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XXXIX















Sinto-me assim
fronteiriça e dual
ora
explodindo como olho d’água
correndo como rio caudaloso
de brava correnteza
ora
exausta como água de remanso
despida de tempo
inerte
à míngua do canto
e da dança dos ventos


XXXIX


Me siento así
al borde y dual
ora
explotando en luz como un espejo de agua
corriendo como río en su caudal
corriente valiente
ora
agotado como remanso
despojado de tiempo
inerte
en la esquina de la esquina
y la danza de los vientos


Wanda Monteiro

Tem textos publicados em revistas literárias como Acrobata, Gueto, InComunidade, Senhoras Obscenas, Mallamargens, Literatura Br. Autora das obras O Beijo da Chuva (Amazônia, 2008), ANVERSO (Amazônia, 2011), Duas Mulheres Entardecendo (parceria com Maria Helena Lattini, Tempo, 2015), Aquatempo (Literacidade, 2016) e A Liturgia do Tempo e outros silêncios (Patuá, 2019). Aquatempo - Aquatiempo lançado em fevereiro(2020) pela Editora Patuá, com tradução para espanhol por Bianca Lourenço Guzzo.

Somos um frágil equilíbrio de vida – líquida e efêmera – ancorada no olho do sol.













há quem diga do corpo – de sua concretude
mas o que há é liquidez
mais de mil partículas – mil núcleos – mil esferas
fluindo nesse rio andante
na disputa e na defensa
pelas mesmas artérias – mesmos veios
numa permanente luta de vida e morte

há uma força que lhes une e desune
lhes funde e aparta

o rio esse denso corpo que mergulha em si
pesado demais para chover
precipitar-se no ar

o corpo esse rio de sal e sangue
lento de correr que mal sossega – mal respira
ilhado de vento e vazio

há quem diga do corpo
de sua agudeza em mirar
mas o que há é miragem
centrífuga ilusão de ser
a refluir no verbo

o corpo é esse rio
cuja nascente e foz
disputam a força
o espaço
o tempo e as profundidades
no centro de um coração

Wanda Monteiro - A LITURGIA DO TEMPO e outros silêncios, 2019, Editora Patuá.

Bandeira Branca


















Depois que a noite se aquieta sobre a terra
a cidade fica de pés molhados
andando descalça pelo mundo
...................................................................
e a lua e as estrelas
lá no céu
ficam embaralhadas sobre o asfalto
pondo arte e poesia no tapete do triste vagabundo.

Benedicto Monteiro - Bandeira Branca  - aos 18 anos de idade

Um deus foragido olha do cimo da destruição















Um círio infindo de punhos acesos
coturnos raivosos em marcha
um rebanho desembesta em fúria e a esmo
uma revoada de abutres sobre um campo
coalhado de ossos e vísceras
À margem esquerda
olhos atônitos nem sequer esboçam mínima reação
nem sequer vicejam a luta
e sucumbem à opressão
toda vociferação converte-se em murmúrio
imprecação e silêncio
No abrasar das horas
o tempo reflui num leito de açoites
No pouso do medo
toda réstia de luz coabita o breu
o medo cai como pedra no fundo de cada dia
e a desesperança cintila à boca de cada noite
O poder no cio
fecha as janelas de um passado
fincado em irremovível paisagem
— o poder tem os olhos de uma noite sem fim
A violência é a ordem do dia — o veneno
que entorpece e contagia
abre fendas radioativas onde corre a larva do ódio
Algo inominável deflagra a combustão das horas
interdita o tempo
o tempo partido
o país partido
a cidade partida
o humano partido ao meio
Toda gente se extingue para além das casas
e dos muros
a sobrevida pulsa em ilhas dentro de ilhas
Sob a mira do fuzil
a carne negra
a carne índia
a cor vermelha
A descrença é a ferida aberta
o cancro incurável
A segregação é a flor sanguínea de verbo coagulado
e toda esperança desfolha aos ventos
que chicoteiam brancas bandeiras
A intolerância forja a gangrena
seus raios de dor são o traçado
que revela a geometria do terror
No átrio espelhado de ocasos
a besta de esporas e chifres faz a festa
dança — gargalha
e vomita sobre a clareira côncava
que engole os cânones dos justos
Nesse reino escuro o frio arde
e queima ao estio do sol
vergam-se os girassóis
e gárgulas saem de seus buracos de sangue
para lamber as feridas da paz
Mulheres e homens que teimam
reinar em si a íntima liberdade de pensar
decretam o autoexílio
todas ilhadas
todos ilhados
ilhados e tristes
terrivelmente tristes
Um deus foragido olha do cimo da destruição
contempla o ataúde da fé
e chora sobre as ruínas do humano
em seus gestos finais de autofagia
a sobrehumana desordem de sentidos precede o golpe fatal:
a morte da liberdade.

