corrói.

Também toda a beleza me visita sem licença
e a poesia de tudo me acontece.
Mas a beleza, não raro, ela fere.

As garras de um beija-flor podem ser mortais
a uma alma sem pele.

Então, por isso, às vezes me exaspero e grito
para que o meu peito,
em desabrigo,
não seja tão violado.

Mas quando me sai o protesto,
as minhas palavras também me sangram
e morro mais um tanto por dentro.

Já não quero a palavra que afugenta a dor.
Quero o silêncio que cicatriza a ferida
e que me prepara para a dor mais forte:
a própria Vida.

Nara Rúbia Ribeiro, do livro “Pazes”, a publicar.

A Hora














A porta do tempo é opaca,
mas menino a viu entreaberta.
Foi espiar.
“- Mãe, cada minuto é feito de sessenta borboletas coloridas
Que voam depressa pra todo lugar.”
A mãe sorriu.
“- E qual a estrutura da hora, filho?”
“- A hora, mãe, é quando a matemática das borboletas se junta
E elas seguram as asas umas das outras,
cirandadas,
Como se fosse a humanidade inteira… “
A humanidade inteira,
Essa é a hora.

Nara Rúbia Ribeiro, do livro “Não Borboletarás”, Editora Kelps, 2013.

Meus olhos estão cansados de morrer














Meus olhos
estão cansados
de morrer.

E morrem abertos
anestesiados de um ai profundo.

Eles sabem
que no fundo de cada alma
há sempre um abismo novo
que compete com o abismo do outro,
e que, somados,
são o abismo de um povo.

Meus olhos sentem
as farpas,
as farsas,
as fissuras
da estrutura dos mundos.

Eles se banham silentes,
face a indiferença de muitos.
Mas morrem de pé
como quem se recusa a quedar-se.

Morrem eretos,
como quem
nem mesmo ante a morte se curva.
Pois sabem enxergar o sol
nas profundezas mais turvas.

Nara Rúbia Ribeiro

O Tempo seca o Amor

O tempo seca a beleza, seca o amor, seca as palavras. Deixa tudo solto, leve, desunido para sempre como as areias nas águas. O tempo seca a ...

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