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Os corpos nos anos, isso faz curiosas as minhas mãos
à procura de idades diferentes
quero tocá-los todos, os outros
com seus mundos de pele.
Só a pele responde à demanda do tempo.
O corpo sabe de casas não minhas
nas quais entra-se com educação
tirando os sapatos;
horas e horas numa cama acariciando
as costas, muros de vértebras
e a coluna é uma rodovia
dos teus anos de ontem
dos quais não participei.

Mas te viras no escuro e nos olhamos
tenho então um nome,
eu sou o hoje imortal.

**********************


I corpi negli anni, questo fa curiose le mie mani
alla ricerca di età diverse
voglio toccarli tutti, gli altri
con i loro mondi di pelle.
Solo la pelle risponde alla domanda sul tempo
Il corpo sa di case non mie
dove si entra con educazione
togliendosi le scarpe;
ore ed ore in un letto a carezzarsi
le schiene, muri di vertebre
e la colonna è un’autostrada
dei tuoi anni di ieri
a cui non ho partecipato.

Ma se ti volti nel buio e ci guardiamo
allora ho un nome,
io sono l’oggi immortale.

Maddalena Lotter - tradução de Francesca Cricelli

O céu


       















                 Sei que ἁρμονία significa também coligação,
                 conexão, união. “Enquanto restarem unidos
                 os troncos da jangada,/estarei aqui, resistirei…”
                                                                (Odisseia, V, 361-362)
As nozes abertas sobre a mesa
são todavia som
– o movimento brilhante dos olhos
da porta à mesa:
o labor, o peso que não existe,
a ânsia ligeira pelas pessoas –
como se a beleza não tivesse uma origem.
Estas nozes fizeram rumor,
me tiram os pensamentos
(nascem e são já de todos,
todos os pensamentos…),
me reclamam ao corpo,
àquele que digo sabor
(as ideias são sempre sem corpo,
são parte de todos?),
me mantêm a contar os restos,
a colecioná-los sobre a mesa (e os meus
pensamentos, a quem fizeram feliz?).
As cascas partidas pertencem a estas mãos,
ao côncavo, às linhas das palmas,
pontas de sementes – nasce uma vida
ao instante dentro destas mãos.
Não ter pensamentos.
///
Apenas sobre as notícias eu sei nomes e pessoas
como era o labirinto dos vidros, no parque, dos espelhos
até batendo encontravas a saída.
Porque não tenho a saída agora –
se chama rede,
talha um quadrado exato
e um lugar que é onipresente.
Ou sou o branco de fundo
no corredor de espelhos,
inciso de diagonais e metálico
na terra, estreito entorno ao corpo
com os neons que faziam indistintos
a pele e o ar como uma sombra transparente
que segue a cada um, mas ao voltar-se não está.
E ali a peça de velha moeda,
o círculo de bronze com o golfinho
era caído à terra
quando estávamos vizinhos à saída,
e para não perdê-la a tenhamos abandonado.
Ali, exatamente, acreditei
em uma língua para todos
idêntica ao ar nos espelhos,
do inventor do labirinto às nossas mãos suadas
que protegiam a fronte:
erro ou desvio,
mas era solidez
bater a fronte às vezes
antes de chegar.
E à saída do parque o mestre dos crepes,
o pedrisco no círculo como a plataforma escura
onde atiras e pegas
e perdes, e depois os sapatos de ginástica
sobre o pedrisco e o mês certo
novembro – sempre um rito
enquanto o tempo agora é filiforme
e os sentimentos certos que todos possam capitar
e ver tão só na infinita
rede – ou, às vezes, em equilíbrio,
alguém que devolve a moeda.
///
Têm passado dias como vozes,
as vozes úteis pelo ar quando se enche.
Têm passado dias demasiado meus
aos quais falo curto circuito.
E os teus – aqueles de-
le, do outro, do outro,
outras vozes
eu deles, deles
de mim e ninguém
de ninguém.
Me apareciam rostos de mulher
no mármore da fachada,
plenos da luz de dezembro
