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O Silêncio do Poeta
Não existe mais uma palavra para ser dita
Mais uma frase bombástica para você proferir
Os sonhos se diluíram na TEMPESTADE
Tua alma perdeu a vaidade
a tua língua sagacidade
HÁ TEMPOS tinha visto
o TEMPO PERDIDO desta geração
Cantou... encantou esta LEGIÃO URBANA
Procurou... perdeu-se, pois O EQUILÍBRIO estava DISTANTE
Perguntou QUE PAÍS É ESTE?
Falou de ÍNDIOS, amor e solidão
Falou de MENINOS E MENINAS
Falou de PAIS E FILHOS
Nunca mentiu se achando o dono da PERFEIÇÃO
Apenas queria mostrar o FAROESTE CABOCLO que é este Brasil
Dançou a DANÇA neste MUNDO TÃO COMPLICADO
Esperou ser assassinado pelo silêncio da poesia
Tua morte me dói, como dói...
Pois para mim e para muitos
AINDA ERA CEDO
para você partir.
Henrique Rodrigues Soares - 12/10/1996
Homenagem ao Poeta Renato Russo 27/03/1960 - 11/10/1996.
Foto de Ricardo Siqueira.
Necessidades da Vida
Acabou-se o brilho, perdeu-se o encanto
Na perda do teu sorriso descrevi meu pranto
Fiquei como a flor murcha sem perfume
Do meu sarcasmo construi meu estrume
em que me deitei e vi nascer
raízes e bichos
Te falei um dia
da pureza das crianças
Te falei um dia
da pureza dos teus olhos
Mas não falei da chuva fina
que suaviza nosso ódio
Não falei da dor de ver um amigo destruído
Não falei do desespero e da dor do fim
Ao tentar a morte precoce, me encontrei
Longe de ti minhas lágrimas chorei
E nas minhas lágrimas afundei meu corpo
Preciso te falar... Preciso te falar...
Dos sonhos de criança, da brisa marítima,
da serenidade celeste, da força da terra
e da inquietação humana
Preciso te falar...
Dos espíritos que andam pelos corpos
indo e vindo sem fiscalização
Preciso te falar...
Dos Casmurros, Paulos, Estácios,
Fernandos, Betos que há dentro dos homens
Preciso te falar...
Da insegurança que faz tremer o corpo
e estrangula nossa fé
Preciso me soltar das correntes de ar
Preciso me soltar do sangue e da carne
Preciso me soltar do tempo
Preciso me soltar dos fantasmas
que habitam na casa vazia
Eu quero o oxigênio puro
que saí da tua boca
Quero tua palavra precisa
que coagula meu sangue
Quero minha rosa cândida
do meu jardim perdido.
Henrique Rodrigues Soares - Romaria Lírica
Canção de Saudade
Já beijei tantas bocas
nenhuma como a tua
Já amei tantos corpos
nenhum como a lua
Olhei para teus olhos
calculei os quilates
dos dentes de ouro
que deixam saudades
Já chorei tantas pernas,
tantos braços, tantos sorrisos
De alegria superna
perdi os meus cisos
Nada foi, nada será
como o teu brilho
perdido no passado
Como teu orgulho
engavetado
no armário
Olhei para tua boca
Vi teu coração pulsando
como um mendigo
esmola aguardando
Senti tua carne
tão quente, tão terna
Esperei com ansiedade
pela chegada da primavera
Nada foi, nada será
como teu andar absoluto
como teu corpo... Um vulto
que se perderá
num passado rasgado
num adeus tão ingênuo
que meu corpo calará
Já mudos e sem esperanças
Me inundarei de bonança
Esperando meu corpo... Deteriorizar.
Henrique Rodrigues Soares - Romaria Lírica
A morte da poesia
A poesia em mim morreu
Não há tempo para a poesia
A poesia naufragou no mar da civilização
A obstenidade da dor engoliu-a em grandes pedaços
A poesia foi sufocada pelas ruas apertadas
os bolsos estão vazios
e os corações apertados
Lá na estante empoeirados
Jaz à poesia
Foi boa amiga para quem a leu
Foi uma companheira solidária
para aqueles que a conheceram
E para seu poeta
foi a mais sincera de todas amantes.
