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Necessidades da Vida
Acabou-se o brilho, perdeu-se o encanto
Na perda do teu sorriso descrevi meu pranto
Fiquei como a flor murcha sem perfume
Do meu sarcasmo construi meu estrume
em que me deitei e vi nascer
raízes e bichos
Te falei um dia
da pureza das crianças
Te falei um dia
da pureza dos teus olhos
Mas não falei da chuva fina
que suaviza nosso ódio
Não falei da dor de ver um amigo destruído
Não falei do desespero e da dor do fim
Ao tentar a morte precoce, me encontrei
Longe de ti minhas lágrimas chorei
E nas minhas lágrimas afundei meu corpo
Preciso te falar... Preciso te falar...
Dos sonhos de criança, da brisa marítima,
da serenidade celeste, da força da terra
e da inquietação humana
Preciso te falar...
Dos espíritos que andam pelos corpos
indo e vindo sem fiscalização
Preciso te falar...
Dos Casmurros, Paulos, Estácios,
Fernandos, Betos que há dentro dos homens
Preciso te falar...
Da insegurança que faz tremer o corpo
e estrangula nossa fé
Preciso me soltar das correntes de ar
Preciso me soltar do sangue e da carne
Preciso me soltar do tempo
Preciso me soltar dos fantasmas
que habitam na casa vazia
Eu quero o oxigênio puro
que saí da tua boca
Quero tua palavra precisa
que coagula meu sangue
Quero minha rosa cândida
do meu jardim perdido.
Henrique Rodrigues Soares - Romaria Lírica
A última dose do cálice negro
Não preciso dizer
minha cara
palavras caras
palavras raras
vem ao teu ouvido
nada é permitido
tudo é permissivo
o pecado inibido
num sorriso comprometido
com o mal
te assusta o silêncio
da madrugada
a tua boca
a tua alma ressecada
ressentida
pela saliva
que escorre na boca dos cães
o teu corpo uma folha
sem árvore, sem raízes
não há mais escolhas
ou diretrizes
para seguir.
Henrique Rodrigues Soares - Romaria Lírica
Canção de Saudade
Já beijei tantas bocas
nenhuma como a tua
Já amei tantos corpos
nenhum como a lua
Olhei para teus olhos
calculei os quilates
dos dentes de ouro
que deixam saudades
Já chorei tantas pernas,
tantos braços, tantos sorrisos
De alegria superna
perdi os meus cisos
Nada foi, nada será
como o teu brilho
perdido no passado
Como teu orgulho
engavetado
no armário
Olhei para tua boca
Vi teu coração pulsando
como um mendigo
esmola aguardando
Senti tua carne
tão quente, tão terna
Esperei com ansiedade
pela chegada da primavera
Nada foi, nada será
como teu andar absoluto
como teu corpo... Um vulto
que se perderá
num passado rasgado
num adeus tão ingênuo
que meu corpo calará
Já mudos e sem esperanças
Me inundarei de bonança
Esperando meu corpo... Deteriorizar.
Henrique Rodrigues Soares - Romaria Lírica
A morte da poesia
A poesia em mim morreu
Não há tempo para a poesia
A poesia naufragou no mar da civilização
A obstenidade da dor engoliu-a em grandes pedaços
A poesia foi sufocada pelas ruas apertadas
os bolsos estão vazios
e os corações apertados
Lá na estante empoeirados
Jaz à poesia
Foi boa amiga para quem a leu
Foi uma companheira solidária
para aqueles que a conheceram
E para seu poeta
foi a mais sincera de todas amantes.
Henrique Rodrigues Soares - Romaria Lírica
Cidade Grande
O menino branco sobe o morro pra comprar preto
o preto desce o morro pra vender branco
os bandidos enquadram na parede
vigiam seus domínios
A policia foge em retirada das terras do latrocínio
As praças, as ruínas, os mendigos pedem esmolas
As igrejas falam de um Deus rico e pede-se em sacolas
Nossos jovens criam um novo alfabeto
nas paredes de prédio e monumentos
criam uma nova selva
da morte tiram seu divertimento
os tempos medievais voltaram
falta apenas a lealdade e a honra
Menina, nesta boca que masca chicretes
muitas coisas podes fazer
muitas coisas podes falar
tua glória e tua perdição
Menina nua, mostra teu corpo para quem?
mostre tua face escondida...
as faces do rubor de tua inocência
As ruas rugem teu destino
as ruas são teus deuses
O teu corpo fascina
os escravos
do desejo carnal.
