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Num Leque



Escrevo o teu nome neste leque, Isabel,
e vejo-te correndo pela faixa de pano
que se abre e se fecha e se abre, correndo
sobre a areia do verso, atrás de borboletas
e balões coloridos. Pelo parque, de velas

a fingirem de saia, sais, fugindo do leve
respirar do momento, para o que não se apressa
e se opõe ao que é onda, sendo concha, e ao vento,
e pára as seriemas na paisagem do leque
com que abano a paisagem em que corres, alegre.

Só espero o que tenho: o teu olhar menino,
duplicando ao contrário a cor da lua cheia,
na mocinha a cobrir com os balões do abanico,
que te ponho nas mãos, a surpresa do riso
e a cantar de amarelo e de azul o vermelho.

Como flores no chão, no chão da ventarola,
entre as moitas miúdas onde escondo coelhos,
espalho aquelas letras em que vai meu secreto
legado de sonho e carne, esplendor e mistério
— um a com mel, um m, um o sonhado e um r —

nesta caligrafia em que escrevo Isabel.


Alberto da Costa e Silva

Soneto a Vera


















Estavas sempre aqui, nesta paisagem.
E nela permaneces, neste assombro
do tempo que só é o que já fomos,
um céu parado sobre o mar do instante. 



Vives subitamente em despedida,
calma de sonhos, simples visitante
daquilo que te cerca e do que fica
imóvel no que é breve, pouco e humano. 


As regatas ao sol vêm da penumbra
onde abria as janelas. E de então,
vou ao campo de trevo, à tua espera. 


O que passa persiste no que tenho:
a roupa no estendal, o muro, os pombos,
tudo é eterno quando nós o vemos. 



Alberto da Costa e Silva, in 'A Roupa no Estendal, o Muro, as Pombas'

A Mão no Berço

"O Berço" (1872) Berthe Morisot



























Há um outro menino
que ainda não corre nos jardins
mas já tem o meu nome.

Ele também passará
muitas vezes a vau
o milagre e o mistério

e o sonho trocará
por febre e movimento,
embora possa, um dia,

sentado na calçada,
reter também nas mãos
a vida, pequenina,

fraca, incerta, fugaz,
erva tímida, finda
tão logo a toca e a vê,

hora, brisa, avezinha
a bicar o capim,
entre ramagem e vôo.

Ele também sofrerá
o frio de ser sozinho
e puxará sobre o corpo

até ao queixo o amor.
E sentirá na pele
o que o sangue lhe reza,

a forma de morrer,
sendo linguagem e beijo.
Por agora, ele apenas

respira: o meu menino
nada sabe do bibe,
da cesta de merenda,

nem dos barcos embriagados e outros versos que ficam,
adolescentes, nos passos que damos para dentro
de nós, de nossas veias, nem das mãos que retocam
o amor na memória
— a moça recostada, entre sorriso e pranto,
no corrimão, a descer a escada das manhãs,
a mulher,
com seu coque grisalho, a amparar-se no alísio
cheio de laranjas,
ele e ela,
e tudo o que canta
nesta forma de abraço que é um roçar de dedos.

Não sabe do entardecer, o meu menino. Sabe
do orvalho? Entende a cantilena das flores nos jarros e nos pastos?
Ou apenas espera que a vida o vista de lembranças e lágrimas
e do esplendor do sol após a chuva
e lhe diga ao ouvido todas as palavras da carne que o sonho não sacia,
mas que são asas e um bater de pulso que lembra a eternidade.


— Nada tenho a te dar. Empobrecido,
junto ao teu berço, peço ao inimigo
que te conceda o que me deu, o abrigo
do que em mim ninguém viu (ou viu somente

o que era sombra, búzio surdo e adeus):
o amplo espaço da pétala, o umbral
aberto para um céu sem morte — enfim,
a chegada à partida, o estar aqui

a olhar o mundo, tendo o mundo e o tempo
a florir sob as pálpebras, sentindo
o deserto estrelado, o mel vertido

no que foi um destino sem certeza
outra que a de ser homem. Peço. E vejo
tua infância no colo da beleza.


Alberto da Costa e Silva

A despedida da morte




















Falo de mim porque bem sei que a vida
lava o meu rosto com o suor dos outros,
que também sou, pois sou tudo o que posto


ao meu redor se cala, e é pedra, ou, água,
cicia apenas —O teu tempo é a trava
que te impede de ter a calma clara


do chão de lajes que o sol recobre,
este esperar por tudo que não corre,
nem pára e nem se apressa, e é só estado,


e nem sequer murmura:—O que te trazem
é o riso e o lamento, o ser amado
e o roçar cada dia a tua morte,


que não repõe em ti o, sem passado,
ficar no teu escuro, pois herdaste
e legas um sussurro, um som de passos,


uma sombra, um olhar sobre a paisagem,
memória, cálcio, húmus, eis que o mundo
nada rejeita, sendo pobre e triste
no esplendor que nos dá. A madrugada.


