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Palavras, nem sempre as leva o vento














Manda o costume devolver o insulto
com outro insulto igual, senão melhor.
Não procedais assim, que é baixo e estulto.
Temeis o mal? Pois evitai o pior.

Cada palavra que dizeis de vulto,
como o som de um violino anda em redor,
depois de vos revoar no ser oculto,
por onde a ressonância a fez maior.

O violino, porém, não se recorda
do som que um dia lhe vibrou na corda,
e o vosso coração fica a fremir;

e, às vezes, a palavra, além, se esquece,
enquanto em vosso peito permanece,
como pedra que a um lago foi cair.


Amadeu Amaral - Publicado no livro Lâmpada antiga: versos (1924). Poema integrante da série Carta de Guia de Meus Filhos.
In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.230. (Obras de Amadeu Amaral

Versos nevoentos

















Luta penosa e vã, esta em que vivo, imerso
Na ambição de alcançar a frase que me exprima,
onde o meu pensamento esplenda claro e terso,
como o bago reluz pronto para a vindima.

Como cristalizar tanta emoção no verso?
Como o sonho encerrar nos limites da rima?
Bruma ondulante e azul, fumo que erra disperso,
não se pode plasmar, não há mão que o comprima.

Não, eu não te darei a Expressão que rebrilha
na rija nitidez de áurea moeda sem uso,
acabado lavor de cunho e de serrilha:

só te posso ofertar estes versos nevoentos,
conchas em que ouvirás, indistinto e confuso,
um remoto fragor de vagas e de ventos.

Amadeu Amaral

A Vida


















Eis a Vida: seguir umas quimeras vagas,
lançando a mão em sangue aos cardos e aos espinhos;
rolar no pó; gemer; deixar pelos caminhos
mil farrapos de carne e o sangue de mil chagas;

sorver o horrendo fel que anda em todos os vinhos,
o veneno que jaz em todas as teriagas;
persistir, todavia, entre as chufas e as pragas
dos que vão, a ulular, por trilhos convizinhos;

chegar, enfim, exausto, ao fastígio da idade,
ver desfeito o jardim de encanto que sonhamos,
cair desfalecido e — supremo revés —

olhando para trás, ver que a felicidade
ficou além, no vale, onde, espectros, passamos,
ficou além, na flor que calcamos aos pés...


Amadeu Amaral - Publicado no livro Espumas: versos (1917).

Nec Mergitur















A sorte, muita vez, é bem amarga.
Vai-se, corrente abaixo, sem sentir,
e eis, de repente, o passo nos embarga
um cachão de água brava a refluir.

Eis a piroga a corcovar de ilharga,
a vela a estremeer, a ir, a vir;
eis que rolou por água abaixo a carga,
eis a água pelas bordas a subir.

Mas tenhamos paciência! Ao menos esta
não sossobre aos boleus da sorte infesta,
para todo o perdido recompor;

e, se o não recompõe, ao menos, diga:
— Raivai, águas! Raivai, sorte inimiga!
exijo inteiro o meu quinhão de dor.



 Amadeu Amaral -(, de Lâmpada Antiga, 1921)

Rios




















Almas contemplativas! Vão rolando
por esta vida, como os rios quietos...
Rolam os rios, — árvores e tetos,
céus e terras, tranquilos, espelhando;

vão refletindo todos os aspectos,
num serpentear indiferente e brando;
espreguiçam-se, límpidos, cantando,
no remanso dos sítios prediletos;

fecundam plantações, movem engenhos,
dão de beber, sustentam pescadores,
suportam barcos e carreiam lenhos...

Lá se vão, num rolar manso e tristonho,
cumprindo o seu destino sem clamores
e sonhando consigo um grande sonho.


Amadeu Amaral
Publicado no livro Névoa (1910).

Sobre os desenganos














Desenganos da vida! Se eue ouvia
falar, outrora, nos seus negros danos,
enfadado exclamava: “Ora! mania,
que a muitos vem com o desfiar dos anos!”

A minha nau, porém, abrindo os panos,
lançou-se ao largo mar com galhardia.
E logo pude ver que os desenganos
são mais cruéis do que eu pensei um dia.

Hoje, as lamentações, que ouvi outrora
com profano desdém, causam-me espanto:
o humano coração bem pouco chora!

Quão fracamente seu queixume exala!
quanto resiste, em seu calvário! E quanto
é desgraçado, porque não estala!


Amadeu Amaral

Voz Íntima





















Fecha-te, sofredor, na alva túnica ondeante
Dos sonhos! E caminha, e prossegue, embebido,
Muito embora, na dor de um fiei celebrante
De um estranho ritual desdenhado e esquecido!


Deixa ressoar em torno o bárbaro alarido,
Deixa que voe o pó da terra em torno... Adiante!
Vai tu só, calmo e bom, calmo e triste, envolvido
Nessa túnica ideal de sonhos, alvejante.


Sê, nesta escuridão do mundo, o paradigma
De um desolado espectro, uma sombra, um enigma,
Perpassando sem ruído a caminho do Além.


E só deixes na terra uma reminiscência:
A de alguém que assistiu à luta da existência,
Triste e só, sem fazer nenhum mal a ninguém.


Amadeu Amaral

Em Meditação Introspectiva













Do fundo de meu ser, num arremesso
longo, parte uma voz turva e fremente.
Escuto-a já bramir, quando, em começo,
balbuciava uma prece, lentamente.


Acendo o lume da Razão, e desço
às cavernas profundas do Inconsciente.
A luz vacila e fuma; eu estremeço,
vendo só treva acumulada em frente.


Clamo, interrogo... Em vão. Silêncio em tudo.
Aos poucos, num luar distante, agora,
rondam vultos de sonho e de pecado.


E aflita, o colo branco a arfar desnudo,
uma princesa acorrentada chora
junto a um fosco antropóide acorrentado.


Amadeu Amaral

O Tempo seca o Amor

O tempo seca a beleza, seca o amor, seca as palavras. Deixa tudo solto, leve, desunido para sempre como as areias nas águas. O tempo seca a ...

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