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Versos para Minas
O que me fica de Minas,
mais que o rumo das inconfidências,
são as ossadas azuis distantes de seus montes,
indecifráveis dinossauros férreos
incrustados na vastidão da alma.
Mais que os versos para Bárbara,
o que me encanta de Minas
é um certo ar de inverno impregnando as sombras,
um cheiro de esterco em pastos orvalhados
onde cavalos , insetos e vacas
reinam domínios de silêncios gigantes;
é a beleza modesta, porém eterna,
de suas claras morenas meninas,
os seios de desejos castos arfando;
são restos senhoris dos cafés dos campos,
casas com trepadeiras rubras e limões-cravo
despencando,
um certo abandono, um descomunal cansaço,
uma quase lembrança do que já vivido
e os incansáveis, gentis, negros braços,
o leite pródigo dos úberes,
seiva inteira deste universo Minas transverberado.
Mais que a transparência obscura do nome,
para além de toda forma, o que me fica de Minas
é matiz, é perfume.
Fernando Campanella
Ao Sal
Nega-me tua alma –
Esta minha alma mesma
Que me furtas -
E é o degredo irremediável
que, em troca, me concedes.
Nega – me tua chama
Que tremula no delírio dos deuses,
Teu anjo, que ressona no silêncio dos lagos,
Nega-me, nega-me tua espuma
Que regurgita no sonho das aves
(eu sou o teu infante pássaro)
E é sem minhas fontes que me deixas,
Sem meu ar extasiado.
Nega-me teu mar, tua tempestade,
O sonho e a fantasia,
E me deixas a seco ,ao sal amargo
De cada dia.
Nega-me teu olhos e já triste não me enxergo
Que a felicidade, embora utopia das sombras,
É também certa luz incidente
Que só de teu olhar
meus olhos como bênção recebem.
Fernando Campanella
Esta minha alma mesma
Que me furtas -
E é o degredo irremediável
que, em troca, me concedes.
Nega – me tua chama
Que tremula no delírio dos deuses,
Teu anjo, que ressona no silêncio dos lagos,
Nega-me, nega-me tua espuma
Que regurgita no sonho das aves
(eu sou o teu infante pássaro)
E é sem minhas fontes que me deixas,
Sem meu ar extasiado.
Nega-me teu mar, tua tempestade,
O sonho e a fantasia,
E me deixas a seco ,ao sal amargo
De cada dia.
Nega-me teu olhos e já triste não me enxergo
Que a felicidade, embora utopia das sombras,
É também certa luz incidente
Que só de teu olhar
meus olhos como bênção recebem.
Fernando Campanella
Entre Polos
às vezes vaga, às vezes lume,
às vezes arco que constela de cores
as vias tortuosas de nossa estrada.
Se enfrentei os mastodontes da noite
e minha armadura, ainda assim,
revestiu-se de nada, eu me rendo:
esta luz que oscila entre nossos polos,
ora magra, ora vasta, é ganho, é graça -
desenha-me um azul no glaciar da alma
e me retrata.
Fernando Campanella
Alheio
tenho o perfil de um caracol:
o dia bate à minha porta
e não desperto —
ando catando poesia
na sombra
ando cismando o universo
em espiral.
Fernando Campanella
Páscoa
Porque para ressuscitar um Deus
não se prescrevem datas
(o divino brota
quando se rompe couraças)
e porque os símbolos, os mitos
são do humano a ceia mais farta,
peço-vos licença, Senhor de minha estória,
para à vossa mesa sentar-me,
com minha nudez
e toda fome de minha alma
inglória.
Fernando Campanella - Páscoa 2017.
Bálsamo
O amor é triste — proclamariam minhas viúvas.
mas disse o filósofo: a alegria corteja
a mais profunda eternidade.
Todas as vertentes consideradas,
abandono o vale
onde as sombras compõem a enormidade.
Os grilos agora tilintam, e a luz da lua
impregna as árvores de um bálsamo —
Meu amor, se possível, me aguarda,
retorno a ti, clara a trilha
que agora a meus olhos se abre.
Fernando Campanella
mas disse o filósofo: a alegria corteja
a mais profunda eternidade.
Todas as vertentes consideradas,
abandono o vale
onde as sombras compõem a enormidade.
Os grilos agora tilintam, e a luz da lua
impregna as árvores de um bálsamo —
Meu amor, se possível, me aguarda,
retorno a ti, clara a trilha
que agora a meus olhos se abre.
Fernando Campanella
A CAPELLA
Limbo
...E nenhum rumor de água a latejar na pedra seca...