Alberto da Costa e Silva

Soneto

















Cerâmica e tear: as mãos trabalham
e constroem o amor num fim de tarde,
como jarro de rústico gargalo
ou fino pano arcaico. Sobre o barro


põem desenhos mais jovens de suaves
moças dançando e restos de paisagens
da infância e da montanha: perfis núbios
sobre o vermelho poente desse jarro.


E a substância mais tímida do sonho,
nas mãos do artesão, faz de seu pranto
e cismas, riso e ardor, tecido raro


em que se borda uma novilha, bela
como o beijo em setembro, em que se fez
o amor com outro fio e um outro barro.


Alberto da Costa e Silva

Soneto





















Voltada sobre o pano, a moça borda
a infância e seus jardins, os dias claros,
as despedidas na ponte dos poentes,
a magia da noite, os seus cavalos.


Como evitar a morte, a mão que borda,
ao sereno lençol que, nu, aguarda
a forma de seu sonho, humilde, indaga,
senão amando e se tornando amada?


O fio compõe a lenda, sobre o linho,
do capim trescalante e o rio da tarde
que banhava a colina e os dois amantes.


Mas, por saber no amor eternizado
o que a morte vencer não pode mais,
a mão desfaz os pontos já bordados.


Alberto da Costa e Silva

Soneto





















Os potros cavalgados por meninos
fazem os luares e as manhãs, e morrem
nas luas novas e, ao morrer, persistem
na solidão do sonho de quem dorme,


e na vigília enferma, e nos sorrisos
das moças nos coretos, e nos galos,
nos êxtases das balsas, nas origens
de teu corpo de vinha, linho e ave.


Longas crinas arrastam pela areia
e banham pedra e rio de girassóis
que os cascos pisam e as madonas colhem.


E, se agonizam com a lua, exaustos,
não se apagam das cousas, continuam
como a infância no amor e o amor na morte.


Alberto da Costa e Silva

Flumen, Fluminis





















Ouçamos o fluir deste curso de rio
entre velhos muros imóveis de fadiga
não apenas meras lajes limitadas e cinzentas
mas pedras tristes e calmas
entre as quais escorre o límpido silêncio
da água que flui sobre a nudez
pura da morte
em nenhuma outra fonte, o cansaço
de ser manhã quando a noite se debruça
sobre nós, sofreremos
pois tão estranhos seremos ao murmúrio
de suas águas veladas
à música que nada anuncia a não ser primaveras
como agora sôfregos, nos reclinamos
sobre o líquido móvel deste rio que leva
para o mar distante e irrevelado
estas formas maduras e tranqüilas
este sopro perfeito
daquilo que foi apenas o fugidio e precário pó.


Alberto da Costa e Silva

O Parque

















O tempo a fonte estanca e o torso apaga.
Este de formas puras de pedra, quase carne,
despojado de ternura e de tristeza, imóvel
entre as sombras das árvores e o silêncio,
o fluir das águas frescas da fonte tão próxima
e a doce transfiguração da noite em morte.


Nas antigas lajes os passos dos meninos
gravados no passado remoto e, bem marcado,
o trotar dos burricos que flores carregavam.


As águas correm e, contudo, permanecem.
Quantas palavras não guardaram as cousas!
Quantos gestos nas pedras se perderam?


Os cântaros jamais recolherão as águas
pelas outras fontes abandonadas como
esquecemos um pouco de nós por toda parte.


Este rumor tão distante e tão próximo
que as nossas mãos acariciam, cuidadosas,
é o mesmo fluir do chafariz antigo,


o mesmo soluço nos recantos de sombra
do inviolável jardim, a mesma chegada
infantil das bicicletas nos domingos brancos.


A fonte, embora o tempo exista, existe
ainda e, embora seca, o seu rumor ouvimos,
tão distinto, tão perfeito, tão diverso.


Antes que o tempo estanque a vida, antes
que o torso antigo, calmo e puro como
as lajes de um templo lavadas de prece,


seja apenas um bloco desfigurado e efêmero
de pedra, apagado pela chuva e pela brisa,
sem sopro algum de inocência ou pensamento,


acenderemos a memória e, na calma das luzes,
descobriremos um homem sobre a fonte reclinado,
o punho sustentando uma feia cabeça.


Alberto da Costa e Silva

Soneto 1





















Vou de mim como o céu, sozinho, à frente
das nuvens e das aves. Sopro e arrasto,
sou um chão sem verdor, assim achado
no mundo, por pequeno e por exausto.


Pelas tardes, reponho o sossegado
estar no espaço de entre a carne e a alma,
como, a chorar, se vê terrestre e amado
quem trança a solidão, a voz e o abraço.


Vou de mim como um céu cingido à terra
dos bichos e das arvores, completo,
fome e fastio sobre um sonho aberto,


pois, do mundo não mais metades cegas,
amantes, riso e dor em vão se apartam
e o que sonho se faz no que vem perto.



Alberto da Costa e Silva

O Tempo seca o Amor

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