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El Pibe de Oro
Como verei futebol sem ver Maradona.
Cadê o craque argentino?
Futebol de gigante... tamanho de menino!
O que será de nós? Pobres mortais!
Sem vê-lo com a camisa azul e branca de seu país
O gramado que fora pisado por seus mágicos pés
A bola que acariciada foi por seus toques sensuais...
hoje choram de saudade por aquele craque do Boca
que calou tantas bocas...
e acendeu outras de alegria
Ah, Napolitanos!
Quanta tristeza vela em seus corações
Ah, Castelhanos!
Guardem em teus olhos as visões
do menino demônio
que conquistou o mundo com o dom do futebol.
Tão feroz como um furacão passou
Com o talento magnífico nos encantou
Maldito foi, os caminhos de seu coração
De deus, agora vida de mortal
num tango sem carnaval
passos de tristeza e dor.
A Argentina, o Mundo,
viu o martírio num lento suicídio
do herdeiro castelhano
de Pelé e Garrincha.
Henrique Rodrigues Soares - A Natureza das Coisas
Monomania
palavras sucessivas oprime
sugestões estúpidas confusas
dominado pelo tenebroso crime
de quê me acusas?
me acusas sem precisão
da grandeza de meus planos
qual é a questão?
porque tão desumano?
danos me foram legados
inclusos em minha parte
não sei qual foi meu pecado?
deve ter sido.- amar-te
continuo com esta doença
de carne, alma e pensamento
ato de fé por uma crença
idéias em confinamento
furtaste os meus segredos
me arrebentara num precipício
não há castelos nem espelhos
só muros e edifícios
II
já não falamos a mesma língua
abriste todos os meus segredos
conheceste as minhas manias
hoje revelas os meus medos
medo das alturas
medo dos copos quebrados
medo das mãos puras
e dos meus olhos afogados
afogados no mar que criei
me cortei nos corais
são marcas que conquistei
para esquecer nunca mais.
Henrique Rodrigues Soares - A Natureza das Coisas
O Sobrevivente
o ar quente que sai do teu decote
a vida espontâneamente espera a morte
os lábios que falam como chicote
os corpos açucarados num fricote
na vida sobrevivem os fortes
não para essa de azar ou sorte
limpei as feridas, curei os cortes
todo time tem seu mascote
II
o cumprimento da tua minissaia
o infortúnio da vaia
a marcação da raia
a mordida da lacráia
a arte dos indios Maias
a febre da malária
nem todos são da mesma laia
nem todos vestem uma mesma malha
III
veja essa onda de livre umbigo
produto de desejo antigo
para palavras não ligo
não resolvem... não são meu abrigo
quantas dores sem amigos
quanta fome sem trigo
esta saudade que levo comigo
de tudo que deixei contigo
IV
a impotência é o maior aleijo
qual o valor de um beijo?
qual o sabor de um queijo?
o que sonho? o que almejo?
tudo é quanto tão vejo?
são quentes os desejos
desordens que antevejo
nascem de um simples gracejo
V
procuro de tudo um sinal
tão simples e irracional
tão chulo e tão banal
para sintonia ou canal
me ensine o bem e o mal
me ensine o sensacional
traduza para meus olhos o fatal
antes que me cale com o final
Henrique Rodrigues Soares - A Natureza das Coisas
Alma Corsária
fotografias antigas não tenho
lúcida treva na memória
subterrâneo sem estória
o passado queimou como lenho
amores foram sem escolhas
gavetas... maçanetas rachadas
dor triste desafinada
árvore, só de galhos e sem folhas
não consigo olhar as luzes amargas
no meu ouvido canções terrivéis e mortas
no mar longe das dorcas
edifícios, ilhas e cruzes
o eterno esconde a verdade
as suas pernas escondem o mito
as estrelas o infinito
de quem procura a realidade
meus versos sem nexo
são rascunhos de um dia
notas de uma melodia
perdida sem sucesso
II
amo tua tristeza e tuas estrias
não sou bom falando palavras
mas as escrevos com simpatia
neste mundo que raro é a esperança
nos olhos dos vivos
tão duvidosos e tão decididos
são caro também os dias e os dedos
vende-se corpos, almas e crianças
tudo é tão claro, quando não um segredo
o amor é sempre repetitivo
muda-se apenas os nomes
os mesmos beijos... a mesma fome
eterna mutação dos principios e dos fins
leitura do não e do sim
pelo rio da dúvida infinita
tão revolta e desdita
navegas a vida sem consolação.
