Abro a porta
Desce a noite. Vem o vento.
Vêm as promessas da chuva,
formando em meu pensamento
um círculo que não sei.
Vem o corvo com sua asa,
pairando sobre um telhado.
E a noite cresce de um lado,
e o vento corta o altiplano —
frio, enorme, todo gume.
Sem saber por que me afano
(sem ter motivo para isto),
velho de mágoa e pretume,
de motivo e explicação,
abro a porta para Jano.
A noite é quase e não tarda:
O vento é lâmina e vem
(sem bulício, sem atoarda,
mas crescendo na paisagem).
Vem o corvo e pousa, duro,
sobre uma aresta da torre,
à espera de algum futuro,
no vento que já escurece.
(Dentro em pouco há de ser noite —
aqui e em todo o altiplano.)
Incapaz de fogo e prece,
órfão do ontem derrotado
e do agora inadmissível,
vou ao mundo, sem um plano.
Há coisa e prêmio lá fora.
Há estradas e sentimento.
Há o desejo de uma curva
que não cabe no momento:
de uma asa (que não aquela,
com o seu tardio grasnido),
lá fazendo algum sentido.
Há o desejo, como um arco,
e a vontade de escapada.
(Mas eu, sem um portulano,
não sei por onde passar:
paro antes mesmo da entrada —
paro, exausto de limiares,
como quem teme algum dano.)
Vem o vento, desce a noite.
Cai uma estrela no caos.
E a treva, com o seu açoite,
é um corvo pousado lá.
E o frio cobre a paisagem,
desdenhando aldrava e muro:
e há um espinho no futuro
de que o vento não se esquece.
(Quem vela sobre o altiplano?)
E tudo é como parece:
tudo é tal como se mostra,
na noite, que vem descendo
e abrindo, sobre o silêncio,
sua asa, como um arcano.
Cresce o vento em pleno escuro.
Vem de longe, num aviso,
para o circo do futuro,
como promessa de chuva.
Há um corvo pousado na hora,
e uma poeira no ar parado.
E a noite avança de um lado,
com o vento, sobre o altiplano
(frio, imenso, todo gume).
Sem saber por que me afano
(por que me toca uma urgência),
velho de mágoa e pretume,
numa inércia da razão,
abro a porta para Jano.
Renato Suttana
Assinar:
Postar comentários (Atom)
O Tempo seca o Amor
O tempo seca a beleza, seca o amor, seca as palavras. Deixa tudo solto, leve, desunido para sempre como as areias nas águas. O tempo seca a ...
Nos últimos 30 dias.
-
Gargalha, ri, num riso de tormenta, como um palhaço, que desengonçado, nervoso, ri, num riso absurdo, inflado de um...
-
"O Fluminense cai pra Terceira Divisão. Dito assim, em breve oração, soa como um fiapo de conversa. Papo de segunda-f...
-
Em todo entardecer escuto passos, na estrada que se achega ao meu portão; embora haja penumbra, vejo os traços dos a...
-
Os navios existem e existe o teu rosto encostado ao rosto dos navios. Sem nenhum destino flutuam nas cidades, partem no...
-
Vivo sempre a seguir-te em toda a parte A todo o tempo, a todo o transe e em tudo; E tanto mais me esforço em procurar-t...
-
Minha esperança perdeu seu nome... Fechei meu sonho, para chamá-la. A tristeza transfigurou-me como o luar que entra num...
-
Que hei de fazer, se não me encontro, se há tanto tempo estou perdido? É o mar, meu pai: é o mar! E o mar está crescendo...
-
Se esvai o dia comum nada especial aconteceu tenho as mesmas cicatrizes, sobrou um sorriso cansado, um distante abr...
-
Oh! A resignação das coisas paradas, grávidas de silencio, reverentes, em sua geometria sem jactância! A placidez d...
-
Aqui diante de mim, eu, pecador, me confesso de ser assim como sou. Me confesso o bom e o mau que vão ao leme da nau n...

Nenhum comentário:
Postar um comentário