É na areia que está o meu carnaval...

















É na areia que está o meu carnaval,
é no mar que estão as serpentinas,
brancas ondas a quebrar na praia.
Aqui encontro a magia da poesia,
vestindo fantasia que a luz do sol irradia.

No meu carnaval não tem máscaras!
Tem rostos, tem corpos bronzeados
desfilando naturais alegorias na praia,
que vem do mar, que vem da areia
desfilando como netunos e sereias.

É a palavra que brinca na praia,
no balanço das ondas faz o samba enredo,
o carro abre alas é um navio pirata
assaltando um coração enfeitado
por poesia que na areia virou confete.


Sônia Schmorantz

http://schsonia.blogspot.com.br/

Porque





















Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.


Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.


Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.


Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.



Sophia de Mello Breyner Andresen

Soneto de Carnaval















Distante o meu amor, se me afigura
O amor como um patético tormento
Pensar nele é morrer de desventura
Não pensar é matar meu pensamento.

Seu mais doce desejo se amargura
Todo o instante perdido é um sofrimento
Cada beijo lembrado é uma tortura
Um ciúme do próprio ciumento.

E vivemos partindo, ela de mim
E eu dela, enquanto breves vão-se os anos
Para a grande partida que há no fim

De toda a vida e todo o amor humanos:
Mas tranquila ela sabe, e eu sei tranquilo
Que se um fica o outro parte a redimi-lo.

Vinicius de Moraes, in 'Antologia Poética'

Evolução

















Fui rocha em tempo, e fui no mundo antigo
tronco ou ramo na incógnita floresta...
Onda, espumei, quebrando-me na aresta
Do granito, antiquíssimo inimigo...

Rugi, fera talvez, buscando abrigo
Na caverna que ensombra urze e giesta;
O, monstro primitivo, ergui a testa
No limoso paúl, glauco pascigo...

Hoje sou homem, e na sombra enorme
Vejo, a meus pés, a escada multiforme,
Que desce, em espirais, da imensidade...

Interrogo o infinito e às vezes choro...
Mas estendendo as mãos no vácuo, adoro
E aspiro unicamente à liberdade.

Antero de Quental, in "Sonetos"

Em certo lugar do país
se reúne a Academia do Poeta Infeliz.

Severos juízes da lira alheia,
sabem falar vazio de boca cheia.

Este não vale. A obra não fica.
Faz soneto, e metrifica.

E esse aqui, o que pretende?
Faz poesia, e o leitor entende!

Aquele jamais atingirá o paraíso.
Seu verso contém a blasfêmia e o riso.

Mais de três linhas é grave heresia,
pois há de ser breve a tal poesia.

E o poema, casto e complexo,
não deve exibir cenas de nexo.

Em coro a turma toda rosna
contra a mistura de poesia e prosa

Cachaça e chalaça, onde se viu?
Poesia é matéria de fino esmeril.

Poesia é coisa pura.
Com prosa ela emperra e não dura.

É como pimenta em doce de castanha.
Agride a vista e queima a entranha.

E em meio a gritos de gênio e de bis
cai no sono e do trono o Poeta Infeliz.


Antonio Carlos Secchin



A Hora da Partida























A hora da partida soa quando
Escurecem o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.
A hora da partida soa quando
As árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.

Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.


Sophia de Mello Breyner Andresen

Memória é lâmina
infindável
gume

submerso
na fenda de um
grito

reflexo
íntimo
na nítida
gota

i
n
q
u
i
e
t
a

no
sólido
riso de
vidro

Carlos Orfeu

SER E NÃO SER


Estranho contraste
o do que somos na vida.
A natureza em resgate
descreve atraente cenário

do que não somos na vida.
E na vontade de ser
entre desígnios de um viver
eu só seria o que não sou.

. . . página colorida
a mais vivaz e bonita
de um Belo Livro,
. . . por onde a tristeza nunca passou. . .


Alvina Tzovenos



achei as palavras
as manipulei
mas quando cresci
só desiludi
achei que era alguém
até que entendi:
o poema se faz
enquanto se faz.


Ellen Rose

















Debaixo do sol que seca o chão
E sob o luar mais belo que há
Se fazendo da terra, do calo na mão
E do calor da alma, que não pode esfriar
Assim vive um povo mais que bonito
Que de nada carece pra ser rico
De força maior que os cabras dos mitos
É o sertanejo que nunca parou de cantar.

Tô certa que não há, oxente, ó não
Um povo como esse que eu vi por lá
Nem um luar como esse do sertão
Nem terra mais seca que se possa pisar
Mas o matuto tá vendo água caindo
Arando, plantando, colhendo e sorrindo
Não é conto, senhores, tô garantindo
Tô vendo o sertão virar mar.

Vem pra fora, menino!
Vem ver a boa notícia chegar.
Olha todo esse verde, menino,
A chuva tá fazendo tudo brotar
Vem do jeito que está, menino...
Vem ver o sertão virar mar!


Ellen Rose

Meus olhos desertos
Buscam alívio
Na sede do poema.
Sede que embebe
Mares grávidos de sentidos.
O mundo pariu as areias
Do semi-árido passarinho
Voo-me por dentro
E sou sempre sem ninho.


Paula Beatriz Albuquerque

O temporal regou,
Gota por gota,
As distâncias que me abrigam.
Povoou de sentido
Os rios de minhas lacunas.
Brisa densa,
acolheu os aromas de minha ausência. Então pude ser água.
Varreu o barraco do morro
Inundou a rua precária,
mar de indigência cotidiana.
Gritos de variados matizes...
Mas a chuva em mim é silêncio.



Paula Beatriz Albuquerque.
(Foto: Bruno Gonzalez/Agência O Globo )











É a noite.
E tudo escava tudo
na língua ambígua que desliza
para o esquivo jogo.
Amargo corpo,
que de mim a mim se furta,
não recuso teu percurso
no hálito das pedras
que me existem em ti
- estéril dordo entre águas
estancadas.
O nada, o perto, o pouco,
não posso dividir
do que se espera o que me habita,
ao fazer fluir a via antiga
de um menino que mediu o lado impuro.
Operário do precário,
me limito nesse corpo amanhecido,
asa e gozo onde a morte mora.
Minha vida, mapeada e descumprida,
está pronta para o preço dessa hora.


Antonio Carlos Secchin

SAUDADE


A faca da saudade
cresce por dentro
lâmina de doída largura

_______________afiada
______________enquanto dura
_________________corta



Carlos Orfeu

ALMOÇO DE DOMINGO


Na escama de prata do domingo
um poema escrito
temperado com alho
cheiro-verde
cebolinha
alecrim

Repartem com garfos e facas
A fome
O alívio
A barriga cheia

Bocas apimentadas de sorrisos
sorrisos arrumados no outono

No outono bordado na toalha da mesa
no outono pintado nas flores dos pratos de porcelana
sujos de feijão

Famílias em círculo
entardecem memórias dissolvidas num auto-retrato.


Carlos Orfeu

O Tempo seca o Amor

O tempo seca a beleza, seca o amor, seca as palavras. Deixa tudo solto, leve, desunido para sempre como as areias nas águas. O tempo seca a ...

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