Henrique Rodrigues Soares - Romaria Lírica
A dominação
Não sei chorar
A obscuridão do medo me tortura
As lágrimas me faltam
não tenho como fugir
toda hora vejo o replay do que passou
Olhares estremecidos... Olhos que estremecem
Tudo gravado nas minhas retinas
Este filme tem me assustado todos os dias
Mas nunca como hoje
Uma matéria morta pode matar
Uma viva pode morrer em instantes.
Henrique Rodrigues Soares - Romaria Lírica
Poema quase morto
As necessidades de alguns
se resumem a um corpo
Os sonhos de alguns
se resumem a um copo
Meu refúgio são lágrimas
que meus olhos deitam
no tempo e no vento
Minha poesia confusa
não quer dizer nada
O meu verso é estrume
que fede e que apodrece
ao ficar exposto
Não misture com a terra
os seus sonhos
Na terra tudo é rápido
se nasce, cresce, brota
envelhece até fenecer
Instantes de vida
são perdidos
são assassinados
E a morte este ser suave
nos rodeia
nos apalpa
com sua pele.
Henrique Rodrigues Soares - Romaria Lírica
Os Navegantes
Quando meu corpo
encontrar teu corpo
numa noite dispersa
em que embebedo do teu perfume
Meu barco arrebentará
na volúpia do mar
que é teu corpo
Então afogarei nos teus olhos
e deixarei unir-me ao mar
Vejo gestos voluntários
de uma guerra ocupacional
Sentimentos ferozes
como tempestade
Avassala e destrói
Corpos ocupam o mesmo lugar
um ponto no universo
No quarto
um mar nunca dantes navegado
é descoberto
E os navegantes sobrevivem ao temporal
Os céus param de chorar
A tempestade bebe tranquilizantes
o vento dorme, acalma-se o mar
Dois corpos navegam
na calmaria de um quadrado.
Henrique Rodrigues Soares - Romaria Lírica
A pureza dos teus óculos
caminhos tortuosos da mente
a verdade cruelmente fere e abate
preso pela sua imaturidade
somos como um caroço de abacate
imaturidade com inutilidade
falta de amor com crueldade
na floresta dos sentimentos
tudo se mistura
os ruídos da máquina selvagem
devoram a pureza das criancinhas
não há mais plantas vegetais
sim! apenas plantas industriais
não há mais animais
apenas cibernéticos orientais
não há mais pureza em teus olhos
há apenas um corrimento de remelas grudando tuas pálpebras.
Henrique Rodrigues Soares - Romaria Lírica
A felina
Seus olhos brincam com a vida
O teu charme desabrocha pelos cantos
O teu riso é suave
malicioso e inocente
Palavras saem da tua boca como mel
Desta boca saborosa
que esconde encantos que até você desconhece
jeito de gatinha manhosa
felina que luta como leoa pelo que quer
nos teus olhos a certeza da vitória
esconde fragilidade aos inimigos.
Henrique Rodrigues Soares - Romaria Lírica
O ventre grávido
os cavalos conversam no campo
as pessoas pastam suavemente sua preguiça
os cavalos galopam rumo ao desconhecido
os homens morrem na aniquilação
os cavalos se respeitam
os homens se mordem e se comem
os homens tem medo
estou grávido!
estou com medo!
do meu verme se perder
na floresta cibernética
e tornar-se homem
estou com medo!
estou a ponto de dar a luz
mais um verme rastejador
que se diz supremo
e incomparável aos outros animais.
Henrique Rodrigues Soares - Romaria Lírica
Dependência
Olho a morena que passa
olhos vidrados na vidraça
vendo o seu caminhar
Cheia de toque, cheia de graça
levando amor, levando desgraça
no seu caminhar
Meus olhos de caça
esperam a presa
como uma armadilha
como quem se disfarça
Minhas mãos ficam nervosas
minhas mãos querem te tocar
me escondo nas palavras
me dissolvo frente ao teu olhar
Vivo cheio de rimas na boca
para te envolver, te enamorar
mas, apenas fico calado
olhando você passar.
Henrique Rodrigues Soares - Romaria Lírica
Engarrafado para momentos especiais
Amanheço,... anoiteço dias, sem teu corpo perto de mim
Não sinto teu cheiro de nicotina e bebida passada
Minha alma agoniza tua incompreensão sobre nossos destinos
A tua relutância cheia de mimos
sobre o óbvio que se esconde nas lentes da paixão
A originalidade envelhecera e anda de muletas
A sociedade empobrecera nos deixando na sarjeta
Cadê nossas flores? Cadê nossos perfumes de boutiques?
Quem fechou nossas adegas?
Precisamos de todo o álcool possível.