e muito ligeiros para perceber
se jovens ou velhos, criaturas
inaturais ou animais.
Apareciam as geometrias,
as ficções, e todos os habitantes,
deslizando vizinhos, secretos,
rachados pelo sol deslizando
de boca em boca de corpo em corpo,
se uniam às pessoas reais,
me faziam uma figura.
Contar é o único,
reconhecer na luz exata
as vozes que não parecem reais,
que desejas transparentes,
inocentes ou simples –
e te fazem muito mais única
do que uma pessoa só.
///
Um interior – a pressão d’água
nos tubos, a luz da lâmpada
matizada, o respiro,
o mastigar objetos… é nutrir-se
de pouco, pensar grades de metal
com que suspender as substâncias da natureza,
recriar.
Logo, exterior – passas como um nada,
se para o carro, o vento, a mosca
exausta entre os quadrantes das casas,
o fio de erva seco pelo gelo,
todavia passam – como um eu multiplicado.
Até quando, me dirás me dirás,
saberemos que protegidos ou expostos
é a mesma coisa?
Me dirás as criaturas inconscientes
não existem, e escava escava
cada um se encontra.
No fundo é
a base da erva,
o contato entre a estrada e a terra,
o fragor de ultra sons entre as asas e o ar,
as dobras entre parede e parede,
o halo nesses copos do respiro
e a sombra que degrada.
Tudo é
real nas escalas múltiplas
como as frases que levam adiante
adiante a compreender, o gesto
em que vasculhas para ver o fundo.
Interior cheio de nada,
a luz gris azulada que chega
é manhã e tarde
e as coisas espoliadas da sombra
um segundo te veem como tu as vês.
///
O vidro é todo inverno,
as árvores se apoiam,
um quadro é já parede,
a célula outra célula:
talvez pudessem continuar
com os sentimentos raptados
como as gotas que chamam luz,
pudessem ignorar.
Memória – cada um reconhece
ainda que fingindo.
Passam as cores do inverno
fora da janela como se os quereres
fossem estátuas dentro do céu
escondidas à natureza.
Se sentem mais do querer
fortes com a água nova –
assim dizem as plantas
sobre as quais volta o inverno mil vezes –
é raro ser anônimos e nós,
a escavar o inverno,
a murar os confins,
outros nós misturados às árvores –
parecem árvores e são
nós?
Prefiro o fim dos insetos
assim crus em espirais de lenho,
morrer de ar seco
quando o vento é muito forte:
a minha alma é morta mil vezes
e volta, privilégio
que apaga e inunda.
Provo outra vez fixá-la
no instante que, anônima, se apoia
na natureza sem provas, e crê
que nada exista.
///
Terminarão, terminarão –
tenho pensado nestes momentos,
a suspensão, a verdade
para todos – estes segundos
nutrientes como o leite.
Logo aprendia a me levantar e abaixar
conforme os casos, os poucos
que se podem observar. E os casos
tornavam-se meus, os meus humores
tornavam-se casos.
Mas o melro segue o curso dos ramos,
é uma realidade pintada
que se move sem medo
até quando não sinto que é real
mais do que eu – as penas negras
que brilham entre os ramos para dizer-me
a perfeição é fora.
Agora torna a morte como o céu
sobre todas as coisas transformadas –
eis que o céu tem todas as cores,
as apaga no alto, as perde,
as faz novas, o céu
muda a cada dia – e o mundo
resiste só em paralelo.
///
O céu é branco entre as folhas
que saem da terra a um ponto de ar.
Distingues as cores, as hierarquias,
as recém-nascidas, as sempreverdes
folhas de magnólia contra a luz
que escondem um mundo
latente como o nosso.
Sai o vazio imprevisto,
olhando do tronco à ponta das ramas
o céu no meio
como pudesses bebê-lo. Qualquer coisa
assim lógica e justa –
as hierarquias mais humanas não se fazem
de água e luz, crescem
à vontade necessária,
se alteram sob o querer de poucos.
Repetir isto e deixá-lo
passar da indiferença ao vento,
que o tenha consigo em um momento
entre os meus olhos e a magnólia.



