A gaita

O menino e a gaita - Cândido Portinari


























A gaita hoje está louca de amargura:
geme e chora como um coração partido
nas mãos morenas do gaiteiro.

Dói uma dor profunda em seu gemido.

Quando a gaita se abre toda,
o homem parece crucificado,
implorativo, doloroso...
Depois se encurva corcoveia ondula,
vai-vem!
Lembra o mar!
Lembra tudo o que é cruciante na tortura de gritar!

Cordeona trêmula,
turva de raiva contida,
cheia de humana amarugem,
há um gemido de trova em teu soluço,
há um soluço de amor em teu gemido...


Augusto Meyer, em “Coração verde”, Porto Alegre: Globo, 1926.

Respirando artificialmente

















O desmoronamento do que acredito
Sem alicerces estrutura nenhuma resiste
O espaço entre o que foi e não foi dito
Mentiras ou verdades nada persiste



As palavras e suas transitoriedades
Me permitem confundir e ser confundido
Mergulhado no silêncio da ociosidade
Do perigo que sou não ficarei escondido



Procuro o que todos procuram.  Expectativas
Consciente quão difícil esta busca
A lucidez de uma mente criativa
Seu brilho nem a morte ofusca.



Henrique Rodrigues Soares – O que é a Verdade?

Errante












Meu coração da cor dos rubros vinhos
Rasga a mortalha do meu peito brando
E vai fugindo, e tonto vai andando
A perder-se nas brumas dos caminhos.

Meu coração o místico profeta,
O paladino audaz da desventura,
Que sonha ser um santo e um poeta,
Vai procurar o Paço da Ventura...

Meu coração não chega lá decerto...
Não conhece o caminho nem o trilho,
Nem há memória desse sítio incerto...

Eu tecerei uns sonhos irreais...
Como essa mãe que viu partir o filho,
Como esse filho que não voltou mais!


Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas"

Arte Poética

Claude Monet


















Olhar o rio feito de tempo e água
E recordar que o tempo é outro rio,
Saber que nos perdemos como o rio
E nossas faces passam como a água.

Perceber que a vigília é outro sonho
Que sonha não sonhar, e que essa morte
Que a nossa carne teme é a mesma morte
De toda noite, que é sono, que é sonho.

Vislumbrar num dia ou num ano um símbolo
dos dias dos homens e de seus anos,
E converter o ultraje desses anos
Em uma música, um rumor e um símbolo.

Ver na morte o sonho, entrever no ocaso
Um triste ouro, sendo assim a poesia
Que é imortal e pobre. Pois a poesia
Volta sempre, tal como a aurora e o ocaso.

Às vezes durante as tardes um rosto
Nos olha do mais fundo de um espelho;
A arte deve ser como esse espelho
Que nos revela nosso próprio rosto.

Contam que Ulisses, farto de prodígios,
Chorou de amor ao divisar sua Ítaca
Tão verde e humilde. A arte é essa Ítaca
De verde eternidade, sem prodígios.

Também é como o rio interminável,
Que passa e fica e é cristal de um mesmo
Heráclito inconstante, que é o mesmo
E é outro, como o rio interminável.





Arte Poetica

Mirar el río hecho de tiempo y agua
y recordar que el tiempo es otro río,
saber que nos perdemos como el río
y que los rostros pasan como el agua.

Sentir que la vigilia es otro sueño
que sueña no soñar y que la muerte
que teme nuestra carne es esa muerte
de cada noche, que se llama sueño.

Ver en el día o en el año un símbolo
de los días del hombre y de sus años,
convertir el ultraje de los años
en una música, un rumor y un símbolo,

ver en la muerte el sueño, en el ocaso
un triste oro, tal es la poesía
que es inmortal y pobre. La poesía
vuelve como la aurora y el ocaso.

A veces en las tardes una cara
nos mira desde el fondo de un espejo;
el arte debe ser como ese espejo
que nos revela nuestra propia cara.

Cuentan que Ulises, harto de prodigios,
lloró de amor al divisar su Itaca
verde y humilde. El arte es esa Itaca
de verde eternidad, no de prodigios.

También es como el río interminable
que pasa y queda y es cristal de un mismo
Heráclito inconstante, que es el mismo
y es otro, como el río interminable.


Jorge Luiz Borges

As mãos de meu pai


As tuas mãos tem grossas veias como cordas azuis
sobre um fundo de manchas já da cor da terra
- como são belas as tuas mãos
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram da nobre
cólera dos justos…
Porque há nas tuas mãos, meu velho pai, essa beleza
que se chama simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam nos braços
da tua cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas…
Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente,
vieste alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los
contra o vento?
Ah, Como os fizeste arder, fulgir, com o milagre das
tuas mãos!
E é, ainda, a vida que transfigura das tuas mãos
nodosas…
essa chama de vida – que transcende a própria vida
…e que os Anjos, um dia, chamarão de alma.


Mario Quintana, in: Esconderijos do tempo,1980.















