Teus dedos piano
Navegavam em meu rosto
Simbolavam em meus cachos,
Cordas de contrabaixo

Teus lábios flauta
Me sopravam segredos
Sabor de Violoncelo.
Respirava teu orvalho sustenido
que me fazia gargalhar pela manhã.
Flutuava com vestido de idílio
para celebrar os bosques com Pã.

Chegavas de mansinho
E pousavas, passarinho, dentro dos meus olhos
como se o mundo tivesse mudado de lugar
e tua alma só tocasse esse órgão.

Voaste para junto do longe
Nas alturas de meu amparo.
Com a luz do sol embebida
e a pele dourada
Cravei minha boca na tua língua
"ouço o som de tua saliva"


Paula Beatriz Albuquerque

Vísceras vagam pelas vagas
poéticas
do palco do pensamento,
humana ficção.
Simultaneamente quero,
sinto, sofro, sonho.
E então fujo
para o miolo do mundo.
Voo para além dos muros
Silenciosos das liberdades que não escolhi.
Densa, condenso.
Planto gotas de chuvas
no árido de mim
no árido cálido
deserto entreaberto
dos retornos de mim.
Penso
Enlouqueço
Renasço
Banhada de grafite
Na pele do meu papel.


Paula Beatriz Albuquerque

Sou da cor da Noite
couraça
luta
asa
palavra

Escrevo nas pedras
sangue, pele, ossos
aos meus irmãos e irmãs

Ainda sinto os algozes dos Séculos
nas cicatrizes da alma

Fortaleço-me Trovão
orgulhosamente Negro


Carlos Orfeu

Do sangue dos seios da cabocla
nasceram os rios como crianças
correndo no vasto dorso do mundo

Crianças de verdes veias
veias que viraram veredas
na pele dos homens que aprenderam a liberdade

do canto colossal das águas


Carlos Orfeu

Poeminha em círculo

Wassily Kandinsky

... A direção e o sentido
O sentido e a razão
A razão e a emoção
A emoção e a consciência
A consciência e a ação
A ação e a palavra
A palavra e a vida
A vida e o amor
O amor e o próximo
O próximo e eu
Eu e a caminhada
A caminhada e a direção
A direção e o sentido
O sentido e a razão
A razão e a emoção
A emoção e a consciência
A consciência e a ação
A ação e a palavra
A palavra e a vida
A vida e o amor
O amor e o próximo
O próximo e eu
Eu e a caminhada
A caminhada e a direção
A direção e o sentido
O sentido e a razão...


Ellen Rose



Antes depois do que nunca.
Antes eles do que nós.
Do que quem dispersa, antes quem junta.
Do que à água funda,
antes aos faróis.

Antes muito do que pouco.
Antes pouco do que nada.
Do que preso, antes solto.
Do que são, antes louco.
Antes caneta do que espada.

Antes rico do que pobre.
Antes pobre do que infeliz.
Do que indigno, antes nobre.
Antes amigo do que esnobe.
Do que "farei", antes "eu fiz".

Antes à mostra do que escondido.
Antes nossos do que meus.
Antes sarado do que ferido.
Antes ferido do que superprotegido.
Do que a nós, antes ao nosso Deus.

Antes amar do que ferir.
Antes amar do que julgar.
Antes amar do que diminuir.
Antes amar do que fingir.
Antes amar, antes amar.

Antes "de nada" do que "desculpa".
Antes "desculpa" do que calar.
Do que a rendição, antes a luta.
Antes sábia do que culta.
Antes ouvir do que falar.

Antes uma jabuticaba no chão,
do que duas jacas brotando.
Antes Sol do que verão.
Antes uma sobriedade na mão
do que duas ilusões voando.


Ellen Rose







VAGÃO DESTEMPERADO



















Vagão destemperado
A mão mira no teto
detectando a possibilidade
de surgir algum vento
como se clamasse aos céus
no seu apelo


A mochila junto ao corpo
Um assopro meio inútil no pescoço
O suor da pele sem sensualidade
sugere meio nojo
parece até que é cola
grudando o sufoco


A gota pára e brilha no meio da testa
Os testes de arrefecimento de novo falharam
O sol faz companhia ao nosso sofrimento
A roupa já responde com umas marcas d'água


O inferno dá acesso ante a superfície
Me lembro até da cela dos presidiários
Toalha enxuga o rosto dos meus desalentos
A lentidão cozinha até os meus neurônios
Demônios que concedem o transporte público
Queria o alívio só por um momento


Têmporas de cachoeira
Sal nem é de lágrima
Minhas intempéries
de mobilidade



Alan Salgueiro

DE CARAMBAS E CARACÓIS !?



















Fui criando estrofes desde criança
Depositando perguntas numa urna
Guardando-as dentro de um cofre


Pois perguntar não ofende:
É Deus quem defende ou garante
que a minha questão não se finda?
que não vai haver desavença?
Suas chaves desvendam segredos?
As minhas são chaves de fenda


Por outro lado tem bastão que brada
que nunca tem sua razão quebrada
que briga, rege, luta, manda e também pontua


Já basta, exclamação!
Parece uma batuta!
Dê forma à curva!
Nem tudo é reto!
Nem tudo é alvo,
seu implacável!