Il cielo

                        So che ἁρμονία significa anche collegamento,
                        connessione, unione. «Finchè restano uniti
                        i tronchi della zattera, / starò qui, resisterò…»
                                                         (Odissea, V, 361-362)


Le noci aperte sul tavolo
sono ancora suono
– il movimento brillante degli occhi
dalla porta al tavolo:
il lavoro, il peso che non esiste,
le ansie leggere per le persone –
come se la bellezza non avesse un’origine.
Queste noci hanno fatto rumore,
mi tolgono i pensieri
(nascono e sono già di tutti,
tutti i pensieri…),
mi richiamano al corpo,
a quello che dico sapore
(le idee sono sempre senza corpo,
sono parte di tutti?),
mi trattengono a contare i resti,
a radunarli sul tavolo (e i miei
pensieri chi hanno reso felice?).
I gusci spaccati appartengono a queste mani,
nell’incavo, nelle linee dei palmi,
punte di semi – nasce una vita
all’istante dentro queste mani.
Non avere pensieri.
///
Appena sopra le notizie io so nomi e persone
come era il labirinto dei vetri, al parco, degli specchi
finché sbattendo trovavi l’uscita.
Perché non ho l’uscita adesso –
si chiama rete,
taglia un quadrato esatto
e un luogo che è ovunque.
O sono il bianco in fondo
al corridoio degli specchi,
inciso di diagonali e metallico
a terra, stretto intorno al corpo
con i neon che facevano indistinti
la pelle e l’aria come un’ombra trasparente
che segue ognuno, ma a voltarsi non c’è.
E lì il pezzo di vecchia moneta,
il cerchio di bronzo con il delfino
era caduto a terra
quando siamo stati vicini all’uscita,
e per non perderla l’abbiamo lasciato.
Lì, esattamente ho creduto
a una lingua per tutti
identica dall’aria agli specchi,
dall’inventore del labirinto alle nostre mani sudate
che proteggevano la fronte:
errore o deviazione,
ma era solidità
sbattere la fronte a volte
prima di arrivare.
E all’uscita del parco il maestro delle crêpes,
la breccia in cerchio come la piattaforma scura
dove tiri e peschi
e perdi, e poi le scarpe da ginnastica
sulla breccia e il mese certo
novembre – sempre un rito
mentre il tempo adesso è filiforme
e i sentimenti certi che tutti possono capire
e vedere nella sola infinita
rete – o, a volte, in equilibrio,
qualcuno che riporta la moneta.
///
Sono passati giorni come voci,
le voci utili all’aria quando si riempie.
Sono passati giorni troppo miei
a cui parlo cortocircuito.
E i tuoi – quelli di
lui, dell’altro, dell’altro,
altre voci
io di loro, loro
di me e nessuno
di nessuno.
Mi apparivano volti di donna
sul marmo della facciata,
pieni della luce di dicembre
e troppo leggeri per capire
se giovani o vecchi, creature
innaturali o animali.
Apparivano le geometrie,
le finzioni, e tutti gli abitanti,
scivolando vicine, segrete,
spaccate dal sole scivolando
di bocca in bocca di corpo in corpo,
si univano alle persone vere,
mi facevano una figura.
Contare è l’unico,
riconoscerle nella luce esatta
le voci che non sembrano vere,
che desideri trasparenti,
innocenti o semplici –
e ti fanno molto più unica
di una persona sola.
///
Un interno – la pressione dell’acqua
sui tubi, la luce della lampada
sfumata, il respiro,
il masticare oggetti… è nutrirsi
di poco, pensare griglie di metallo
a cui appendere le sostanze della natura,
ricreare.
Poi, esterno – passi come un niente,
si ferma l’auto, il vento, la mosca
sfinita tra i quadranti delle case,
il filo d’erba seccato dal gelo,
ancora passano – come un io moltiplicato.
Fino a quando, mi dirai mi dirai,
sapremo che protetti o esposti
è la stessa cosa?
Mi dirai le creature inconsapevoli
non esistono, e scava scava
ognuno si trova.
In fondo è
la base dell’erba,
il contatto tra la strada e la terra,
il fragore a ultrasuoni tra le ali e l’aria,
le pieghe tra parete e parete,
l’alone del respiro sul bicchiere
e l’ombra che degrada.
Tutto è
vero nelle scale multiple
come le frasi che portano avanti
avanti a capire, il gesto
in cui frughi per vedere il fondo.
Interno pieno di niente,
la luce grigioazzurra che arriva
è mattino e sera
e le cose spogliate dall’ombra
un secondo ti vedono come tu le vedi.
///
Il vetro è tutto inverno,
gli alberi si appoggiano,
un quadro è già parete,
la cellula altra cellula:
forse potrebbero continuare
con i sentimenti rapiti
come le gocce che chiamano la luce,
potrebbero ignorare.
Memoria – ognuno riconosce
anche fingendo.
Passano i colori dell’inverno
fuori dalla finestra come se i bisogni
fossero statue dentro al cielo
nascoste alla natura.
Si sentono più del bisogno
forti con l’acqua nuova –
così dicono le piante
su cui torna l’inverno mille volte –
è raro essere anonimi e noi,
a scavare l’inverno,
a murare i confini,
altri noi misti agli alberi –
sembrano alberi e sono
noi?
Preferisco la fine degli insetti
così crudi in spiragli di legno,
morire d’aria secca
quando il vento è troppo forte:
la mia anima è morta mille volte
e tornata, privilegio
che spegne e inonda.
Provo ancora a fissarla
nell’istante che, anonima, si appoggia
alla natura senza prova, e crede
che niente esista.
///
Finiranno, finiranno –
ho pensato a questi momenti,
la sospensione, la verità
per tutti – questi secondi
nutrienti come il latte.
Poi imparavo ad alzarmi e abbassarmi
come i casi, i pochi
che si possono guardare. E i casi
diventavano miei, i miei umori
diventavano casi.
Ma il merlo segue il corso dei rami,
è una realtà dipinta
che si muove senza paura
fino a quando non sento che è vero
più di me – le penne nere
che brillano tra i rami per dirmi
la perfezione è fuori.
Allora torna la morte come il cielo
su tutte le cose trasformate –
ecco che il cielo ha tutti i colori,
li spinge in alto, li perde,
li fa nuovi, il cielo
cambia ogni giorno – e il mondo
resiste solo in parallelo.
///
Il cielo è bianco tra le foglie
che salgono da terra a un punto d’aria.
Distingui i colori, le gerarchie,
le nuove nate, le sempreverdi
foglie di magnolia controluce
che nascondono un mondo
latente come il nostro.
Sale il vuoto improvviso,
guardando dal tronco alla punta dei rami
il cielo in mezzo
come potessi berlo. Qualcosa
così logico e giusto –
le gerarchie più umane non si fanno
di acqua e luce, crescono
a volontà necessarie,
si alterano sui bisogni di pochi.
Ripetere questo e lasciarlo
passare dall’indifferenza al vento,
che lo tenga con sé in un momento
tra i miei occhi e la magnolia.