Henrique Rodrigues Soares - A Natureza das Coisas
O Encontro
Naquela noite serena em que te encontrei
Brotara no teu rosto sorriso sem igual
que como uma áurea angelical
me conquistara. Então te amei
como se ama sem prudência
Num desejo de querer
Num desejo de ter
sem vícios ou dolências
Como um corcel atropelei o vento
numa corrida louca
Meu coração disparou à solta
a procura do seu sustento
Um selvagem sem espírito
cavalgava pela natureza
sem títulos de nobreza
tendo pela frente apenas o infinito
A violentos galopes fui a tua procura
Quando te encontrei. Cansado
esperei por teu olhar iluminado
Um olhar profundo de ternura.
Henrique Rodrigues Soares - A Natureza das Coisas
Ritmo das Coisas
me experimentas com sal ou doce
me cumprimentas com mãos ou olhos
me facilitas com sorrisos
me acostumas com as horas
me costuras com os amores
me fascina com as cores
me engana com as flores
me escraviza com os sabores
mas, não me farto
mas, não me encontro...
os edifícios me sufocam
este barulho todo me ensurdece
estes andares femininos me provocam
a miséria me emudece
os grandes anúncios te convocam
para liquidação ou para prece
os carros se atropelam numa quermece
os pedestres fazem sexo quando se tocam
mas, não me farto
mas, não me encontro...
Henrique Rodrigues Soares - A Natureza das Coisas
Problemas do Amor
O amor é feito de retalhos
cheio de manhas, manhãs e atalhos
as cabeças pendem como holofotes
Olhos vêem os escondidos dotes
que ao efeito do vinho
rebelam em suaves carinhos
A lua acende e ilumina
paixões que correm pelo corpo
A lua enlouquece a solidão
fria que se derrama em copos
A noite é pequena para quem ama
Se quer sol na noite e cama,
de dia e chama
sangue tinto de qualidade
II
As minhas mãos te atravessam
Meus olhos conversam com os teus
Hora fria é a hora do adeus
Bocas degustam o doce do outro
E os calores dos corpos produzem luz
Luz para estas escuras vidas
Mas um dia, e todos os outros são cinzas
uma palavra, um gesto, uma dor, um medo
no corpo e nos olhos
tudo que era limpo e belo, agora é sujo e falso
III
Palavras não levam a lugar nenhum
contas que são faz-de-contas mau contados
tantas portas e tão poucos caminhos
tanto sexo sem nexo e carinho
Sentimentos flácidos e gordurosos
cozinham sem tempero
esperando o mau gosto de alguém para comê-los
IV
Procuras o quê?
-Não sei!
Há tantos procurando tantos
Há pranto em vários cantos
que meu canto diante de tanto pranto se calou
Risos cospem na face
o frio do desgosto corre nas veias
Preciso de teu corpo nem que seja como árvore
Mentiras e enganos...
Somos tão humanos
que nos parece honesto
ser assim.
Henrique Rodrigues Soares - A Natureza das Coisas
Canto de Solidão
solitário, e sem ouvintes
caminho falando mentiras
uma voz tonitruante
flui na intensa luta
meus planos inconstantes
meus passos flutuantes
são manual de verdade
nos ocasos os acasos
verdadeiros casos de dor
febres tomam nossos corpos
e vemos tudo como uma única chance
hoje, está tão frio
esta chuva fina
despertando o cio
de quem não tem amor
quantas vezes teu sexo
é maior que o mundo
quantas vezes teus olhos
desejam profundo
um pouco de silêncio
um pouco do imenso
um pouco de morte
quantas vezes tua cama
tua fama, tua lama
dispensas vazias e muitos ratos
a saudade chama...
clama... inflama
por todos os dias
corrói os fatos
são tantos dramas
tão pouca comédia
é calor de epiderme
lágrimas de verme
não me iludo com mimos
no amor sempre se perde
cada rio tem seu morredouro
mas é preciso...
