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Viagem para dentro de casa
















Aroma de café espalhado na cozinha,
poema que reclama o calor da mão febril
a tatear o verso entre flores
de amores e de mortes
no porta-retratos de moldura prateada,
escondido atrás do bibelô com seu verniz de infância,
porcelana delicada – dama que passeia com dois cachorrinhos, postos a guardar os livros prediletos,
gestos de veludo, o riso dos irmãos à mesa do almoço,
retendo por um instante – e sempre – o que jamais me deixa,
brilho de pedra preciosa aninhada no coração.


Lenita Estrela de Sá - livro “Antídoto”, poemas, Editora 7Letras, 2017.

Mercado Central














Cheiro de cravo que de menina trago
meu pai me leva pela mão entre vozes e verduras
a paisagem profusa e pulsante do mercado me
encanta
brinco com as formas que vejo sob camapus
maduros: fruto e tecido,
joia imaginária que reincorporo na boca
- delicioso exercício de existir,
atávica lembrança de enfeitar-se.
Meu pai comprando maxixe, sapotis e carambolas.
Travessa, surpreendo-me na banca de temperos
onde as, mulheres se confundem com alimento.
Eu entro elas - me ouvindo.


Lenita Estrela de Sá

Sobrado da Rua do Trapiche

Meninos soltando pipas - Cândido Portinari


















Nem o musgo é capaz de trespassar
a angústia
que os cômodos vazios exalam
ou mesmo as roupas penduradas
na sacada
disputando luz com insetos
e lamúrias.
Ali o tempo se encanta
em fermentar o ócio
de tudo o que se move e ainda pulsa.
A vida só espera um pouco
nos meninos que soltam papagaios.


Lenita Estrela de Sá

O Tempo seca o Amor

O tempo seca a beleza, seca o amor, seca as palavras. Deixa tudo solto, leve, desunido para sempre como as areias nas águas. O tempo seca a ...

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