Maria Borio - Tradução de Davi Araújo














Cumpriu-se. Concluiu-se. Terminou-se.
Consumiu-se o incêndio. Findou-se.
Fechou-se o círculo petrificado.
Findou-se o tempo. Consumiu-se
o delito. Queimou-se
a lembrança. Cessou a angústia.
Um manto de lava interditou
todo crânio toda órbita esvaziada.
Toda boca no grito interditou.

Fechou-se o círculo. Nada atreve-se a singrar
o silêncio de lava. As formigas
rodeiam o fogo gasto enlouquecidas.


È compiuto. È concluso. È terminato.
È consumato l’incendio. S’è fermato.
S’è chiuso il cerchio pietrificato.
Il tempo s’è fermato. È consumato
il delitto. S’è bruciato
il ricordo. L’ansia è cessata.
Una coltre di lava ha sigillato
ogni cranio ogni orbita svuotata.
Ogni bocca nel grido ha sigillato.

S’è chiuso il cerchio. Niente osa varcare
il silenzio di lava. Le formiche
girano intorno al rogo spento impazzite.


Goliarda Sapienza - tradução de Valentina Cantori

Soneto














Tão honesta e gentil, até na fala,
é minha amada, quando a alguém saúda,
que toda e qualquer língua fica muda,
e os olhos não se atrevem a contemplar.

Ela assim vai, sentindo-se louvar,
vestida de humildade: de tão linda
lembra um milagre e até parece vinda
do céu para na terra se mostrar.

Tão afável se mostra a quem a mira
que olhá-la ao coração leva doçura,
mas não pode entendê-lo quem não prova:

e talvez porque em seus lábios se mova
um espírito tão cheio de candura
que vai dizendo ao coração: “Suspira”.



Tanto gentile e tanto onesta pare
la donna mia, quand’ella altrui saluta,
ch’ogne lingua devèn, tremando, muta,
e li occhi no l’ardiscon di guardare.

Ella si va, sentendosi laudare,
benignamente d’umiltà vestuta,
e par che sia una cosa venuta
da cielo in terra a miracol mostrare.

Mostrasisì piacente a chi la mira
chedà per li occhi una dolcezza al core,
che ‘ntender no la può chi no la prova;

e par che de la sua labbia si mova
un spirito soave pien d’amore,
che va dicendo a l’anima: Sospira.

