Para mulher que fica






















Cantar a mulher que passa
É fácil...
Eu canto a mulher que fica
Pois no teu amor esqueço minhas tristezas.


Ontem, te amei com fome antiga.
Avistei tua carne como novidade
Teus seios tão poucos
Enchem minha visão.


Tua nudez uma pintura sem esboço
São absorvidos para minha memória
Devagar caminho por teu corpo
Não tenho pressa...  Revivo estórias!


Não uso mapas para achar teus segredos
Subo e desço montanhas e vales
E derramo desejos.
Com gosto degusto o gosto do teu beijo
E encontro paz nos teus Andes.


Henrique Rodrigues Soares

20/01/2012.

Porque o fim de um caminho



















Porque o fim de um caminho sempre me entregou
o limiar de outro caminho,
o verde de um campo ou de um corpo adolescente,
espero que regresse à minha voz
a luz que no primeiro dia a fecundou
e a terra que é o contorno dessa luz.
Porque espero ver crescer minhas mãos dessa terra
e de minhas mãos a água necessária à minha sede,
ergo de mim a noite residual do que vivi
e canto,
canto provocando a madrugada.

Porque outros entoarão meu requiem e outros cerrarão
minha pálpebras para defender meus olhos de suas lágrimas,
deixo essa glória aos outros
- e exalto o meu nascimento
e cada dia em que renasço e procuro
a boca ou o fruto onde se reflictam os meus lábios.

Porque, harmonizando-se no sangue o fogo e a água,
eu sou o fogo e a água:
por mim os cadáveres e quanto é feito de matéria dos cadáveres
libertar-se-ão em chamas, serão claridade
e chegarão a pão pela dádiva das cinzas,
a última dádiva, a total.


José Bento, em "Rosa do Mundo-2001 Poemas para o Futuro".

ABRAÇO GRÁTIS

















Que seja o abraço
a quebra do gelo
a expressão gratuita
de um afeto comedido

Comutatividade da energia
celebrada em um encontro
Colisão frontal da troca
que não traz abalo

E que seja belo
atitude plena
provocar o abraço

Que seja abrigo
uma espécie de caverna
e atenue nosso inverno
e que venha forte, farto
e que não haja abraço morno

A conexão mais fácil que se considere
anterior ao wi-fi, bluetooth ou SMS
Injeção de ânimo, não se cansa
pra que a esperança seja a casa do abraço


Alan Salgueiro








Velho Tema














Só a leve esperança, em toda a vida,
Disfarça a pena de viver, mais nada;
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.

Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.


Vicente de Carvalho

Entre a fé e a ansiedade






















A dor de um choro contido
Lágrimas internas pela alma
Sonhos sólidos agora derretidos
E o momento pede calma


O eu atônito e disperso
Esperando ser iluminado
Sair do sonho imerso
Que tem me esfacelado


A cabeça tonta dói
Sem entender o que esperar
A dúvida afronta, corrói.
Deus manda confiar


Fé pequena de mostarda
Acredita com medo de afundar
A hora que já tarda
Não posso me esgotar.


Henrique Rodrigues Soares
02/08/2011.
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Poetas...























Ai almas dos poetas
Não as entende ninguém,
São almas de violeta
Que são poetas também.

Andam perdidas na vida,
Como estrelas no ar;
Sentem o vento gemer
Ouvem as rosas chorar!

Só quem embala no peito
Dores amargas secretas
É que em noites de luar
Pode entender os poetas.

E eu que arrasto amarguras
Que nunca arrastou ninguém
Tenho alma para sentir
A dos poetas também!


Florbela Espanca

Escolha de túmulo























Onde os cavalos do sono
batem cascos matinais.

Onde o mundo se entreabre
em casa, pomar e galo.

Onde ao espelho duplicam-se
as anêmonas do pranto.
Onde um lúcido menino
propõe uma nova infância.

Ali repousa o poeta.

Ali um voo termina,
outro voo se inicia.

José Paulo Paes, em "Prosas Seguidas de Odes Mínimas".

Fim-do-começo-do-fundo























Deixo-me
tenho os passos apressados
meto-me para o fim do mundo
e chego ao começo de mim

Bebo-me
até esvaziar-se todo o líquido
eu sou um fim que espera a desiludida
verdade do fundo dos copos

(ó quão inútil é o fim ou o fundo
das coisas e do âmago, quando
o ser temeroso se nos impõe
seu vulto fantasmagórico).


Rogério Generoso, em "Noumenon". 2010.

Bolor


















Os versos
que te digam
a pobreza que somos
o bolor
nas paredes
deste quarto deserto,
os rostos a apagar-se
no frémito
do espelho
e o leito desmanchado
o peito aberto
a que chamaste
amor


Carlos de Oliveira. Trabalho poético. Lisboa: Assírio & Alvim, 2003.