Henrique Rodrigues Soares - Romaria Lírica
Marca da Pantera
Te desejo pantera negra
noite de carnes vermelhas
te dilatarei, te espalharei no matadouro
Lençóis brancos mancham
teu sangue escorre no vento
as marcas de tuas garras ficaram em mim.
Henrique Rodrigues Soares - Romaria Lírica
Verão
Quantas dúvidas neste mar, eu tenho
Quantos desejos neste mar, eu ponho
Oh, mar! Me deixe sentir a espuma dos teus lábios
Me acaricie, me adormeça no teu colo
Os dias estão secos e sem oxigênio
Venha me dar teu sangue e tua fúria
Liberte meus anseios e temores
e deixe-os perder na vastidão do teu finito corpo
Minhas mãos desconsoladas gritam
por tua pele serena e doce
Lágrimas brotam de meu corpo
para alimentar minha flor de verão.
Henrique Rodrigues Soares - Romaria Lírica
Copo de Vinho
Mulheres, mulheres
rostos irreais
espíritos inquietos
são corpos viciados
pelo desejo do domínio
dominam os homens
no que eles são mais fracos
a sede que seca
suas bocas
Afundo meus olhos
na cama
este oceano frio
solido
minha vida passa
e vejo perfumes entrando e saindo
sem direção
sons diluem no orgasmo
Mulheres, mulheres
são vinho no copo
para me embebedar
como um bom Dionísio
as bebo como sangue para vida.
Henrique Rodrigues Soares - Romaria Lírica
Ao meu filho adotivo
Anteontem, me fecundei
Ontem, engravidei
Hoje, te pari
Forte e robusto como a terra
Num vento repentino que ninguém espera
Nasceu meu filho como um fênix
no primeiro raio d'aurora
Não fui teu pai, nem tua mãe
Mas pude sentir as dores do teu parto
Num dia que tornou noite num mar tempestuoso
Do néctar dos deuses você nasceu
como um anjo cândido de olhinhos negros e assustados
Meu filho! este teu sorriso
é água que refresca minha boca
Não se surpreenda com a beleza do mundo
O mundo é fantástico, doce, amargo e desprezível
Como é doce brincar com você
viajar no mundo de balas e chocolates
Seremos loucos, seremos super homens
nos transformaremos em borboletas, passarinhos e em estrelas
No brilho da tua inocência meus olhos brilharão
Te protegerei das noites solitárias e dos janjões que a vida criará
E quando o medo brotar no teu peito
Dê um abraço forte no teu pai emprestado
E lembrei que serei teu amigo por toda tua vida.
Henrique Rodrigues Soares - Romaria Lírica
Ao meu querido Douglas.
Se eu pudesse
Ah! Se eu pudesse
acariciar teu rosto
num silêncio absorto
num perder de consciência
Ah! Se eu pudesse
penetrar dentro dos teus olhos
Vê teus horizontes
dominar teus desejos
Ah! Se eu pudesse
beijar tua boca
escondido dos olhos alheios
E numa bruma suave
congelar teus seios
Ah! Se eu pudesse
Ah! Se eu pudesse
controlar meus anseios
colocando uns arreios
para os acalmar
Ah! Se eu pudesse
Se eu pudesse
Arrancaria teus olhos
e tornaria meus diamantes.
Henrique Rodrigues Soares - Romaria Lírica
Descontrole Emocional
As migalhas são lançadas ao vento
As bocas caçam migalhas
Detritos de miséria suavizam nossa fome
Noites e mais noites apodrecidas pelo tédio
A minha vida não tem janelas
nem portas
é um corredor obscuro
sem esperanças e provisões
Flashes e mais flashes
alucinam meus olhos
com sua violência
com sua possessividade
com sua perversidade
E durmo minha cabeça
no teu colo maleável
e escondo meus sonhos
num desespero incontrolável
pela dor de perdê-los de minhas mãos
Minhas mãos não se mexem
Elas estão presas pela realidade
A realidade retira da vida os seus prazeres
E esta febre que contamina meus pensamentos
rompe as fontes lacrimais.
Henrique Rodrigues Soares - Romaria Lírica
Mulher
Mulher que mata e que dar vida
o remédio ao mesmo tempo ferida
teus beijos são um laço
em que homem pobre fracasso
deleita sua essência sua alma
o teu lábio suave gosto de carne
teu andar solto livre e cheio de charme
é desprevenido cheio de calma
sabes olhos atentos te vigiam
não como donos mas como escravos
da tua beleza são iluminados
e os seus desejos em ti se criam
mulher! algumas puras recatas
outras liberais cultas
diamante de disputa
dos homens dominador
Henrique Rodrigues Soares - Romaria Lírica
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