Dante Alighieri - trad. Ferreira Gullar. [2014] em: O prazer do poema, Edições de Janeiro, 2014, p. 82.

Trabalhar cansa





















Atravessar uma rua para fugir de casa
Só um menino faz isso, mas este homem que anda
O dia inteiro pelas ruas não é mais um menino
E não está fugindo de casa.

Há tardes no verão em que até as praças estão vazias, oferecidas
Ao sol que está se pondo, e este homem que avança
Por uma avenida de árvores inúteis, se detém.
Vale a pena estar só, para sempre ficar mais só?
Por mais que se ande de um lado para outro, as praças e as ruas
Estão vazias. É preciso parar uma mulher
E lhe falar e convencê-la a viver juntos.
De outra forma, a gente começa a falar sozinho.
É por isso que às vezes
Surge um bêbado noturno que te aborda com discursos
E te conta os projetos de uma vida inteira.

Não é certamente esperando na praça deserta
Que se encontra alguém, mas quem anda pelas ruas
Se detém de vez em quando. Se fossem dois,
Mesmo andando pelas ruas, o lar estaria
Onde estivesse aquela mulher e valeria a pena.
De noite a praça volta a ser deserta
E este homem que passa não vê as casas
Entre as luzes inúteis, já não levanta mais os olhos:
Ele sente apenas o pavimento que fizeram outros homens
Com mãos calejadas como as suas.
Não é justo ficar na praça deserta.
Haverá certamente aquela mulher na rua
Que, se lhe fosse pedido, gostaria de dar uma mão na casa.



Lavorare stanca

Traversare una strada per scappare di casa
Lo fa solo un ragazzo, ma quest'uomo che gira
Tutto il giorno le strade, non è più un ragazzo
E non scappa di casa.

Ci sono d'estate
Pomeriggi che fino le piazze son vuote, distese
Sotto il sole che sta per calare, e quest'uomo, che giunge
Per un viale d'inutili piante, si ferma.
Val la pena esser solo, per essere sempre più solo?
Solamente girarle, le piazze e le strade
Sono vuote. Bisogna fennare una donna
E parlarle e deciderla a vivere insieme.
Altrimenti, uno parla da solo. È per questo che a volte
C'è lo sbronzo notturno che attacca discorsi
E racconta i progetti di tutta la vita.

Non è certo attendendo nella piazza deserta
Che s'incontra qualcuno, ma chi gira le strad
Si sofferma ogni tanto. Se fossero in due,
Anche andando per strada, la casa sarebbe
Dove c'è quella donna e varrebbe la pena.
Nella notte la piazza ritorna deserta
E quest'uomo, che passa, non vede le case
Tra le inutili luci, non leva più gli occhi
Sente solo il selciato, che han fatto altri uomini
Dalle mani indurite, come sono le sue.
Non è giusto restare sulla piazza deserta,
Ci sarà certamente quella donna per strada
Che, pregata, vorrebbe dar mano alla casa.


Cesare Pavese - tradução Rubens Ricupero

CAMPO















A terra
se cobriu
de tenra
leveza

Como uma esposa
nova
oferece
atônita
ao filho
o pudor
sorridente
de mãe


PRATO

Villa di Garda aprile 1918

La terra
s'è velata
di tenera
leggerezza

Come una sposa
novella
offre
allibita
alla sua creatura
il pudore
sorridente
di madre


Giuseppe Ungaretti - In A Alegria -Tradução e notas de Geraldo Holanda Cavalcanti, Editora Record, Rio de Janeiro, 2003

Curva-se o dia
















Eis-me desamparado, Senhor,
no teu dia,
cerrado a toda luz.

De ti privado tenho medo,
perdida estrada de amor,
e não me é dada nem mesmo
a graça de trêmulo confessar-me
tão seca é a minha vontade.

A ti amei e combati;
curva-se o dia
e colho sombras dos céus:
que tristeza o meu coração
de carne!
.


SI CHINA IL GIORNO

Mi trovi deserto, Signore,
nel tuo giorno,
serrato ad ogni luce.

Di te privo spauro,
perduta strada d'amore,
e non m'è grazia
nemmeno trepido cantarmi
che fa secche mie voglie.

T'ho amato e battuto;
si china il giorno
e colgo ombre dai cieli:
che tristezza il mio cuore
di carne!