Ao Amanhecer
















Pela manhã acordar sem rotina
Andar sem sair do lugar
O vazio de uma incerta sina
Preocupação sem motivo encontrar

Como correr atrás dos pombos
Assustamos os nossos próprios medos
Cicatrizes que ficam dos tombos
São estórias de antigos segredos


Cabelos brancos raridade
O sol não aquece meus dias
A idade foi coberta de tinta
Me dê um instante de alegria.


Henrique Rodrigues Soares
15/07/2011.


Sonhadores













Almas – da natureza a execrada exceção –
Em que o Sonho ateou seu nefasto clarão,
Vós que, presas à terra, a asa do pensamento
Sentis sempre a voar, em livre movimento,
Para o distante azul dos mundos ideais,
Onde o bem que buscais não existiu jamais;
Vós que abris, procurando o mistério das coisas,
Ou do futuro os véus, ou do passado as lousas,
Vendo bem quanto é vão o que hoje se ergue, e só
Se ergueu para amanhã se desfazer em pó;

Vós, a quem acenou a dolosa esperança
Co’a ventura que atrai e que nunca se alcança,
E que, em sede, ao roçar pela fonte do amor
O lábio, a água sorveis do pântano da dor;
Vós todas pela terra arrastastes os dias,
Deixando após, no chão, um rastro de agonias,
E fazendo vibrar, no espaço, em torno a nós,
A vossa revoltada ou suplicante voz,
Que ora em murmúrios geme, ora em blasfêmias grita
Da vida que heis vivido a miséria infinita!



Júlia Cortines, em "Vibrações”. Rio de Janeiro: Laemmert & C. – Editores, 1905.

Conta-gotas




















Quando a dor fala mais alto que a voz
E as forças insuficientes para caminhar
Quando somente choras quando fica a sós
O interior sufocado precisa gritar


Aguarda desesperadamente uma porta
Se abrir como esperança para sonhar
Desastroso acordar sem resposta
E cansativo este tal de esperar


Os minutos que sucedem após
Contados com conta-gotas fiel
São como perfeito e vil algoz
Tu fita os olhos no céu


Como esperando repentina amostra
De um toque milagroso divino
Depositando uma única aposta
Naquele que te ama desde menino.


Henrique Rodrigues Soares


Aurora
















A poesia não é voz — é uma inflexão.
Dizer, diz tudo a prosa. No verso
nada se acrescenta a nada, somente
um jeito impalpável dá figura
ao sonho de cada um, expectativa
das formas por achar. No verso nasce
à palavra uma verdade que não acha
entre os escombros da prosa o seu caminho.
E aos homens um sentido que não há
nos gestos nem nas coisas:

voo sem pássaro dentro.


Adolfo Casais Monteiro. "Vôo sem pássaro dentro". em:_____. Poesias completas. Lisboa: Casa da Moeda, 1993.

O nome do mistério
















Eu poderia dizer
Que agora é tarde e o nosso amor é outro
Que o nosso tempo agora
é o fim de tudo
e só nos resta alguns papéis
para rasgar
eu poderia dizer que agora é tarde e o nosso amor é morto
que o nosso amor agora é o fim do mundo
e não sobra nada mais
para esperar
eu poderia dizer mas eu não digo
o nome do mistério, o nome disso
e vou por mim aqui silencifrado
de volta ao lar, meu bem querendo ir


Torquato Neto, em "Os últimos dias de paupéria". [Organização Wally Salomão e Ana Maria Silva de Araújo Duarte]. São Paulo: Max Limonad, 1982. (musicado por Geraldo Azevedo).

Julho
















1931
Quando sobre ela se abate,
Faz-se de um triste cor de rosa
A bela copa.

Destrói barrancas, bebe os rios,
Tritura rochas, fulgura,
É obstinada sua fúria, implacável.
Dispersa o espaço, desfaz fronteiras,
É o verão e pelo tempo afora
Com seu olhar calcinante
Despindo vai da terra o esqueleto.


Giuseppe Ungaretti – Geraldo Holanda Cavalcanti



Di Luglio

1931
Quando su ci si butta lei,
Si fa d’un triste colore di rosa
Il bel fogliame.

Strugge forre, beve fiumi,
Macina scogli, splende,
È furia che s’ostina, è implacabile,
Sparge spazio, acceca mete,
È l’estate e nei secoli
Con i suoi occhi calcinanti
Va della terra spogliando lo scheletro.


RB Poesia Estrangeira – Revista da Academia Brasileira de Letras, nº 49, p. 12-13.

O Tempo seca o Amor

O tempo seca a beleza, seca o amor, seca as palavras. Deixa tudo solto, leve, desunido para sempre como as areias nas águas. O tempo seca a ...

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