Henrique Rodrigues Soares - Romaria Lírica
Cidade Grande
O menino branco sobe o morro pra comprar preto
o preto desce o morro pra vender branco
os bandidos enquadram na parede
vigiam seus domínios
A policia foge em retirada das terras do latrocínio
As praças, as ruínas, os mendigos pedem esmolas
As igrejas falam de um Deus rico e pede-se em sacolas
Nossos jovens criam um novo alfabeto
nas paredes de prédio e monumentos
criam uma nova selva
da morte tiram seu divertimento
os tempos medievais voltaram
falta apenas a lealdade e a honra
Menina, nesta boca que masca chicretes
muitas coisas podes fazer
muitas coisas podes falar
tua glória e tua perdição
Menina nua, mostra teu corpo para quem?
mostre tua face escondida...
as faces do rubor de tua inocência
As ruas rugem teu destino
as ruas são teus deuses
O teu corpo fascina
os escravos
do desejo carnal.
Henrique Rodrigues Soares - Romaria Lírica
A dominação
Não sei chorar
A obscuridão do medo me tortura
As lágrimas me faltam
não tenho como fugir
toda hora vejo o replay do que passou
Olhares estremecidos... Olhos que estremecem
Tudo gravado nas minhas retinas
Este filme tem me assustado todos os dias
Mas nunca como hoje
Uma matéria morta pode matar
Uma viva pode morrer em instantes.
Henrique Rodrigues Soares - Romaria Lírica
Os Navegantes
Quando meu corpo
encontrar teu corpo
numa noite dispersa
em que embebedo do teu perfume
Meu barco arrebentará
na volúpia do mar
que é teu corpo
Então afogarei nos teus olhos
e deixarei unir-me ao mar
Vejo gestos voluntários
de uma guerra ocupacional
Sentimentos ferozes
como tempestade
Avassala e destrói
Corpos ocupam o mesmo lugar
um ponto no universo
No quarto
um mar nunca dantes navegado
é descoberto
E os navegantes sobrevivem ao temporal
Os céus param de chorar
A tempestade bebe tranquilizantes
o vento dorme, acalma-se o mar
Dois corpos navegam
na calmaria de um quadrado.
Henrique Rodrigues Soares - Romaria Lírica
A pureza dos teus óculos
caminhos tortuosos da mente
a verdade cruelmente fere e abate
preso pela sua imaturidade
somos como um caroço de abacate
imaturidade com inutilidade
falta de amor com crueldade
na floresta dos sentimentos
tudo se mistura
os ruídos da máquina selvagem
devoram a pureza das criancinhas
não há mais plantas vegetais
sim! apenas plantas industriais
não há mais animais
apenas cibernéticos orientais
não há mais pureza em teus olhos
há apenas um corrimento de remelas grudando tuas pálpebras.
Henrique Rodrigues Soares - Romaria Lírica
Dependência
Olho a morena que passa
olhos vidrados na vidraça
vendo o seu caminhar
Cheia de toque, cheia de graça
levando amor, levando desgraça
no seu caminhar
Meus olhos de caça
esperam a presa
como uma armadilha
como quem se disfarça
Minhas mãos ficam nervosas
minhas mãos querem te tocar
me escondo nas palavras
me dissolvo frente ao teu olhar
Vivo cheio de rimas na boca
para te envolver, te enamorar
mas, apenas fico calado
olhando você passar.
Henrique Rodrigues Soares - Romaria Lírica
Se eu pudesse
Ah! Se eu pudesse
acariciar teu rosto
num silêncio absorto
num perder de consciência
Ah! Se eu pudesse
penetrar dentro dos teus olhos
Vê teus horizontes
dominar teus desejos
Ah! Se eu pudesse
beijar tua boca
escondido dos olhos alheios
E numa bruma suave
congelar teus seios
Ah! Se eu pudesse
Ah! Se eu pudesse
controlar meus anseios
colocando uns arreios
para os acalmar
Ah! Se eu pudesse
Se eu pudesse
Arrancaria teus olhos
e tornaria meus diamantes.
