Mostrando postagens com marcador Poeta Piauense. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Poeta Piauense. Mostrar todas as postagens

A moenda












Na remansosa paz da rústica fazenda,
À luz quente do sol e à fria luz do luar,
Vive, como a expiar uma culpa tremenda,
O engenho de madeira a gemer e a chorar,

Ringe e range, rouquenha, a rígida moenda;
E ringindo e rangendo, a cana a triturar
parece que tem alma, adivinha e desvenda
A ruina, a dor, o mal que vai, talvez, causar…

Movida pelos bois tardos e sonolentos
Geme, como a exprimir, em doridos lamentos,
Que as desgraças por vir, sabe-as todas de cor.

Ai! Dos teus tristes ais! Ai! Moenda arrependida!
— Álcool! para esquecer os tormentos da vida
E cavar, sabe Deus, um tormento maior!

Da Costa e Silva, em “Zodíaco”, 1917.

Carpe diem


















Que faço deste dia, que me adora?
Pega-lo pela cauda, antes da hora
Vermelha de furtar-se ao meu festim?
Ou colocá-lo em música, em palavra,


Ou grava-lo na pedra, que o sol lavra?
Força é guarda-lo em mim, que um dia assim
Tremenda noite deixa se ela ao leito
Da noite precedente o leva, feito


Escravo dessa fêmea a quem fugira
Por mim, por minha voz e minha lira.
(Mas já se sombras vejo que se cobre


Tão surdo ao sonho de ficar – tão nobre.
Já nele a luz da lua – a morte – mora,
De traição foi feito: vai-se embora.)



Mário Faustino, 
em "Poesia completa e traduzida". (Organização, introdução e notas de Benedito Nunes). São Paulo: Editora Max Limonad, 1985.

O nome do mistério
















Eu poderia dizer
Que agora é tarde e o nosso amor é outro
Que o nosso tempo agora
é o fim de tudo
e só nos resta alguns papéis
para rasgar
eu poderia dizer que agora é tarde e o nosso amor é morto
que o nosso amor agora é o fim do mundo
e não sobra nada mais
para esperar
eu poderia dizer mas eu não digo
o nome do mistério, o nome disso
e vou por mim aqui silencifrado
de volta ao lar, meu bem querendo ir


Torquato Neto, em "Os últimos dias de paupéria". [Organização Wally Salomão e Ana Maria Silva de Araújo Duarte]. São Paulo: Max Limonad, 1982. (musicado por Geraldo Azevedo).

Nessun Maggior Dolore...















Tenho-te sempre a imagem na memória,
Nestes dias de dúvida em que vivo
Com a minha grande dor sem lenitivo,
Meu amor, minha vida, minha glória.


É uma visão nostálgica e ilusória,
Que me ficou, talvez, como exclusivo
E vão conforto ao curso fugitivo
Desta existência incerta e transitória.


Seja, embora, uma sombra imaginária,
A mêmore ilusão que é o meu enlevo,
Já se me vai tornando necessária,


Pois que te pondo em místico relevo,
Evoca, em minha vida solitária,
A efêmera ventura que te devo.


Da Costa e Silva

Vou Agora Sonhar...















A minha vida, sempre inquieta como o mar,
É de renúncia, sacrifício e desencanto:
Enquanto vão e vêm as ondas do meu pranto,
Estende-se o horizonte, além do meu olhar...
Na imensidade azul fico a cismar, enquanto,
A refletir o céu, vai-se acalmando o mar...
Acalma-se também minha dor, por encanto:
— Já cansei de sofrer! Vou agora sonhar...


Da Costa e Silva

Velut Umbra

















Vivo sempre a seguir-te em toda a parte
A todo o tempo, a todo o transe e em tudo;
E tanto mais me esforço em procurar-te
Mais de te conseguir me desiludo.


Busca-te o meu ideal num sonho de arte;
E sem te ouvir, nem te falar, contudo
Eu não me canso em vão de desejar-te,
Cego para te ver e, ao ver-te, mudo...


Vendo-te ou não, o meu olhar divaga
Sempre a seguir-te; e as vezes que te vejo,
Como que te diluis, visão pressaga!


Quando te encontro, num fortuito ensejo,
Sinto que és uma sombra que se apaga
Ao sol crepuscular do meu desejo.


Da Costa e Silva

As Horas





















As Horas cismam no ar parado:
— Passado.
As Horas bailam no ar fremente:
— Presente.

As Horas sonham no ar obscuro:
— Futuro.


Da Costa e Silva

Sob o Ritmo do Tempo















A areia, grão a grão, escoa na ampulheta...
Sob o ritmo do tempo, em silêncio medito:
Ai de quem, a sofrer, passou pelo planeta
Sem realizar o seu instante de infinito!


A água cai, gota a gota, a oscilar na clepsidra...
Atento ao seu rumor, penso inquieto e tristonho:
Ai de quem não arou com pranto a terra anidra,
Para atirar ao mundo a semente de um sonho!


A sombra leve azula a pedra do quadrante...
Cismo, absorto, a seguir-lhe o tardo movimento:
Ai de quem, a viver como uma sombra errante,
Não roçou pelo céu a asa de um pensamento!


Da Costa e Silva

O Homem que Volta





















Quando fui, com o meu sonho ingênuo e lindo,
Pelas estradas amplas, luminosas,
Vinham as Graças desfolhando rosas.
Ergui os olhos para os céus, sorrindo,
A beleza da vida pressentindo...


Quando vim, com o meu tédio miserando,
Pelos estreitos e áridos caminhos,
Iam as Parcas espalhando espinhos...


Baixei o olhos para o chão, chorando,
E fiquei para sempre meditando...


Da Costa e Silva

Verônica

















O sangue que ilumina o pensamento,
Em forma eterna a vida reproduz;
Assim, a imagem do meu pensamento
Se não em sangue, há de gravar-se em luz.


Então, vereis ao vivo refletida,
Entre uma auréola de esplendor cristão,
A sombra interior da minha vida
A projetar-se do meu coração...


Sob esse aspecto místico e profundo,
Terei a transparência do cristal,
Ampliando a visão múltipla do mundo
Para uma vida sobrenatural.


E o que tenho de humano e de divino
Ante olhares profanos hei de expor,
Nas ascensões e quedas do destino,
Que foram meu Calvário e meu Tabor.


Mas, cauteloso, o espírito tristonho,
Ocultando seu trágico avatar
Sob a névoa translúcida do sonho,
Há de ser como a espuma sobre o mar.


E a luz, que vibra em iris no meu canto,
Revelará, talvez, sem eu querer,
Aos vossos olhos lúcidos de espanto
A beleza intangível do meu ser.


Da Costa e Silva

Velha interrogação















Passa a vida? Continua…
Porque o tempo é que flutua,
como um rio de veludo,
sobre todos, sobre tudo...


À sua imagem sonhamos:
de onde vimos? aonde vamos?


E o destino indiferente
vai impedindo a torrente...


Passa a vida? Continua...
Com o tempo quem passa é a gente.
Mas, vida, se nós passamos,


de onde vimos? aonde vamos?


Da Costa e Silva

O Tempo seca o Amor

O tempo seca a beleza, seca o amor, seca as palavras. Deixa tudo solto, leve, desunido para sempre como as areias nas águas. O tempo seca a ...

Nos últimos 30 dias.