Salvatore Quasimodo - poesias. [seleção, tradução e notas Geraldo Holanda Cavalcanti; prefácio de Luciana Stegagno Picchio]. Edição bilíngue.Rio de Janeiro: Record, 1999.

Outras palavras


















Para dizer certas coisas
são precisas
palavras outras
novas palavras
nunca ditas antes
ou nunca
antes
postas lado a lado.
São precisas
palavras que inventaram
seu percurso
e cantam sobre a língua.
Para dizer certas coisas
são precisas palavras
que amanhecem.

Marina Colasanti, em “Fino sangue”. Rio de Janeiro: Editora Record, 2005.

Que sua infinita arte e providência ...














Qual sua arte infinita e providência
mostrou em seu ensino admirável,
que, ele criou o outro hemisfério
e Jove, ao invés de Marte, deu clemência,

entrou no mundo brilhando sua ciência
a verdade que o livro era um mistério,
ele mudou Pedro e João, o ministério
e a rede, deu-lhes um céu herança.

Ao nascer, Roma não será satisfeito,
sim para a Judéia, para que, mais do que qualquer estado,
exaltando a humildade lhe agradava;

e hoje, uma menina da aldeia, tem um sol,
o que torna o sítio Natura e regozijar
onde tão bonito viu o dia.


Em italiano:

El que su arte infinita y providencia...

El que su arte infinita y providencia
demostró en su admirable magisterio,
que, con éste, creó el otro hemisferio
y a Jove, más que a Marte, dio clemencia,

vino al mundo alumbrando con su ciencia
la verdad que en el libro era misterio,
cambió de Pedro y Juan el ministerio
y, por la red, les dio el cielo en herencia.

Al nacer, no le plugo a Roma darse,
sí a Judea: que, más que todo estado,
exaltar la humildad le complacía;

y hoy, de una aldea chica, un sol ha dado,
que a Natura y al sitio hace alegrarse
donde mujer tan bella ha visto el día.



Francesco Petrarca

Soneto I














Vós que escutais em rima esparsa o coro
dos suspiros com que eu meu ser nutria,
naquele erro em que jovem me perdia,
quando outro eu era do que sou, e coro:

no vário estilo em que eu razoo e choro
entre esperanças vãs, vã agonia,
onde haja quem do amor provou a via,
se não o seu perdão, piedade imploro.

Mas bem percebo que de todo o povo
fui muito tempo fábula, e frequente
de mim mesmo comigo me envergonho:

do divagar, vergonha é o fruto novo,
e o arrepender-me, e o ver bem claramente
que quanto agrada ao mundo é breve sonho.


Em italiano:

Voi ch'ascoltate in rime sparse il suono
di quei sospiri ond'io nudriva ´l core
in sul mio primo giovenile errore
quand'era in parte altr'uom da quel ch'i' sono,

del vario stile in ch'io piango e ragiono
fra le vane speranze e ´l van dolore,
ove sia chi per prova intenda amore,
spero trovar pietà, non che perdono.

Ma ben veggio or si come alpopol tutto
favola fui gran tempo, onde sovente
di me medesmo meco mi vergogno:

e del mio vaneggiar vergogna è ´l frutto,
e 'l pentersi, e ´l conoscer chiaramente
che quanto piace al mondo è breve sogno.


Francesco Petrarca 
Cancioneiro. Tradução José Clemente Pozenato. Ilustração Enio Squeff. Cotia, SP: Ateliê Editorial; Campinas, S P: Editora da Unicamp, 2014. 536 p. (Coleção Clássicos Comentados) capa dura. ISBN 978-85-679-2 (Ateliê Editorial) – 978-85-268-1217-8 (Editora da Unicamp)

Diz Mal do Amor que o Feriu Inesperadamente














Era o dia em que o sol escurecia
Os raios por piedade ao seu Fator,
Quando eu me vi submisso ao vivo ardor
De teu formoso olhar que me prendia.

Defender-me do golpe eu não queria;
Desabrigado achou-me então Amor;
Por isso acrescentou-se a minha dor
À dor universal que assaz crescia.

Achou-me Amor de todo desarmado,
Pelos olhos, ao peito aberta a estrada,
Olhos que se fizeram mar de pranto.

Porém a sua ação não o honra tanto:
Ferir-me, sendo inerme o meu estado,
Não te visar quando eras tão armada.


em italiano

Era il giorno ch’al sol si scoloraro
per la pietà del suo factore i rai,
quando i’ fui preso, et non me ne guardai,
ché i be’ vostr’occhi, donna, mi legaro.