T.S. Eliot, “A Terra Desolada”,
tradução de Ivan Junqueira
T.S. Eliot, “A Terra Desolada”,
tradução de Ivan Junqueira
E quando dei por mim
vi um molusco
arrastando nos ombros
o tempo da casa.
Vi um monge rondando em ócio
— o hábito
a chama
e a mariposa alucinada
folhas caducas
espectros
(os ecos, os ecos)
a roda tocada à memória.
Vi a turbulência das moscas
a lava
e a concha sonhando a asa.
Quando cheguei ao limbo de mim
e o vento seguiu
senti um abandono
uma distância sem-fim.
Pesei o silêncio
e o mundo certo
que perdi —
vi a pedra chamando a água.
Fernando Campanella
vi um molusco
arrastando nos ombros
o tempo da casa.
Vi um monge rondando em ócio
— o hábito
a chama
e a mariposa alucinada
folhas caducas
espectros
(os ecos, os ecos)
a roda tocada à memória.
Vi a turbulência das moscas
a lava
e a concha sonhando a asa.
Quando cheguei ao limbo de mim
e o vento seguiu
senti um abandono
uma distância sem-fim.
Pesei o silêncio
e o mundo certo
que perdi —
vi a pedra chamando a água.
Fernando Campanella
Ventos do Leste
![]() |
| Fotografia do Poeta Fernando Campanella |
Com folhas de salgueiros
é como posso pagar
a vossa cortesia.
Matsuo Bashô
Esta viração de outono
me traz versos de Bashô.
Revolve memórias da terra —
aromas, pastos, rastelos —
traz também o viés da vida —
lume e cinza,
pétala ressequida.
Esta aragem nos salgueiros do leste
tocou poetas longínquos
e hoje ressoa minhas hastes —
já não sou o grande pária do mundo,
ave dispersa na serrania.
Este sopro, de mais longe,
de outros píncaros e ares,
traduz-se agora em coisas minhas,
em paisagens do quintal
(e com folhas de laranjeiras
minha vez então a pagar
por tão primaz cortesia).
Fernando Campanella
Poemas Antigos
Já viste a alma presa
no cálice de tua mão?
Não validemos tal dor,
no cômputo total
ela não vai além de uma gota,
um suspiro de orvalho
sacrificado ao ar.
Ao universo nada importa,
tudo traz o selo da perfeição.
Não choro -
mas como queria de vós,
Natureza, uma tal isenção.
Fernando Campanella 1986.
no cálice de tua mão?
Não validemos tal dor,
no cômputo total
ela não vai além de uma gota,
um suspiro de orvalho
sacrificado ao ar.
Ao universo nada importa,
tudo traz o selo da perfeição.
Não choro -
mas como queria de vós,
Natureza, uma tal isenção.
Fernando Campanella 1986.
Estação
As pontes de ferro desativadas
evocam refugos e traças,
são naves caducas, ex-órbitas,
são marias que viraram fumaça.
A velha ordem se rompe,
parabólicas acolhem a pax americana.
A estação da memória resiste
mas já é Minas fossilizando.
Fernando Campanella
evocam refugos e traças,
são naves caducas, ex-órbitas,
são marias que viraram fumaça.
A velha ordem se rompe,
parabólicas acolhem a pax americana.
A estação da memória resiste
mas já é Minas fossilizando.
Fernando Campanella
Casa à entrada do lago
Esta luz por sobre a velha casa
transpôs o dia, desmancha a tarde.
Como aves de longo alcance
meus olhos requerem distância
e percorrem a longa, aérea
trilha deixada.
Não me lembrem agora que caminhos
apenas conduzem a caminhos
que labirintos sempre me trazem
de volta, ao mesmo lugar - mais nada.
Fernando Campanella
transpôs o dia, desmancha a tarde.
Como aves de longo alcance
meus olhos requerem distância
e percorrem a longa, aérea
trilha deixada.
Não me lembrem agora que caminhos
apenas conduzem a caminhos
que labirintos sempre me trazem
de volta, ao mesmo lugar - mais nada.
Fernando Campanella
Dança das Horas
O velho pêndulo da sala
tiquetaqueia a vida
para além do mecanismo das horas.
Traz levezas, alegres algaravias -
asas de borboletas - entremeadas a ruídos
das mais secas, dolorosas matracas.
Quando nascemos, são júbilos e sinos,
ao partirmos - ranger de ossos -
são traques - catracas -
quem sabe, enfim, o silêncio -
a tua voz que desincorpora -
mas um vulto sempre lhe dá cordas
e o velho pêndulo da sala não para.
Fernando Campanella
tiquetaqueia a vida
para além do mecanismo das horas.
