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Retrospectiva















Porque a vida é feita de proibições,
eu não compus todas as canções,
não percebi a brisa suspirar,
eu esqueci cantigas de ninar,
dei chances demais à voz dos credos,
não rompi de vez todos os medos,
roubei do tempo um tanto de carinho,
não vi a flor amar o passarinho,
perdi o trem na curva do vertente
e não deixei o mel melar completamente.

Porque a vida é feita de proibições,
larguei o fio, soltaram-se os balões
deixei que o pião revirasse sozinho,
mandei que o zangão se zangasse baixinho,
desprezei a bruma que baixou o véu,
permiti à palavra dormir no papel,
evitei o desvio que atravessa a estrada,
não quis o desafio da ronda embriagada,
não li o poema do poeta maldito,
e não tive o dilema do beijo infinito.

Porque ainda há tempo para o encantamento,
quebre-se o vidro do sermão absoluto,
rompa-se a teia, reveja-se o estatuto,
que a primavera quer amar o chão de vento.


Flora Figueiredo

Líquido















Teu beijo é tanto
é tamanho
que nele me dispo,
me banho,
me adoço.
Deixo no pescoço
uma gota ativa
pra te manter molhado
enquanto posso.
Essa umidade me conserva viva.



Flora Figueiredo, em "Calçada de verão". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989.

A pedidos















Querem um verso,
mas não sou capaz.
Vejo a palavra fraturar
as entrelinhas,
tento soldá-las,
mas não são minhas.
Rompeu-se o verbo
e me deixou pra trás.


Flora Figueiredo

Origami
























Dobra que dobra,
redobra
Põe de pé,
puxa as pontas.
Não fica perfeito,
mas faz de conta;
um pouco torto,
mas ninguém vê.
Não faz mal:
é só um pedaço morto
de folha de jornal.
Ficou de lado,
meio largado
na gaveta.
Ao voltar,
as letras de papel terão voado.
Palavra mal guardada
acaba se tornando borboleta.


Flora Figueiredo

Insônia



















Silêncio,
Madrugada.
Rua vazia.
Uma lua branca de linho
estendida no escuro,
sobre o nada.
Num momento insone,
conversam confidentes
Presente, Passado, Futuro.
Um pensamento corta o espaço
versejando a esmo.
Escuto passos:
é meu coração abrindo a porta de mim mesmo.


Flora Figueiredo

Oração da manhã


















Bom dia, Pai.
Vamos tomar juntos o café da manhã?
Temos pendentes tantos assuntos!
(O pão está fresquinho,
o café bem quente).
Ainda que só um minutinho,
nós precisamos conversar:
o mundo desandou de tal jeito,
que nada mais parece ter efeito.
Nem ciência, nem teoria,
nem fórmula, nem maestria
conseguem colaborar.
Cada qual briga pelo seu bocado
sem nenhuma decência, sem qualquer restrição.
Perdeu-se nas cinzas o espírito cristão.
Por isso, a minha idéia
(por favor, passe a geléia)
de recorrer a uma ajuda;
sem você, a situação não muda.
A ambição vem engolindo a Terra;
a sociedade, cada vez mais dissoluta.
E fique atento,
pois andam procurando uma fé substituta.
Os governantes estão cegos;
que tal devolver-lhes a visão?
Carregam pregos nas mãos,
crucificam o povo.
Não quero que Você morra de novo!
Meus Jesus, multiplique o pão.
Perdoe esse bate-papo,
(à sua frente tem um guardanapo)
é que estou aflita!
Que bom receber Sua visita logo de manhã
Devo Lhe contar um segredo:
quero sair de casa, mas tenho medo,
preciso segurar a Sua mão.
Ainda falta agradecer tanta graça!
O girassol que nasce na calçada,
o rosa-amarelo da alvorada,
o pedaço de céu que pinga na vidraça,
na gota de orvalho que cai.
Daqui pra frente, eu sigo meu caminho
e Lhe entrego todo meu afeto.
Você é mesmo meu amigo predileto!
Bom dia, Pai.


Flora Figueiredo

Semelhanças


















Somos a mistura proibida
por termos a essência parecida,
por pertencermos ao mesmo pecado
e nos confundirmos quando postos lado a lado.
Mas, polos positivos
que se contatados
queimarão o que é direito
e se desmancharão.
Números primos de perfeito resultado.
Somos só tendência,
programação.
E esses desejos não resolvidos,
safados,
pulsantes,
bandidos,
vão se amadurando conosco a cada instante,
só nos tornando cada vez mais parecidos.


Flora Figueiredo - In Florescência

Abandono





















A vida ficou de repente
apática e desinteressada,
como se pretendesse descer na próxima parada.
Abafou os sons que costumava ouvir,
com medo de sentir saudade.
Baixou os toldos sobre a claridade,
para que o brilho do dia
não arranhasse a solidão.
Preferia permanecer quieta e sombria.
Guardou o açúcar como se quisesse
impedir o doce de mesclar o fel que, porventura, houvesse.
Sensações e sentimentos devidamente amordaçados,
rabiscou no papel seu breve recado:
"Saí para almoço.
Pretendo voltar, não sei se posso.
Seja, por favor, condescendente.
Quando o amor não está,
é costume da vida suspender o expediente."



Flora Figueiredo

Alma























Acho que os sentimentos têm células,
pois as sinto remexer,
intensas libélulas
a se fundir e a se desprender.

Alimentam-se de lágrimas e risos,
sempre crescem.
A cada instante que vivo,
mais então se expandem,
mais amadurecem.

Seu núcleo me pede pulsações
e quando me perco pelas emoções,
ele se avoluma e me maltrata.
Chega a ser tão grande seu efeito,
que rompe o peito,sangra
e se dilata.

Ah minhas células emotivas!
Quero-as em mim
coladas e cativas
fazendo-me viver intensamente.
Eu as batizo com o nome de "alma"
e as responsabilizo a viver eternamente
ainda quando o coração se acalma
e põe-se a dormir
irreversivelmente.


Flora Figueiredo, em "Florescência". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987.

Cola-tudo



























Encontrei um verso fraturado,
caído na esquina da rua do lado,
Tinha se perdido de um coração saudoso
que passava por ali, desiludido.


Coloquei-o de pé,
emendei seus pedaços,
refiz suas linhas,
retoquei seus traços.


Afaguei suas dores como se fossem minhas.
Agora, novamente estruturado,
espero que ele não olhe para trás
e não misture sonhos
com amargas falências do passado;


que saiba enfeitar a estrela lá na frente
com fartos laços de rima colorida.
pois é para o futuro que caminham
todos os passos apressados desta vida.


Flora Figueiredo

Escapismo





















Tristezas podem ficar caladas.
É só não puxar por elas.
Enquanto dormem,
abastecemos a barca de sonhos,
aquietamos o rio das indagações.
Quando a tristeza acordar pálida
do pó de seus porões,
é nossa vez de descansar.
O ponteiro do desencontro torna possível
navegar.


Flora Figueiredo

O Tempo seca o Amor

O tempo seca a beleza, seca o amor, seca as palavras. Deixa tudo solto, leve, desunido para sempre como as areias nas águas. O tempo seca a ...

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