Henrique Rodrigues Soares - Romaria Lírica
Passagem de Ano
O ano passou e com ele
as dores, as flores,
as alegrias, as trevas,
as loucuras das ervas,
o pó que aniquila
e o pó aniquilado
nos moveis, nos retratos antigos
que assistiram, que resistiram
tantos anos passados
O ano passou e teus olhos desejaram...
imploraram... choraram por milagres e sonhos
E você solitário sofreu com tua própria decomposição
No teu corpo feneceram flores de desejo;
flores angustiadas, medrosas e rancorosas
O ano novo nasce e você conforta no futuro
O ano novo nasce cheio de rugas e pelos brancos
Mas, há um novo amor no teu coração
Há um novo sangue em tuas veias
e novas estradas levam até novos horizontes
E nas florestas densas, as matas virgens suspiram por teus pés
Os tempos mudaram
A chuva molhou a terra
No céu relâmpagos anunciam novas guerras
Despi-me das feras e das derrotas do passado
Os rancores e temores se escondem no fundo do baú
Os teus olhos brilham como a estrela que pediste o desejo.
Acenda uma vela para teu corpo
Há apenas uma trilha para uma vida inteira
Fume teu cigarro... os sonhos se queimam...
de concretos viram fumaça,
como tua vida que passa
Espere, pelo ano que vem.
Henrique Rodrigues Soares - Romaria Lírica
Prisioneiro Imunológico
Posso sentir a morte em meus olhos
Meus olhos profundos
Que tudo vê e acha imundo
Mas, a morte não está em meus olhos
Está em todo meu corpo
em minha respiração vaga e indecisa
na minha alma escrava
do medo e da dor
Posso ver nuvens negras em minha cabeça
Negras como a noite
Noite louca, noite horrenda
Prisioneiro da loucura
tenho a morte no meu sangue
E a cada batimento cardíaco
centimetros meus vão morrendo
Minhas defesas não existem
Minha vontade não existe
Minha razão não existe
Meu amor, meu ódio e minha arrogância
não existe mais
Não existe vida
Não existe nada
Apenas um vácuo
Apenas um corpo.
Henrique Rodrigues Soares - Romaria Lírica
Canibais Urbanos
Qual é o teu vício?
Qual é a tua necessidade?
O teu sonho fictício
sinal de insanidade
A noite te cobre
com seu silêncio negro
Calando tuas ilusões
e teu desespero
A noite sacia tua sede
e seca teus olhos esperançosos
O vento te ronda
o vento te assusta
com sua voz soprana
numa noite sem palavras
Dominado pela fumaça
da tua liberdade
Você traga em doses violentas
Ela flui por todo teu corpo
e te leva a uma porta fora da realidade
na obscuridão
do êxtase
que é desafiar o medo
O medo do quê?
Este medo que assombra teus olhos
e faz suar todo teu corpo
Ele é tua humanidade.
Henrique Rodrigues Soares - Romaria Lírica
Velhice
As horas passam rapidamente
Não posso controlar
Meus cabelos brancos
Meu rosto enrugado
Minha mente aguardando o sinal verde
Pois o caminho está aberto
Desde que abri a porta.
Henrique Rodrigues Soares - Romaria Lírica
Clandestino
A noite consome
os homens
com sua fome infinita
A noite liquida
os homens
com sua líquida morbidez
A noite nos cega
tortura e enlouquece
A noite nos embebeda
com sua volúpia
e nos cobre
com seu manto
Nos excita
com seu mistério
revestido de cortinas
Nos domina
com sua limitação
nos amarra
a um caís... uma prisão
Sua beleza é superficial
O seu encanto é carnal
Tão carnal quanto a dor
Um mar de ilusões
me afogou
Um mar de decepções
me cobriu
e nas suas sombras
escondi o meu rosto
A noite chegou, devargazinho,
espalhando-se por todos os cantos
numa procissão de mortos e feridos
A noite absorveu toda luz
que havia naquele lugar
A noite como um monstro horrendo e hediondo
A noite numa brisa nos adormece e petrifica
Clandestino
num barco que não é meu
num mar que não é meu
num tempo que não é meu
Naveguei numa transpiração suave
Estou calmo, minha respiração tranquila
Meus olhos virgens de choro
agora transbordam sem parar
Bebo minhas lágrimas
Nado em minhas lágrimas
Este soro vem me curar
do mal que floresce no meu coração
Cavalgo numa estrela, pura, solitária
Minha boca está faminta, está sedenta
Meus ouvidos imploram por este alimento
Quero silêncio!
Quero sussurros da noite
Quero ouvir
Preciso ouvir!