Traz levezas, alegres algaravias -
asas de borboletas - entremeadas a ruídos
das mais secas, dolorosas matracas.
Quando nascemos, são júbilos e sinos,
ao partirmos - ranger de ossos -
são traques - catracas -
quem sabe, enfim, o silêncio -
a tua voz que desincorpora -
mas um vulto sempre lhe dá cordas
e o velho pêndulo da sala não para.
Fernando Campanella
SINE QUA NON
Ah, este instante na tarde
quando o sol bate seu ponto
e se despede
de um afugentar as sombras,
de mais um dia de claro ofício.
Pago pelos préstimos
ao operário sine qua non
com a moeda de meus sonhos,
um certo dourar de meus sentidos.
Logo à noite vou desejar
que no outro dia retorne,
que nunca me deixe sem seu brilho.
Posso então, a alma estendida, ressonar:
a luz, eu sei, em seu percurso também
me busca, e sempre haverá de me achar.
Fernando Campanella
http://fernandocampanella.blogspot.com.br/
quando o sol bate seu ponto
e se despede
de um afugentar as sombras,
de mais um dia de claro ofício.
Pago pelos préstimos
ao operário sine qua non
com a moeda de meus sonhos,
um certo dourar de meus sentidos.
Logo à noite vou desejar
que no outro dia retorne,
que nunca me deixe sem seu brilho.
Posso então, a alma estendida, ressonar:
a luz, eu sei, em seu percurso também
me busca, e sempre haverá de me achar.
Fernando Campanella
http://fernandocampanella.blogspot.com.br/
Trajetória
Não proclames tuas palavras
quando a força de uma divina mão
te arrebatar para um centro
invisível e imóvel.
Como o mistério nos campos
de uma semente vingada
serás lançado a uma solidão imensa
mas não a profanes com impropérios
de teus conhecidos fantasmas.
Pode já não ser a angústia,
pode já não ser o tédio
se a alma assume, atemporal, a trajetória.
Fernando Campanella
Sopra-me
Sopra-me
que ao de onde procedo
haverei com levezas
de, então, retornar.
Com o calor de teu sopro,
de teu insuflar,
meus versos,
como pelúcias e pétalas,
no regaço das tardes,
no jardim das estrelas,
haverão assim de cair,
haverão de pousar.
Fernando Campanella
My Quintessencial Blue
(...quisera enxergar meus versos
com vistas de outro,
sem os olhos tacanhos de dentro...)
vou arrancar os sapatos
e ouvir
meu blue quintessenciado
despir-me de humores
e escapar, asas em som,
pelos portais dos sentidos
pelos desvãos do telhado
- não me lembrem então do mundo
este já me entope os poros
a cada esquina
e satura a pele feito pólipo -
vou desfazer as bagagens
armar a noite em blue
e ser assim alteridade
a mim imune
um corpo estranho
um vagalume
Fernando Campanella
Milagre
Eu caminhava entre árvores
E espremia nos dedos
O mudo cipreste, roçando
um acridoce olfato
Ao silêncio de meu nariz.
Ali entre cúmplices imagens,
Onde o vento me sabe
E o sem- fundo do lago me diz,
No frescor do mais contido sumo,
Cheirei a poesia, como do nada,
E caminhei sobre as águas,
O naufrágio por um triz.
Fernando Campanella
A uma Flor
Hoje é dia de fotos.
Oh, delicada, universal vaidade,
seria impressão ou recolhes as pétalas
ocultando alguma ruga que mal desponta?
Mas não me respondas.
Alguns segredos melhor se guardam
no faz-de-conta.
Fernando Campanella
Propósito
Mais que anseio, ou libelo,
Seja a poesia devoção ,
O que se escuta e se resguarda,
O que das impossibilidades ainda resvala
E dos deuses tem a unção.
Mais que o que me transcende,
O ser ideal,
Seja o poema um desvelo,
O ajuste de um espelho
Um melhor se mirar.
E assim, pespontando meu tecido do mundo,
Ora me apanhe , ora me escape, o verso,
Sem nunca, irrevogavelmente, me deixar.
Ouvido das palavras duras e mansas,
E boca de acordes sem fim,
Seja o poema o saldo
Dos frutos remidos, e ruins,
e mar que me alivia
enquanto vazando de mim.
Meu reino, tenham os versos
O valor dos cânticos de êxtases
E de miséria ,em louvor...
Riso e pena, transubstanciação,
Sombra em luz, e toda intrínseca cor.
Mais que milagre ou dom,
Traga a poesia , malgrado artifício,
O natural ‘per se’,
O fundamento dos orbes,
leveza abismal,
O sonido,
o sal......
Fernando Campanella
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