Questão que espezinha
tem gentileza gráfica
Tataraneta do método socrático
Logo, interrogo


Fisgo da pergunta uma linha torta
Reparo na forma dos seus anzóis
Pesco uma nova muda
As minhas dúvidas
Os meus carambas e caracóis



Alan Salgueiro

Biografia























O poema vai nascendo
num passo que desafia:
numa hora eu já o levo,
outra vez ele me guia.

O poema vai nascendo,
mas seu corpo é prematuro,
letra lenta que incendeia
com a carícia de um murro.

O poema vai nascendo
sem mão ou mãe que o sustente,
e perverso me contradiz
insuportavelmente.

Jorro que engole e segura
o pedaço duro do grito,
o poema vai nascendo,
pombo de pluma e granito.


Antonio Carlos Secchin

Passagem do Ano


















O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o
[ calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória,
[ doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o
[ clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...

Recebe com simplicidade este presente do
[ acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos
[ séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras
[ espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles... e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.



Carlos Drummond de Andrade

O Tempo


Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um individuo genial.
Industrializou a esperança,
fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar
e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação
e tudo começa outra vez, com outro número
e outra vontade de acreditar
que daqui para diante tudo vai ser diferente.

Para você, desejo o sonho realizado,
o amor esperado,
a esperança renovada.

Para você, desejo todas as cores desta vida,
todas as alegrias que puder sorrir,
todas as músicas que puder emocionar.

Para você, neste novo ano,
desejo que os amigos sejam mais cúmplices,
que sua família seja mais unida,
que sua vida seja mais bem vivida.

Gostaria de lhe desejar tantas coisas...
Mas nada seria suficiente...

Então desejo apenas que você tenha muitos desejos,
desejos grandes.

E que eles possam mover você a cada minuto
ao rumo da sua felicidade.


Carlos Drummond de Andrade

A Dança



















Um gesto de amor,
dois poemas e a saudade
um só coração
teu corpo controlando
as batidas do meu coração!
Toco a sua mão
sinto o teu abraço
e despertamos
do passado
na dança sem canção
eu, você e minha solidão!

Reggina Moon
Recanto das Letras - Código do texto: T5063928

Poeta guardou as asas
Entendeu aquele tempo
Que o véu do silêncio nos cala.
Não forçou sua voz
Em dicotomias
Tampouco impôs aos outros
Os vendavais de sua vaidade.
É o tempo do morro:
existir pelo não-dito dos versos, deitando vida ao papel, sangrado o pulso de sua mal-traçada
e engenhosa sintaxe
no manto da escrita,
Onde os olhos abertos,
mas cegos
não enxergam vida
até que a fúria de sua voz
Esteja enfim renascida



Paula Beatriz Albuquerque

(Sobre uma indisposição repentina de falar poesias em público)
Imagem: Poeta Mauro Mota na Praça do sebo bairro de Santo Antônio CREDITO Carlos Augusto.

A Queimada


Meu nobre perdigueiro! vem comigo.
Vamos a sós, meu corajoso amigo,
Pelos ermos vagar!
Vamos lá dos gerais, que o vento açoita,
Dos verdes capinais n'agreste moita
A perdiz levantar!...

Mas não!... Pousa a cabeça em meus joelhos...
Aqui, meu cão!... Já de listrões vermelhos
O céu se iluminou.
Eis súbito da barra do ocidente,
Doudo, rubro, veloz, incandescente,
O incêndio que acordou!

A floresta rugindo as comas curva...
As asas foscas o gavião recurva,
Espantado a gritar.
O estampido estupendo das queimadas
Se enrola de quebradas em quebradas,
Galopando no ar.

E a chama lavra qual jibóia informe,
Que, no espaço vibrando a cauda enorme,
Ferra os dentes no chão...
Nas rubras roscas estortega as matas...,
Que espadanam o sangue das cascatas
Do roto coração!...

O incêndio — leão ruivo, ensangüentado,
A juba, a crina atira desgrenhado
Aos pampeiros dos céus!...
Travou-se o pugilato... e o cedro tomba...
Queimado..., retorcendo na hecatomba
Os braços para Deus.

A queimada! A queimada é uma fornalha!
A irara — pula; o cascavel — chocalha...
Raiva, espuma o tapir!
...E às vezes sobre o cume de um rochedo
A corça e o tigre — náufragos do medo —
Vão trêmulos se unir!

Então passa-se ali um drama augusto...
N'último ramo do pau-d'arco adusto
O jaguar se abrigou...
Mas rubro é o céu... Recresce o fogo em mares...
E após... tombam as selvas seculares...
E tudo se acabou!...

Castro Alves

Em homenagem à minha esposa que amava recitar esta poesia na sua infância.

Assentada

















Chega a esta casa
sem prazo ou contrato.
Faze de pousada
as salas e quartos.
Os nossos arreios
ninguém os desata
com ódio e receios.



O tempo não sobe
nas suas paredes;
secou como um frio
nos beirais da sede;
calou-se nos mapas,
na plácida aurora,
nos pensos retratos.



Entra nesta casa
que é tua e de todos,
há muito deixada
aberta aos assombros.



Entra nesta casa
tão vasta que é o mundo,
pequena aos enganos,
perdida, encontrada.
Os dias, os anos
são palmos de nada.



Carlos Nejar - Antologia Poética

O Tempo seca o Amor

O tempo seca a beleza, seca o amor, seca as palavras. Deixa tudo solto, leve, desunido para sempre como as areias nas águas. O tempo seca a ...

Nos últimos 30 dias.