Um Rosto
Apenas
uma coisa inteiramente transparente:
O céu, e por baixo dele a linha obscura do horizonte
nos teus olhos, que pude ver ainda
através de pálpebras semicerradas,
pestanas húmidas da geada matinal,
uma névoa de palavras murmuradas
num silêncio de hesitações.
Há quanto tempo?
Tudo isto?
Abro o armário onde o tempo antigo
se enche de bolor e fungos; limpo os papéis,
cartas que talvez nunca tenha lido até ao fim,
fotografias cuja cor desaparece,
substituindo os corpos por manchas vagas como aparições;
e sinto, eu próprio,
que uma parte da minha vida se apaga
com esses restos.
Nuno Júdice
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