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círculo















atrás das roupas
inquietas no varal

a asa
na mudez do pouso

círculo da
luz
suspensa

na água
trêmula do balde



Carlos Orfeu, nasceu em Queimados, Rio de Janeiro. Publicou Invisíveis cotidianos em 2017 pela editora paraense Literacidade. Nervura em 2019, pela editora Patuá.

E relançou Invisíveis cotidianos em 2020 pela editora Patuá.













negro no branco
branco no negro

veias
poros
suor
iguais

na morte
os mesmos
pés
juntos

não há raça
há humanos
na
teia
do
tempo
presente


Carlos Orfeu

AR PÉTREO


















carregar na carne
esse ar pétreo

inventar no pulmão
outra saída

desobedecer o labirinto
dos músculos

coexistir no fôlego
que erige movimento

contra a asfixia
sussurrando o gatilho
no escuro dos tímpanos


Carlos Orfeu






















a cadeira
abraço de madeira
sem saber estala
não o peso de meu corpo
nem movimento brusco

a cadeira é um signo
infinito de leituras
em sua anatomia dura

estala
como grito
por dentro
como osso
explode um poema
no suor das juntas

Carlos Orfeu






















a jarra em seu vítreo ventre
guarda a voz azul do voo

o sussurro de água da nuvem
a intangível sede
dos intermináveis corpos

guarda no seu oco ar

o eco das cicatrizes de antanho
e o desesperado
solfejo do passarinho

Carlos Orfeu















azulejos brancos
cardumes de passos
anoitecidos

no canto da varanda
por onde formigas
brotam como fachos negros

e canibalizam o feto da chuva
na casca da cigarra morta

Carlos Orfeu













debaixo
da pia
um par
de mágoas
envelhecem

ratos visitam
a caligrafia das estradas
grafadas na lamúria das solas

no
ato
da
fome

como se fossem restos
de estômagos nos pratos
roem cada parte sentimental do couro

devoram
o tempo
e os endereços
sem o esteio do retorno
da classe social
das
ordinárias
botas
tristes


Carlos Orfeu















diante da nudez do horizonte
estranha-se

desdobra-se no reflexo
disforme do mundo
em repouso na angústia

diante da nudez do horizonte
chega-se ao subterrâneo de si

olhando-se
mais
a fundo

reencontra o nada
de ser


Carlos Orfeu















corto cebolas
com olhos ensopados
de águas esquecidas

a casa
há muito calou-se
sem motivo de banquete

corto cebolas
para domar o silêncio

a lâmina ceifando a vida em seiva

sinto-me como elas
talo, colo, pele
casca
raiz,
catafilos

como se partindo-me
em abas desamparáveis

Carlos Orfeu
Sebastian Eriksson.
























de dentro da nossa
voz degolada
o animal salta e ruge

dorso acústico
rubro rizoma
movente no azulejo

o animal-logos
vaga no ar
leva em si

o céu de nossa boca
e a esfera tátil
de nossa palavra

Carlos Orfeu

















sede é como um rugido de rio
encontrando a margem da garganta

sede é peixe uterino
no oceano do corpo

visto por fora
despido no espelho
visível deserto de assombros

sede é a possibilidade de romper
o naufrágio e a adejar na superfície



Carlos Orfeu - Poema do livro (In)visíveis Cotidianos

















escrevo em seus olhos
pai

o gesto contínuo que nos acende
sob o tempo e potência

pai em seu dorso
aprendi o princípio do voo

o ato de abrir os braços
desatados do medo

e abraçar com latência
o deslimite

Carlos Orfeu












o dia come o escuro
estende solferinos
lençóis acesos

trinos na mesa
o sol no pão
simetria clara

fora do núcleo
habitual o azul
deita no terno

de musgos do
muro: fogo
em demasia

Carlos Orfeu














abre-se o velho
olho da casa

rangendo tempo
nos alicerces

violados pelo vento
gatuno que salta

para dentro do espaço
dissipando

os ossos ante-
passados


Carlos Orfeu






















há no dito
um não-dito
oculto

duplicando-se
no outro
e avizinhando-o

nessa teia
infinita da linguagem
que em nós é nada

espaço
tempo
fluxo

tece-se entre
a dupla boca
e o labirinto do discurso

o animal estrutural
feito de saliva
e desejo



Carlos Orfeu













o perfume escapa
das flores despedaçadas

o azul acorda a asa do pássaro
colheres na espiral do café
dialogam com as mãos

músculos e nervos
se levantam como plantas
no incansável não-sentido do dia


Carlos Orfeu












colher na poeira dos ossos
a estrela

escutar a matéria
de sua centelha

dissolvê-la em escrita
e princípio


Carlos Orfeu
















a vida é susto
desprevenido

uma hora exibe
todos os dentes solares


outra hora com os mesmos
dentes expostos

carcome até o mínimo
pedaço de murmúrio

da fotografia
entre objetos inutilizáveis

Carlos Orfeu

o sol: fruto que se come
com os dentes dos olhos

guardadas as sementes
seculares

o sol amadurece
o escuro


Carlos Orfeu

Fotografia: Jerry Uelsmann


















o mar lateja murmúrios
depósitos de séculos
sereias de harpas poluídas
garrafas pet de escamas

espermas bóiam filhos invisíveis

um fêmur de cavalo parece leve
no ritmo azul martelando na areia
como fosse um cão de escumas e algas

o mar morde artelhos e o mergulho do atleta
e ainda sofre o abuso das gaivotas
bicando seu dorso selvagem


Carlos Orfeu

O Tempo seca o Amor

O tempo seca a beleza, seca o amor, seca as palavras. Deixa tudo solto, leve, desunido para sempre como as areias nas águas. O tempo seca a ...

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