Wanda Monteiro

Obras publicadas: O beijo da chuva (Editora Amazônia, 2008), Anverso (Editora Amazônia, 2011), Duas mulheres entardecendo (em parceria com a escritora Maria Helena Latinni, Editora Tempo, 2015), Aquatempo (Editora Literacidade, 2016), A liturgia do tempo e outros silêncios (Editora Patuá, 2019).





















era um voo sem prumo
de malogrado fôlego
a asa carecia de força e fúria
para vencer a brandura do vento
alçar o azul

a queda foi a tecelã do fim das horas
tecidas no vão do chão partido

e veio o silêncio feito de abismo
o homem sem plumas
só queria subir ao cume
para ver o mar

Wanda Monteiro - A LITURGIA DO TEMPO e outros silêncios
publicado pela editora Patuá

Poema das distâncias















Não posso fixar distâncias
nesta época em que as distâncias desapareceram.

Não posso compreender distâncias
nesta época em que nos grandes caminhos
Os homens se perderam...

Mas
no dia em que a canoa do caboclo deixar de navegar
muita coisa na Amazônia vai mudar...

Porque a canoa conduz tão bem
uma noiva matuta p’ra cidade

Conduz
às vezes
dois namorados sozinhos pelo rio
que mais parece a poesia tristonha da Amazônia



Benedicto Monteiro















ao esquecimento
o tempo não resiste

a memoria guarda o presente
na mesma tessitura do passado

reter o presente
dele ter imediata consciência
uma impossibilidade humana

viver é um tudo de lembrança e espera


Wanda Monteiro -A LITURGIA DO TEMPO e outros silêncios, 2019, Editora Patuá.

Incompletude


















humano
atomizado
na arritmia dos passos
perdeu o compasso
desaprendeu a pausa
de demorar-Se
no tudo do todo
no todo de si

não mais sabe contemplar
nem de outros seres sentir a valia
comisera-se em ser
efêmera
miragem

o tempo lhe escapa na incompletude


Wanda Monteiro - A liturgia do tempo e outros silêncios, Editora Patuá

Do Poente














a onda quebra a hora
acorda o tempo
insone ao tédio
revolve da areia o vazio
traz o sal ao olho do sol
mata a sede de um árido dia
que amanheceu nu
desse tudo de céu
a dança vítrea da onda
lambe o suor das horas

no dorso do chão
o poente doura o instante
no tempo da luz

e pensar que somos transitórios
um frágil equilíbrio
de vida líquida
efêmera
ancorada no olho sol
a morrer todo dia
em cada poente


Wanda Monteiro

INSATISFAÇÃO















Trago no corpo
o frio desfibrador das endemias,
a lama das terras alagadas
e o soturno roncar do Amazonas
quebrando e inundando
verdes matarias!

Trago nos olhos
o horizonte verde, sempre verde,
da terra imensa e misteriosa,
a realidade triste, sempre triste,
dos homens que vivem
nas lendas maravilhosas.
Desses homens que lutam
a guerra dos fortes;
brigando com a água
e com a ferocidade
das forças desconhecidas.
Trago nos olhos
a monotonia das paisagens

a poesia triste das paragens,
a triste poesia que brota da terra,
transformando em lenda a miséria da vida!

Trago na alma
os quadros trágicos e possantes
que guardam ainda a cor
e a impetuosidade
das crianças remotas.

Trago na alma
a impressão marcada
da gente infeliz e desgraçada
que já enfrentou todas as derrotas!

Tudo isto eu trago
no meu coração

Benedicto Monteiro


















olho para Ti
tão vago
tão ávido
tão ninho de respostas
não sei o que pousar sobre o teu
angustiante branco
o quê
queres de mim
?
o quê
desse mundo
devo salvar
para te ofertar como resposta
?


Wanda Monteiro

















às vezes
o tempo me toma de assalto
parte-me ao meio
deixa-me fronteiriça

olhos no passado
olhos no futuro
no ínfimo instante do espanto

o
presente
carregado
. de

i
m
P
o
s
s
i
b
i
l
i
d
a
d
e
s

Wanda Monteiro






















a calma se esvai pelas horas
as horas crescem no escuro
vem sofreguidão das pálpebras
que se fecham e se abrem

o cansaço dos músculos que se recusam a repousar
os demônios acordam assombrando o silêncio
vem o instinto aflorado de erguer e soerguer a fé
na oração dita e redita como mantra
o abrir a janela e a cuíra de olhar para o céu
em busca de respostas nas estrelas

a lua me espreita
assim como Eu
insone

o desejo do sonho se contorce na insônia

mas como posso dormir se a noite sempre me encharca de dúvidas.


