Trechos...parte 1
"...Não será a própria vida uma longa e desarrumada atividade dos bastidores para uma fugaz apoteose?...
...A conclusão que tiro é que a vida e a morte são heterogêneas, e que a vida não se pode tomar como um objeto de arte, música ou poema, como insinua o filósofo que diz que o homem é uma existência para a morte. Se a nossa vida fôsse um poema , a morte seria o têrmo. Se fôsse dança, o último passo do exausto dançarino mereceria o aplauso das galerias angélicas. Se alguma coisa tende impetuosamente para um têrmo, é a arte.(...) Na poesia, sim, a idéia de têrmo e de morte se casam. Cada poesia é uma boa morte. Um testamento novo. Uma vitoriosa agonia...
...Tentemos outras direções. A vida não é um poema; não tem a inteireza de um bailado; não se completa como a música. Mas será, quem sabe? uma coleção descontínua de momentos, com intervalos mais ou menos prolongados e mais ou menos insípidos. O conjunto será confuso, como as obras completas de um autor que tenha andado por caminhos diversos; mas os pedaços, os volumes, serão compreensíveis e razoáveis. Vem a morte e deixa um resto, como em gaveta de laborioso escritor que não teve tempo de rasgar seus abortos. Mas o que ficou, ficou....
...Mas, se é descontínua a vida, por que serei eu sempre o mesmo, por que a continuidade da consciência e a consciência da continuidade? Não vejo o nexo necessário entre essa acabrunhante mesmice e a estonteante diversidade dos momentos da vida....
(...)Quanto a não pensar, talvez exista um certo modo de não pensar na morte, digo na própria morte. Mas esses, que não pensam na morte, já a trazem consigo, recalcada, engolida, a comandar, como eminência parda, todos os atos desconexos da vida. Um medo difuso estará no seu sangue, morte dissolvida, morte contínua. E essa pessoa terá um medo profundo, pânico, irracional, de uma porção de coisas miúdas: terá medo de ficar sem dinheiro, medo de perder o prestígio,...
Trechos do livro Lições de Abismo - Gustavo Corção
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