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Nova Profissão de Fé























O poeta já não escreve.
Sua escrita
por mais breve
ele digita.

Hoje se arrima
na frase elétrica
muito mais prática:
Adeus à rima.
Adeus à métrica.
Adeus gramática.

Como declara
ser bom poeta
na tela clara,
já não procura
a via reta
na selva escura

E de atalaia
se pôe à espreita
de uma palavra que lhe caia
na rede branca que ele deita.

Ronda noturna essa
caçada
que nunca cessa.
No fim da madrugada
ainda acessa.

Da tela branca
noite afora
por fim arranca
a sua aurora.

No fim cansado
de tanta busca
com dissabor
toca o teclado
de forma brusca.

Nada se salva
de seu labor
de poeta.
Pois nada salva
na tela alva
que ele deleta.


Ivo Barroso

Pão nosso
























Amanhã nosso pão terá pedra — e o comeremos.
Ao parti-lo, amanhã, nosso pão será de pedra
e o comeremos.
Ao se partir em dois, o pão que a nossa fome espera,
será pedra,
e o comeremos.

Pois aceitar é o que estamos
fazendo neste dia, pois aceitar
é o que viemos fazendo nos dias
que antecederam mais um, que é este dia;
pois aceitar é o que vamos fazendo sem sentir
como quem come a pedra em vez do pão
pensando o pão.
Partindo-o, partiremos um seixo apenas.
Um seixo, afinal, que em vez de atirá-lo
— comeremos.


Ivo Barroso

O Tempo seca o Amor

O tempo seca a beleza, seca o amor, seca as palavras. Deixa tudo solto, leve, desunido para sempre como as areias nas águas. O tempo seca a ...

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