Tempo non mi parea da far riparo
contra colpi d’Amor: però m’andai
secur, senza sospetto; onde i miei guai
nel commune dolor s’incominciaro.

Trovommi Amor del tutto disarmato
et aperta la via per gli occhi al core,
che di lagrime son fatti uscio et varco:

però al mio parer non li fu honore
ferir me de saetta in quello stato,
a voi armata non mostrar pur l’arco.


Francesco Petrarca

PETRARCA, Francesco. Diz mal do amor que o feriu inesperadamente / Fala dos efeitos contrários do amor. Tradução de Jamil Almansur Haddad. In: JACKSON, W. M., INC. (Eds.). Tesouro da juventude: livro da poesia. São Paulo, SP: Gráfica Editora Brasileira Ltda., 1955. Vol. VI, p. 316.

O Infinito













Sempre cara me foi esta colina
Erma, e esta sebe, que de tanta parte
Do último horizonte, o olhar exclui.
Mas sentado a mirar, intermináveis
Espaços além dela, e sobre-humanos
Silêncios, e uma calma profundíssima
Eu crio em pensamentos, onde por pouco
Não treme o coração. E como o vento
Ouço fremir entre essas folhas, eu
O infinito silêncio àquela voz
Vou comparando, e vêm-me a eternidade
E as mortas estações, e esta, presente
E viva, e o seu ruído. Em meio a essa
Imensidão meu pensamento imerge
E é doce o naufragar-me nesse mar.


em italiano:

Sempre caro mi fu quest'ermo colle,
E questa siepe, che da tanta parte
Dell'ultimo orizzonte il guardo esclude.
Ma sedendo e mirando, interminati
Spazi di là da quella, e sovrumani
Silenzi, e profondissima quiete
Io nel pensier mi fingo; ove per poco
Il cor non si spaura. E come il vento
Odo stormir tra queste piante, io quello
Infinito silenzio a questa voce
Vo comparando: e mi sovvien l'eterno,
E le morte stagioni, e la presente
E viva, e il suon di lei. Cosi tra questa
Immensita s'annega il pensier mio:
E il naufragar m'è dolce in questo mare.



Giacomo Leopardi - tradução de Vinícius de Moraes

Soneto XXII






















Se amor não é qual é este sentimento?
Mas se é amor, por Deus, que coisa é a tal?
Se boa por que tem ação mortal?
Se má por que é tão doce o seu tormento?

Se eu ardo por querer por que o lamento
Se sem querer o lamentar que val?
Ó viva morte, ó deleitoso mal,
Tanto podes sem meu consentimento.

E se eu consinto sem razão pranteio.
A tão contrário vento em frágil barca,
Eu vou para o alto mar e sem governo.

É tão grave de error, de ciência é parca
Que eu mesmo não sei bem o que anseio
E tremo em pleno estio e ardo no inverno.


em italiano

S’ amor non è, che dunque è quel ch’ io sento?
Ma s’egli è amor, per Dio, che cosa e quale?
Se buona, ond è effetto aspro mortale?
Se ria, ond’ è si dolce ogni tormento?

S’a mia voglia arado, ond’ è ‘I pianto e ‘I lamento?
S’a mal mio grado, il lamentar che vale?
O viva morte, o dilettoso male,
Come puoi tanto in me s’io nol consento?

E s’io ‘I consento, a gran torto mi doglio.
Fra sì contrari venti, in frale barca
Mi trivo in alto mar, senza governo,

Sí lieve di saber, d’error sí carca,
Ch’ i i’ medesmo non so quel ch’ io mi voglio,
E tremo a mèzza state, ardemdo il verno.

Francesco Petrarca
in “Poemas de amor de Petrarca” - “Il Canzonieri”

Julho
















1931
Quando sobre ela se abate,
Faz-se de um triste cor de rosa
A bela copa.

Destrói barrancas, bebe os rios,
Tritura rochas, fulgura,
É obstinada sua fúria, implacável.
Dispersa o espaço, desfaz fronteiras,
É o verão e pelo tempo afora
Com seu olhar calcinante
Despindo vai da terra o esqueleto.


