Vá de Bike
























Quando te sentires preso
Quando lhe faltar a prosa
Quando lhe enxergar a rosa
Leve a liberdade na garupa

Vá onde achares longe
Onde houver uma ponte
que avance com o vento
em qualquer ponto do mundo

Quando faltar palco e público
pra ouvir o teu discurso
pra seguir no teu circuito
Faz da ciclovia tua própria carta

E escreva a cada curva
Faz do teu caderno o asfalto
Pinta a avenida turva
Se liberta e vá de bike


Alan Salgueiro

Soneto IV

























Doçura pródiga, por que gastas
Contigo mesma o legado de tua beleza?
A herança da natureza nada dá, porém cede,
E, sendo franca, empresta a quem for livre;

Depois, bela e tola, por que abusas
Da abundância que te é dada a ofertar?
Usurária sem proveito, por que usas
Um valor tão grande e, mesmo assim, não vives?

Lidando apenas contigo mesma,
Tu, a ti mesma, teu doce ser enganas;
Então, como, quando a natureza te chama para que vás,
Que espólios aceitáveis deixarás?

Tua beleza intocada contigo deve ser enterrada,
Pois, ao ser usada, tornar-te-á sua executada.


Sonnets IV

Unthrifty loveliness why dost thou spend,
Upon thy self thy beauty's legacy?
Nature's bequest gives nothing but doth lend,
And being frank she lends to those are free:

Then beauteous niggard why dost thou abuse,
The bounteous largess given thee to give?
Profitless usurer why dost thou use
So great a sum of sums yet canst not live?

For having traffic with thy self alone,
Thou of thy self thy sweet self dost deceive,
Then how when nature calls thee to be gone,

What acceptable audit canst thou leave?
Thy unused beauty must be tombed with thee,
Which used lives th' executor to be.



William Shakespeare - Tradução de Thereza Christina Rocque da Motta









chove no imenso
cinza
-espelhos-

na colisão com o chão
des-
pedaçam-se
cortam

o
sol
do
sol
o

e enjaulam
o céu

Carlos Orfeu

Menino























No colo da mãe
a criança vai e vem
vem e vai
balança.
Nos olhos do pai
nos olhos da mãe
vem e vai
vai e vem
a esperança.

Ao sonhado
futuro
sorri a mãe
sorri o pai.
Maravilhado
o rosto puro
da criança
vai e vem
vem e vai
balança.

De seio a seio
a criança
em seu vogar
ao meio
do colo-berço
balança.

Balança
como o rimar
de um verso
de esperança.

Depois quando
com o tempo
a criança
vem crescendo
vai a esperança
minguando.
E ao acabar-se de vez
fica a exacta medida
da vida
de um português.

Criança
portuguesa
da esperança
na vida
faz certeza
conseguida.
Só nossa vontade
alcança
da esperança
humana realidade.

Manuel da Fonseca, in "Poemas para Adriano"

Soneto da Enseada














Sou sempre o que está além de mim
como a ponte de Brooklyn ao pôr-do-sol.
Sou o peixe buscado pelo anzol
e o caracol imóvel no jardim.

De mim mesmo me parto, qual navio,
e sou tudo o que vive além de mim:
o barulho da noite e o cheiro de jasmim
que corre entre as estrelas como um rio.

Quem atravessa a ponte logo aprende
que a vida é simplesmente a travessia
entre um aquém e um além que são dois nadas.

Na madrugada escura a luz se acende.
Que luz? De que vigília ou de que dia?
De que barco ancorado na enseada?


Lêdo Ivo

Lugar




















É aqui onde me estripam. Lugar
Obsessivo sussurro de chegar. 
Aqui. À hemorragia fremendo
das palmeiras com as vísceras
a leve matéria verde da linguagem.
Às insondáveis monções, extáticas,
sobre a nervura dos barcos.
Hoje, nenhuma massala te diz
os seios no poema. A terra
Porque é aqui onde me estripam
e tarde se confunde a manhã
nas gengivas da noite. O lugar.


Luís Carlos Patraquim

Mea Culpa














O cuidado com o costume
Apodrecido que cheira mal como estrume
O cuidado com mortal tédio
Para o qual não existem mais remédios


Enterrei lágrimas vivas
No rosto congelado pela brisa
Toquei-me nas minhas trevas
Com peso e sem reservas


E expus o meu pecado
Com a humanidade de seus significados
E construí suaves desculpas
Para calar-me as culpas.


Henrique Rodrigues Soares – Canibais Urbanos


O país de uma nota só















Não pretendo nada,
nem flores, louvores, triunfos.
nada de nada.

Somente um protesto,
uma brecha no muro,
e fazer ecoar,
com voz surda que seja,
e sem outro valor,
o que se esconde no peito,
no fundo da alma
de milhões de sufocados.
Algo por onde possa filtrar o pensamento,
a idéia que puseram no cárcere.

