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Sina


















Quando eu era menina,
a verdade parecia estar nos livros:
ali moravam as respostas
e nasciam os nomes.

Quanto mais procurei,
mais me perdi
na trilha das indagações:
as respostas não vinham,
a verdade era miragem,
a busca era melhor que a
descoberta,
e nunca se chegava.

(Viver era mesmo sentir aquela fome.)



Lya Luft

Canção das mulheres



Que o outro saiba quando estou com medo, e me tome nos braços sem fazer perguntas demais.

Que o outro note quando preciso de silêncio e não vá embora batendo a porta, mas entenda que não o amarei menos porque estou quieta.

Que o outro aceite que me preocupo com ele e não se irrite com minha solicitude, e se ela for excessiva saiba me dizer isso com delicadeza ou bom humor.

Que o outro perceba minha fragilidade e não ria de mim, nem se aproveite disso.

Que se eu faço uma bobagem o outro goste um pouco mais de mim, porque também preciso poder fazer tolices tantas vezes.

Que se estou apenas cansada o outro não pense logo que estou nervosa, ou doente, ou agressiva, nem diga que reclamo demais.

Que o outro sinta quanto me dóia idéia da perda, e ouse ficar comigo um pouco - em lugar de voltar logo à sua vida.

Que se estou numa fase ruim o outro seja meu cúmplice, mas sem fazer alarde nem dizendo ''Olha que estou tendo muita paciência com você!''

Que quando sem querer eu digo uma coisa bem inadequada diante de mais pessoas, o outro não me exponha nem me ridicularize.

Que se eventualmente perco a paciência, perco a graça e perco a compostura, o outro ainda assim me ache linda e me admire.

Que o outro não me considere sempre disponível, sempre necessariamente compreensiva, mas me aceite quando não estou podendo ser nada disso.

Que, finalmente, o outro entenda que mesmo se às vezes me esforço, não sou, nem devo ser, a mulher-maravilha, mas apenas uma pessoa: vulnerável e forte, incapaz e gloriosa, assustada e audaciosa - uma mulher.


Lya Luft

Nós nos amaremos





















Nós nos amaremos docemente,
Nesta luz, neste encanto, neste medo:
Nós nos amaremos livremente
No dia marcado pelos deuses.
Nós nos amaremos com verdade
Porque estas almas já se conheciam:
nós nos amaremos para sempre
Além da concreta realidade.
Nós nos amaremos lindamente,
nós nos amaremos como poucos.
no teu tempo.


Lya Luft

Trapezista





















A vida chega em silêncio;
desenvolve reflexos,
interroga esfinge
que responde ou nega
num espelho baço.
(A resposta nunca é clara
nem é pequena.)


Não é a mim que vejo:
é o outro, num misto de incerteza
e esperança de que não seja
mais um rosto virado,
uma boca cerrada
- mais um desgosto
a cada passo.


Desejo, sonho e medo,
o amor é salto em rede
entre a razão e a magia,
(E só assim vale a pena.)


Lya Luft

Canção para um Desencontro



















Deixa-me errar alguma vez,
porque também sou isso: incerta e dura,
e ansiosa de não te perder agora que entrevejo
um horizonte.


Deixa-me errar e me compreende
porque se faço mal é por querer-te
desta maneira tola, e tonta, eternamente
recomeçando a cada dia como num descobrimento
dos teus territórios de carne e sonho, dos teus
desvãos de música ou vôo, teus sótãos e porões
e dessa escadaria de tua alma.


Deixa-me errar mas não me soltes
para que eu não me perca
deste tênue fio de alegria
dos sustos do amor que se repetem
enquanto houver entre nós essa magia.


Lya Luft

Mar de menina





















Havia um mar,
e ali brotava uma ilha
povoada de lobos e de pensamentos.
Havia um fundo escuro e belo
onde os naúfragos dançavam
como sereias.
Havia ansiedade e abraço.
Havia âncora e vaguidão.


Brinquei com peixes e anjos,
fui menina e fui rainha,
acompanhada e largada,
sempre a meia altura
do chão.


A vida um barco, remos ou ventos,
tudo real e tudo
ilusão.


Lya Luft

Canção em outras palavras



























O melhor cuidado com o amor
é deixar que floresça,
pois amor não se cultiva: é flor
selvagem, bela por ser livre.
Como as estações do ano, ele se abre,
dorme, e volta a perfumar a vida.
Amor é dom que se recebe
com ternura, para que não pereça
sua delicadeza em nossa angústia.


O amor não deve encerrar a coisa possuída,
mas ser parapeito de janela, ou cais
de onde se desprendam os revôos
e partam os navios da beleza
para voltar ou não, conforme amarmos:
nem de menos
nem de mais.


Lya Luft

Guardei-me pra ti...



























Guardei-me para ti como um segredo
Que eu mesma não desvendei:


Há notas nesta guitarra que não toquei,
Há praias na minha ilha que nem andei.


É preciso que me tomes, além do riso e do olhar,
Naquilo que não conheço e adivinhei;


É preciso que me ensines a canção do que serei
E me cries com teu gesto,


Que nem sonhei.