Giuseppe Ungaretti – Geraldo Holanda Cavalcanti



Di Luglio

1931
Quando su ci si butta lei,
Si fa d’un triste colore di rosa
Il bel fogliame.

Strugge forre, beve fiumi,
Macina scogli, splende,
È furia che s’ostina, è implacabile,
Sparge spazio, acceca mete,
È l’estate e nei secoli
Con i suoi occhi calcinanti
Va della terra spogliando lo scheletro.


RB Poesia Estrangeira – Revista da Academia Brasileira de Letras, nº 49, p. 12-13.

Silêncio na Ligúria
















1922
Dissolve-se ondeante o espelho d’água

Nas suas urnas o sol
Ainda escondido se banha

Um suave rubor perpassa.

E abre de súbito no recôncavo
A plena brandura dos olhos
Morre submersa a sombra das rochas.

Suave desabrochar de hilares flancos
A desperta quietude do verdadeiro amor.

E eu o gozo difuso
Pela asa alabastrina
De uma imóvel manhã.


Giuseppe Ungaretti – Geraldo Holanda Cavalcanti



Silenzio in Liguria

1922
Scade flessuosa la pianura d’acqua.

Nelle sue urne Il sole
Ancora segreto si bagna.
Una carnagione lieve trascorre.

Ed ella apre improvvisa ai seni
La grande mitezza degli occhi.

L’ombra sommersa delle rocce muore.

Dolce sbocciata dalle anche ilari,
Il vero amore è una quiete accesa,

E la godo diffusa
Dall’ala alabastrina
D’una mattina immobile.


RB Poesia Estrangeira – Revista da Academia Brasileira de Letras, nº 49, p. 10-11.

Anima Bella Da Quel Nodo Sciolta (Alma tão bela)

























Alma tão bela desse nó já solta
Que mais belo não sabe urdir natura,
Tua mente volve à minha vida obscura
Do céu à minha dor em choro envolta.


Da falsa suspeição liberta e absolta
Que outrora te fazia acerba e dura
A vista em mim pousada, ora segura
Podes fitar-me, e ouvir-me a ânsia revolta.


Olha do Sorge a montanhosa fonte
E verás lá aquele que entre o prado e o rio
De recordar-te e de desgosto é insonte.


Onde está teu albergue, onde existiu
O amor que abandonaste. E o horizonte
De um mundo que desprezas, torpe e frio.


Em italiano

Anima bella da quel nodo sciolta
che piú bel mai non seppe ordir Natura,
pon’ dal ciel mente a la mia vita oscura,
da sí lieti pensieri a pianger volta.

La falsa opinïon dal cor s’è tolta,
che mi fece alcun tempo acerba et dura
tua dolce vista: omai tutta secura
volgi a me gli occhi, e i miei sospiri ascolta.

Mira ‘l gran sasso, donde Sorga nasce,
et vedra’vi un che sol tra l’erbe et l’acque
di tua memoria et di dolor si pasce.

Ove giace il tuo albergo, et dove nacque
il nostro amor, vo’ ch’abbandoni et lasce,
per non veder ne’ tuoi quel ch’a te spiacque.


Francesco Petrarca

DONNA, CHE LIETA COL PRINCIPIO NOSTRO (Senhora minha)

























Senhora minha, que tão leda estais
Coo princípio de tudo, e o mereceste
Por essa vida santa que viveste,
E em sédia gloriosa vos sentais,


Ó rara e portentosa entre as demais,
Ora, no Olhar que tudo vê celeste,
Vê o meu amor e a pura fé que veste
De lágrimas choradas versos tais.


E sente um coração tão fiel na terra
Qual o é no céu agora, e que não tende
A mais de ti que ao Sol dos olhos teus.


E pois, para vencer a dura guerra
Que neste mundo só a ti me prende,
Roga que eu vá depressa a estar nos céus.


Em italiano

Donna, che lieta col principio nostro,
ti stai, come tua vita alma rechede,
assisa in alta e gloriosa sede,
e d’altro ornata che di perle e d’ostro,

o delle donne altèro e raro mostro,
or nel vúlto di lui che tutto vede,
vedi ’l mio amore, e quella pura fede,
per ch’io tante versai lagrime e ’nchiostro,

e senti che vèr te ’l mio core in terra
tal fu qual ora è in cielo, e mai non volsi
altro da te che ’l sol de li occhi tuoi:

dunque per amendar la lunga guerra,
per cui dal mondo a te sola mi volsi,
prega ch’i’ venga tosto a star con voi.

Francesco Petrarca
Trad. Jorge de Sena

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