A passagem subiu,
o leite acabou,
a criança morreu,
a carne sumiu,
o IPM prendeu,
o DOPS torturou,
o deputado cedeu,
a linha dura vetou,
a censura proibiu,
o governo entregou,
o desemprego cresceu,
a carestia aumentou,
o Nordeste encolheu,
o país resvalou.

Tudo dó,
tudo dó,
tudo dó...

E em todo o país
repercute o tom
de uma nota só...
de uma nota só...


Carlos Marighella

Genealogia



















O tempo se embrenhou
em raízes
na terra úmida
húmus e gens
desconhecida escuridão
numa dança
de rodopios lentos
de tramas, tranças,
caracteres, traços, gestos,
jeitos, rostos, gostos,
elos e ecos
avôs — vós — vós
avós - vós — vós — vós
vozes e vozes
no burburinho inaudível
de estranhas entranhas.
Passado longínquo.


Maria Helena Latini

Canto Grande
















Não tenho mais canções de amor.
Joguei tudo pela janela.
Em companhia da linguagem
fiquei, e o mundo se elucida.

Do mar guardei a melhor onda
que é menos móvel que o amor.
E da vida, guardei a dor
de todos os que estão sofrendo.

Sou um homem que perdeu tudo
mas criou a realidade,
fogueira de imagens, depósito
de coisas que jamais explodem.

De tudo quero o essencial:
o aqueduto de uma cidade,
rodovia do litoral,
o refluxo de uma palavra.

Longe dos céus, mesmo dos próximos,
e perto dos confins da terra,
aqui estou. Minha canção
enfrenta o inverno, é de concreto.

Meu coração está batendo
sua canção de amor maior.
Bate por toda a humanidade,
em verdade não estou só.

Posso agora comunicar-me
e sei que o mundo é muito grande.
Pela mão, levam-me as palavras
a geografias absolutas.


Lêdo Ivo

Alagados



















Todo dia o sol da manhã vem e lhes desafia
Traz do sonho pro mundo, quem já não o queria
Palafitas, trapiches, farrapos
Filhos da mesma agonia
E a cidade que tem braços abertos num cartão postal
Com os punhos fechados na vida real
Lhe nega oportunidades
Mostra a face dura do mal


Alagados, Trenchtown, Favela da Maré
A esperança não vem do mar
Nem das antenas de TV
A arte de viver da fé
Só não se sabe fé em quê
A arte de viver da fé
Só não se sabe fé em quê



Herbert Vianna - Paralamas do Sucesso

Liberdade


















Não ficarei tão só no campo da arte,
e, ânimo firme, sobranceiro e forte,
tudo farei por ti para exaltar-te,
serenamente, alheio à própria sorte.


Para que eu possa um dia contemplar-te
dominadora, em férvido transporte,
direi que és bela e pura em toda parte,
por maior risco em que essa audácia importe.

Queira-te eu tanto, e de tal modo em suma,
que não exista força humana alguma
que esta paixão embriagadora dome.

E que eu por ti, se torturado for,
possa feliz, indiferente à dor,
morrer sorrindo a murmurar teu nome.


Carlos Marighella - São Paulo, Presídio Especial, 1939.

Lisura























Entras na morte,
como se entra em casa,
desvestindo a carne,
pondo teus chinelos
e pijama velho.

Entras na morte,
como alguém que parte
para uma viagem:
não se sabe o norte
mas começa agora.

Entras na morte,
sem escuros,
sem punhais ocultos
sob o teu orgulho.

Entras na morte,
limpo
de cuidados breves;
como alguém que dorme
na varanda enorme,
entras na morte.


Carlos Nejar

Noturno























Somos metáforas
Tão blindadas
quanto as palavras
nos escondendo
sob poemas

Fora, habitamos os gritos
constantes
de guerra ou dor

Quase seríamos nada
não fosse alguma erupção
o deslizar das horas
acendendo a pele
Um beijo na boca -

como se o arcanjo
sobre o telhado
nos garantisse
para sempre
esta noite


Alberto Bresciani

A casa























Sei dos filhos
pelo modo como ocupam a casa:
uns buscam os recantos,
outros existem à janela.

A uns satisfaz uma sombra,
a outros nem o mundo basta.
Uns batem com a porta,
outros hesitam como se não houvesse saída.

Raras vezes sou pai.
Sou sempre todos os meus filhos,
sou a mão indecisa no fecho,
sou a noite passada entre relógio e escuro.

Em mim ecoa a voz
que, à entrada, se anuncia: cheguei!
E eu sorrio, de resposta: chegou?
Mas se nunca ninguém partiu…

E tanto em mim
demoram as esperas
que me fui trocando por soalho
e me converti em sonolenta janela.

Agora, eu mesmo sou a casa,
casa infatigável casa
a que meus filhos
eternamente regressam.


Mia Couto, em “Tradutor de chuvas”. Lisboa: Editorial Caminho, 2011.

O Tempo seca o Amor

O tempo seca a beleza, seca o amor, seca as palavras. Deixa tudo solto, leve, desunido para sempre como as areias nas águas. O tempo seca a ...

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