De alguém, algum ser
neste planeta egoísta e solitário
-Eu te amo!
Preciso, muito ouvir estas palavras
nem que quase imperceptíveis
Peço pela última vez
-Eu te amo!
Clandestino louco dos mares
Abordei uma terra que não é minha
Não pedi para entrar
Entrei!... Entrei por sua densa floresta
com meu poder de fogo
Existe um vulcão dentro de mim
pedindo socorro e carinho
sua fúria, sua força está morrendo
apagado pelo medo dos teus olhos
pela rejeição dos teus braços
Esta noite tem me despido
As dúvida me consumido
Milhões de pessoas me rodeiam
com seus desejos
E suas mãos me apalpam
com seus espinhos
Olho os fantasmas
Olho os cavaleiros da noite
que reinam no absurdo das estrelas
em seu eterno caminhar.
Henrique Rodrigues Soares - Romaria Lírica
Poema de final de livro
Na vida medito
não me acho
Na vida, maldito
me calo
Como queria
minha vida um riacho
que passa ligeiro
como quem dar passos largos
sem olhar para trás
Não me contenho
não me detenho
pois não posso me aguentar
sou demais para mim mesmo
Na vida recito
um poema sem fado
se quase sempre repito
não sou inédito no que faço
sem preço, sem recibos
sem palavras, sem recados
Não tenho mais nada para falar
Por isso vou me calar
por instantes.
Henrique Rodrigues Soares - Relicário das Dores
Pesadelo
Pobre, homem do campo
com seus sonhos de campo
Sonhos verdes que pastam suavemente no seu interior
Esperançosos em preservar a terra
no seu estado puro virginal
sem lhe tirar uma gota
gota de sangue clorofilado
E o homem urbano
assassino que destrói
sangrando a terra que não é sua
para construir seus sonhos urbanos de grandeza e poder
Sonhos doces
que com o tempo tornaram-se amargos pesadelos.
Henrique Rodrigues Soares - Relicário das Dores
Viciado em injetáveis
Ah! nessas veias este sangue quente
Tu com este líquido frio ardente
A teu cérebro parece florescente
Mas depois, são só sobras, deprimentes
Mentiroso, diz que isto é semente
da dor, que teu corpo, tua alma domina
Por isso busca esta dor que te fascina
Pobre... louco... híbrido... doente
Prazer rápido que ilude
no brilho seco de suas agulhas
Procura liberdade em pequenas fugas
da própria prisão que criaste
Leproso, escravo da seringa
Tua heroína te destrói
Num conforto que perturba
Num veneno que te amotina.
Henrique Rodrigues Soares - Relicário das Dores
Gigante de Mármore
A solidão fria
adormece como o mármore
as luzinhas das casinhas, lá longe
tinam nos meus olhos
sinto necessidade de ficar sozinho
sinto necessidade de alguém que fique comigo
mas, me deixe sozinho
Olho para o outro lado
e vejo uma escuridão infinita
queria apalpá-la mas não posso
queria nadar, voar e me compenetrar nela
mas não posso.
Então olho para mim
um pequeno ponto perdido
sem ninguém calado
sinto o coração se libertar
como quem quer paz
fugindo do meu corpo
saindo pela pele, pela boca.
Olho de volta para as luzinhas
elas continuam acesas, paradas
o meu corpo está tremulo
sinto me sozinho
sem horizontes e sem verdades
sozinho!
Eu e a noite fria
de mármore.
Henrique Rodrigues Soares - Relicário das Dores
O Amor através dos Tempos
Rostos perdidos no passado
cartas misteriosas
que de tão lidas
não escondem mais segredo algum.
Cadê aquele cachorrinho?
aquele cachorrinho que destruía calçados
pulava, corria de língua de fora
agora, ele quase não existe
está velho e cansado
sem aquele brilho mimado
hoje, ele se arrasta pelo chão.
Não caça mais a vida como ela é
pura e selvagem
cheia de espinhos e folhagens
pois tem medo de se machucar.
O cachorrinho está tão triste
ele não corre, não pula mais
não abana o rabo
cadê o seu olhar feliz?
não existe mais
seus pêlos estão caindo
e da sua auto estima apenas sobrou
um resto de ossos
e um pedido de compaixão.
Henrique Rodrigues Soares - Relicário das Dores
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