Henrique Rodrigues Soares - A Natureza das Coisas
A Inconsciência do Saber
Levemente, as sucetibilidades te atrasam
Teu corpo sem fôlego
Como um rio sobre um côrrego
É tanto alimento que vazam
A tristeza engordura tua face
Com seu sombrio olhar
E num vento você ver rasgar
A ingratidão de teu disfarce
O medo de perder te contém
Na briga pelo território
O teu coração bode expiatório
Das dores que te controlam
O possuir é tão fraco
Como deixar-se escapar
Os opostos formam par
"O ser ou não ser" não deixa rastro
Henrique Rodrigues Soares - A Natureza das Coisas
Prisioneiro da Solidão
Sem chances sem palavras
Uma solidão branca devassa domina meu coração
Tudo anda em círculos
da obra prima a matéria bruta
tudo se compõe e decompõe em grãos
Os ditadores esquizofrênicos
os D. Juans amargos
os baús trancados
pelo passado sem chaves
nunca mais usados por ninguém
Os sonhos são ousados
mas a perdição é inconsciente
A vida um recipiente
onde alegria e tristeza disputam lugar
Amar é entregar
ao convívio das ilusões
Desejar é querer
domar o touro pelos chifres
O egoísmo transforma o coração
num oceano de solidão
Henrique Rodrigues Soares - A Natureza das Coisas
Meditações sobre Vida e Morte
os distúrbios mentais
os licores carnais
o descanso da tarde
o nascer da madre
respirando o ar matinal
o receber noturno
com o desespero do infortúnio
o veneno guardado no bolso
o egoísmo que não ouço, que não ouso falar
os temores, os dissabores, os rancores
colhidos no coração
são de uma safra sem perdão
são uma sombra sem salvação
mas todos querem viver
nem que sejam com as bocas caladas
com o riso das ciladas
em suas faces
as células aventureiras gritam pela ação
enquanto a morte quer nos aleijar na solidão
o vento envelhece seus sonhos diuréticos
quase caquéticos
seus desejos dietéticos
seus ideais comprados em liquidação
o vento liberta
seu ódio encarcerado
seu medo doutrinado
cheio de observação
Henrique Rodrigues Soares - A Natureza das Coisas
Falta de fé
Não quero um brilho triste e fosco
Quero lágrimas brotando no rosto
como quem espera um novo alvorecer
um calor no corpo para se aquecer
Áspera e quente é a paixão
que queima e machuca
a noite chega como uma bruxa
linda, bela, cheia de encantação
E quando vai embora, maluca!
deixa-nos em devastação
Amor, cinzas de um caixão
é o vento! é o sol! é a chuva!
Resíduos de conversa criam uma guerra
soldados andam patrocinados pelo sangue
carregando pólvora em seus tanques
a busca de estrelas em outras terras
Teus crimes são infantis
diante do mau que ronda o mundo
são um câncer denso e profundo
procurando um mártir.
Henrique Rodrigues Soares - A Natureza das Coisas
Corredor da Vida
Gritos de dor me sufocam
Uma dor que arde no peito
Destas sem descanso sem leito para dormir
O curto silêncio vive dúvidas... ansiedades
que podem durar instantes
que podem está ainda distantes
O aroma do tempo santo
voa sobre nossas narinas
Não há nenhuma aspirina
que vá controlar minha dor
Desta prisão buscou liberdade
mas apenas de cela mudaste
Pois nunca haverá sol nem lua
sem que você abra seus olhos.
Henrique Rodrigues Soares - A Natureza das Coisas
Cidades Esgot(os),(adas)
![]() |
| Marco Zamora el arte del caos urbano |
Almas andam em rotas
de colisão com a morte
buscas remotas
de dentes de rotes
a precisão da bala, a precisão de teus olhos
sinais vermelhos fechando a via-crucis
pequenos apartamentos cheio de flores
que nascem do medo de sua solidão
flores solitárias e sombrias
resta uma trilha para sua salvação
os corpos precisam de marketing
os corpos precisam ficar cheios
roupas caras... objetos de arte
para esconder teus anseios
cidade que fede...
os esgotos são ruas, ou as ruas são esgotos?
nenhum crime se comete sem tua observação
esgotada está sua alma
esgotado está seu perdão
são como flores de inverno
plantadas no inferno
nascendo no verão.