Lya Luft

Conflito





















Tenho medo das águas do destino,
a invadirem o que penso e faço,
numa linha de infinda
contradição.


Eu sou assim:
quero fugir, mas chamo,
quero ficar mas me assusta
não ter em mim nada seguro
e certo.


Nunca receio a alegria,
para qual todos os milagres
são normais.


Mas quando tarda quem amo,
meu coração fica exposto
e aberto.


E mesmo assim eu persisto,
e ainda assim espero
ainda, como criança sozinha
atrás do muro.


Lya Luft

Tua Dádiva

















Acolhe-me em teu abraço,
com teu olhar me afirma:
aquele espaço a teu lado
é o porto da minha viagem,
meu lado de rio, minha margem.


Abriga-me no teu corpo
para que o meu se desdobre
em onda de mar ou concha.


Aceita-me e me recria
como nem eu me conheço:
em ti parece que chego
como uma coisa concreta,
algo que avança e se adianta,
e só assim se desdobra,
pois antes era miragem.


Recebe-me em duas partes:
aquela que o mundo avista,
e a outra, a verdadeira,
chão de tua sombra que passa,
e da tua luz que se planta.


Lya Luft

Paraíso





















Aberta ao mundo como um grande ouvido
- nada entre o buscado e o buscador -,
senta-se a criança no degrau de pedra
e olha.


Ela é inteiramente o que contempla:
não a flor, mas o espaço fora
das coisas.
Nessa liberdade
sua pequena mão contorna desenhos
que nem a minha lucidez
alcança.


Não quero indagar se faz sentido,
nem a chamo para o cotidiano:
nada que eu lhe possa mostrar
vale o seu olhar
de agora.


Lya Luft

Tenho Medo

















Tenho medo da dor de tua ausência
que me queima por dentro.
E da ternura eu tenho medo, dessa
beleza das noites secretas
quando chegas
sempre como se fosse a única vez.


Tenho medo de que um dia queiras
cessar esse rio de águas ardentes
onde mais do que os corpos
tocam-se as almas,
anjos desatinados luzindo no breu


Lya luft

Reverberação





















O destino trama os dias
e desfaz o sonho: demarca
meus contornos, partes
disso que sou e serei.


Quem sabe desejei demais:
milagres não me bastaram,
mas quando eu quis ser rainha
fui simplesmente humana.


A voz da vida insiste,
chama para o que salva
ou desatina:
nem sempre a entendi.


Palavras buscam sentido
para o que fiz, falhei,
conquistei e perdi
- ou que me abandonou
nalguma esquina.


(Talvez eu precisasse é dos silêncios.)


Lya Luft

Semântica



























Chego mais fico ausente,
o triste é também o belo,
procuro o que não se perde
nem se pode encontrar.


Buscar respostas nos livros
é esconder-se entre linhas.
Não creio no que se enxerga,
mas nisso que se disfarça
por mais que se tente olhar:
assim me tem seduzida.


Eis o jogo que eu persigo,
meu jeito de ser feliz,
o desafio que me embala:
sempre que escrevo "morte"
estou falando de vida.


Lya Luft

Canção da falsa adormecida


























Se te pareço ausente, não creias:
Hora a hora o meu amor agarra-se aos teus braços,
Hora a hora o meu desejo revolve estes escombros
E escorrem dos meus olhos mais promessas.


Não acredites neste breve sono;
Não dês valor maior ao meu silêncio;
E se leres recados numa folha branca,
Não creias também: é preciso encostar
Teus lábios em meus lábios para ouvir.


Nem acredites se pensas que te falo:
Palavras
São o meu jeito mais secreto de calar.


Lya Luft

Canção como aviso...




















As minhas emoções estão intactas
como antes de acordar: serenas
nesta solidão, nem sei se esperam.
Será preciso alimentar de novo
a chama adormecida
do amor que armou incêndios na penumbra
e me apagou.


Estou aqui ainda, enriquecida a mais
com as memórias doces da alegria.
Para me alumiar, quem venha agora
terá de compreender o meu receio
de que seja longa só a fantasia
e breve a permanência de quem veio.


Lya Luft

Canção Pensativa



























Um toque da solidão,
e um dedo severo me traz à realidade:
não depender dos meus amores,
não me enfeitar demais com sua graça,
mas ver que cada um de nós é um coração sozinho.


Cada um de nós perenemente
é um espelho a se mirar,
sabendo que mesmo se nesse leito frio e branco,
um outro amor quer derramar-se em nós,
entre gélido cristal e alma ardente,
levanta-se paredes para sempre!


(E para sempre a amante solidão nos chama e abraça.)


Lya Luft

Perder sem se perder























Foram-se, os amores que tive;


ou me tiveram.
Partiram.
Num cortejo silencioso e iluminado.
A solidão me ensina a não acreditar na morte,
nem demais na vida:
cultivo segredos num jardim,
onde estamos eu,
os sonhos idos,
os velhos amores e os seus recados,
e os olhos deles que ainda brilham,
como pedras de cor entre as raízes.


Lya Luft

O Tempo seca o Amor

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