Wanda Monteiro

Pátria



















pátria nossa 
assombro e orfandade 
chão anoitecido de 
soçobros 
o tempo acautelado de 
correr a senda de estradas 
sem luz 
na sombra 
há sempre um interlúdio 
de paralisia 

entre 
haveres 
de 
escombros 
decreta-se o desatino 
nós desvãos da inércia 
ante à remissão 
dos idos tombados 
sob à turba dos muros 
de ocasos adoecidos 
de limo 
de limbo 
de lama 
na letargia de dias 
não amanhecidos 

espera-se pelo tempo 
só ele diz dos prenúncios 
só ele derruba barragens 
para como o rio 
correr 

espera-se 

até que na andança da 
espera 
o chão possa recolher o 
adubo das sombras 
render-se à cópula das 
manhãs 

haverá de aurorescer 
ouvidos se abrirão 
largamente 
para a escuta de sementes 
se abrindo 
em busca de uma 
possibilidade 
feita de sol 


Wanda Monteiro

De Mim




















Devo convencer-me a viver entre os demais –
mesmo sofrendo da aguda sensação
de sentir-me como um peixe atônito
flutuando sobre uma multidão
que se forma e deforma.
Mas não pretendo renunciar aos atributos do humano. E, tampouco,
deixar de comover-me com o mundo,
enxergando nos invisíveis cotidianos
o íntimo absurdo da impermanência
do tudo que há em mim
e do tudo que há nos demais.


Wanda Monteiro















Meu começo mesmo
assim de memória
é quando criança bem pequena
segurando na mão pai
caminhando sobre o trapiche
...
lembro dos olhos do pai
lembro dos olhos do rio
...
e da voz do pai
_ Filha! Não larga a mão do pai senão tu podes cair no rio

Ahh...
Mas tudo que eu queria era
c
a
i
r

no
rio


Wanda Monteiro

















No espelho
uma janela

dentro da janela
o tempo
preso

como presa é a imagem
que no áspero silêncio
me olha
e desconserta

pétrea imagem
que não me reconhece.


Wanda Monteiro

















a história me toma de assalto
o tempo me parte ao meio

deixa-me fronteiriça

olhos no passado
olhos no futuro

no ínfimo instante do espanto
o
presente
carregado
de
impossibilidades


Wanda Monteiro
Christophe_Kiciak-Nimbypolis-1
















os “civilizados”
soterrados pelo ego de sua suposta superioridade
acabam transformando-se em fósseis da insanidade

sujeitos extintos
...
meros entes reduzidos ao pó pelo tempo..

o mesmo tempo
que os guardará nas entranhas da terra
reclusos em seu ventre
e sob sua majestosa grandeza

....

civilização
?
mero
equívoco semântico


Wanda Monteiro

Aquatempo





















I
teus olhos miram invisível rio
nele
palavras que nunca disseste
nadam como peixes cegos
nadam famintas
morrendo à míngua
de tua coragem de dizê-las
no leito
um Eu nunca dito
naufraga
reverberando seus assombros
e soçobros


II
teus olhos
minguados
padecem do estio dessa tarde
o sol bebe
gota à gota
teu rio
quando a noite chegar
deita-te no chão de tua noite
colhe a chuva de teu sereno
quem sabe
tu possas chorar sobre tua madrugada
a carne orvalhada
dói menos
dói menos
menos


III
silenciosa
a memória corre
lambe as margens de teus olhos
que choram água
e sal
no rio de teus olhos
um leito seca de saudade



IV
turva água a tua
que de teus olhos
escorre nua
molha a pedra
face tua
abre-lhe fenda
funda
escura
fina janela para teu subterrâneo cais
abismo de teus Ais


V
no ventre de tua rosa tardia
nasce um tempo
de espera solidão silêncio
um tempo de plantar
no pouco de tua terra
uma semente de rio
espera pelo rio nascer
ainda que nessa espera
um frio minuano atravesse-Te
tomando-Te o corpo na angústia
que tu possas não germinar
nem crescer
nem florescer
no canto
de uma derradeira estação.


Wanda Monteiro

O Tempo seca o Amor

O tempo seca a beleza, seca o amor, seca as palavras. Deixa tudo solto, leve, desunido para sempre como as areias nas águas. O tempo seca a ...

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