Henrique Rodrigues Soares - A Natureza das Coisas
Tempos Remotos
Quanta saudade tenho
da vida que não vivi
do amor que não amei
Quanta saudade tenho
do que não conheci e do que nunca terei
Do rosto de meu avô
restou a saudade das rugas que não apalpei
dos conselhos sábios, folclóricos
que nunca ouvi
da amizade que nunca tivemos
Oh! meus avós
que nem seus sorrisos conheci
Luiz Henrique, Juvenal
os cabelos grisalhos, o ar colossal
que imaginei...
não ficou nada...
apenas a sombra de suas existências
De minha avó Maria
Avó na infância
na adolescência
nas ânsias e nas delinquências
Ainda sobrou aquela foto sem sorriso
séria, indiferente
aos meus erros.
Henrique Rodrigues Soares - A Natureza das Coisas
A Cortesã da Juventude
Não suportas a velhice
A tua beleza murchar
Queres sempre viver ontem
Para o amanhã não chegar
Tiraste um trago
da fumaça de vida que trago
na sombra cheia de estragos
feito pelas traças
E engasgou-se
de ilusões e loucuras
Ternuras e frescuras
que teu corpo absorveu
Ah! Como teu corpo é fúnebre
estéril e viril
Este teu sorriso infantil
que faz dos dentes diamantes
dos olhos amantes
de um mundo mercado
Ah! Como tua alma é frívola e feérica
Teus lábios sutis
criaram uma nova fonética
Não compreendes a maturidade de uma folha
Considera a velhice uma falta de escolha
Teu rosto enruga o espelho
Teus ouvidos não aceitam um conselho
Queres sempre está nova!
Henrique Rodrigues Soares - A Natureza das Coisas
Confissão
Entre as folhas e as ramagens frias
Pude ver teu corpo e tua alma vazia
Despir do nu na melancolia
No despertar da noite e no dormir do dia
Entre os teus olhos e os meus
Havia uma cinza nuvem de mágoas
Entre a terra e os céus ( seus )
Deus pariu as águas
Não esqueço da primeira vez que te vi
Teu rosto alegre e nativo
Procurando sempre um motivo
Pra sorrir e ser feliz
Também, não esqueço da última vez que te vi
Teu rosto "pueril" e cansado
O corpo servil e amarrotado
Pelos caminhos sem fim.
Henrique Rodrigues Soares - A Natureza das Coisas
Tudo como sempre era
Negros
dias negros
destino sorrateiro
trens negreiros
guerrilheiros sem esperança de vitória
Assim se escreve a história
da África até a América ( América do Sul )
Nu
despido pela fome
a viagem consome
o sonho de um país
o sorriso de ser feliz
Da Baixada a Central
pobre, sem domingo, marginal,
negros, brancos e mestiços
foragidos dos muquiços
enfrentando o sol
As favelas
de bocas banguelas
não escondem sequelas
da chibata feudal
Os meninos vadios
batendo bola
fugiram da escola
para esperar o carnaval.
Henrique Rodrigues Soares - A Natureza das Coisas
Vidas sem rumo
O finito na eternidade dos amantes
O amargo no mel das abelhas
O fluxo de ar que escapa entre as telhas
e passa pelo teu corpo estuante...
de sexo que molha nossas bocas
acalentando o medo da morte e o medo da dor
Desta dor desprezada, pobre e sem cor
anêmica, mórbida, bruta e louca
Os teus sonhos calam tua incerteza
O teu sentimentalismo esconde tua covardia
Como um atalho... uma magia
Na escuridão uma vela acesa.
Henrique Rodrigues Soares - A Natureza das Coisas
O segredo do abismo
o egoísmo bate na tua porta
como um sentimento sufocado
um amor que deixou de ser amado
uma avião fora de rota
tudo que nasce... sempre brota
como uma lágrima num olho cansado
como a morte num amor assassinado
sempre o mesmo valor, a mesma nota
o teu ódio verde na horta
já cresce conformado
de seu espaço limitado
como um navio em uma frota
somos um... temos um fado
uma morte e uma corda.
Henrique Rodrigues Soares - A Natureza das Coisas
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