Então me amanheço.
devagarinho,
pouso meus raios
na tua face molhada
que aquece o meu banhar
e o teu mergulho.
espreguiço em ti,
não a calma deste dia
mas a fúria do idílio.
cabe um poema quente
entre as linhas, silêncio:
teus dedos entrelaçam
os meus.
olhares, risos e conversa rasa
pão na chapa e café
na padaria da praça.


Paula Beatriz Albuquerque

DEPOIS DA TERCEIRA SIRENE










O argumento da trama
ás vezes é mera desculpa
pr'aquela cantada fajuta
da peça se que encaixa no quebra-cabeça

Roteiro de histórias secretas
que aos poucos me revela
quando minha voz resvala na tua boca
quando uma hora é conversa pouca

Hoje a esquete perde fácil pro teu perfume
e a trilha sonora como um "Claire de Lune"
preenche os vazios e as falhas do texto

Depois da terceira sirene
logo na entrada do palco
quis beijo de cine em pleno teatro

Quis me introduzir naquele pouco espaço
Quis perder a hora e os Gols do Fantástico
Quis o breve encaixe entre os teus dedos
e deixar a conta pra bem mais adiante

Quis cada detalhe das histórias longas
e saber do enredo direto da fonte
e extrair as cores dos teus lábios
pra redesenhar cenários
e ganhar o teu aplauso
antes do último ato


Alan Salgueiro




POR ÁGUA A BAIXO













Tem gosto de lama
uma cor estranha
parece que o barro
veio dar um berro
e ecoou no copo
deu cano no povo
que foi ao fundo do poço
a água foi por água a baixo

Se elitizam os litros
vai ficar vazio
o balde da lavadeira
o equilíbrio na cabeça
vai perder sentido
abrir a torneira

É a língua sedenta
que espera o pingo
mas a lágrima caindo
é que realmente jorra
Sonho é feito corredeira
de inundar a terra d'água


Alan Salgueiro

















Ser
o cinza do simples
o simples colorido
complexo e fora do eixo.
Ter
as mãos da noite
Mãos
que acariciam meus cabelos
Que tecem um fio de solitário silêncio
na sinfonia sutil
dos desencontros dos mundos
Pulsos pulam para além das palavras,
os (des)entendimentos
abrigados nos meus eus
e comunicam o caos
aos poucos corações
que podem me ouvir.
Quero ser simples
Asa, fogo e vento
Sempre indo
Ó noite,
Me deixe ser um passarinho
Rodopiar fluxos
mergulhar em rios aéreos
E finalmente
ser livre... de mim!


Paula Beatriz Albuquerque

Soneto























Desmoronam promessas e misérias,
pedaços da palavra e da memória,
e o sol da força bruta da matéria
escorre para o ralo como escória.

Os ratos já devoram toda história,
e avançam contra os cacos do presente,
seus dentes decompondo em pó a glória
de um futuro podado na semente.

Do muito que sonhamos talvez sobre
o sopro de uma aurora que nos leva
além de nossa dor, mas não descobre

a flor que pulsa e arde em meio à treva.
Depois, virando cinza o que é graveto,
não sobrará nem mesmo este soneto.



Antônio Carlos Secchin

O Bom Pastor






















Meu pastor pelas vigílias anda
Com sua voz terna e branda
Posso ouvir seus passos na madrugada
Onde minha alma é alimentada


Do vale sombrio da morte
Resgata-me para caminhos tranqüilos
Restaura a minha frágil sorte
De ovelha cuidou-me como filho


Meu pastor nunca dorme
Bordão e cajado não descansa
Meu pastor tem raízes nobres
Apascenta-me com abastança


Ferido e sozinho nunca fico
Quanto sou seu rebanho
Pois sempre está comigo
Com seu amor sem tamanho.



Henrique Rodrigues Soares – O que é a Verdade?

GOTINHAS DE COMPANHEIRISMO

















Foi só um acidente de percurso
Ela soube deixar bem a sua marca
Na cadeira vazia a ausência assusta
A minha alegria claudicou caduca
Nem teve despedida na batida brusca
Eu tenho esperança que a paz renasça

E me deixou gotinhas de companheirismo
A borra sobre a mesa que ela achou horrível
nem era visível, terminou em abraço
No aroma que inspira a manhã de trabalho
Café e afeto forte pra minha jornada
Eu tenho esperança que ela renasça



Alan Salgueiro

Milagre


















Andar sobre as águas
Continuar calmo frente à tempestade
Esquecer da memória as mágoas
Perdoar nossa própria humanidade


Crucificar o incontido eu
Cego, enxergar o caminho.
Repartir deste todo meu
Aceitar o nascimento do espinho


Não precisa ser Deus
É preciso ter fé
Para sonhar com os céus
Para permanecer de pé.


Henrique Rodrigues Soares – O que é a Verdade?


Fé Insistente














Quando os dissabores são uma constante
E já respiras nos ares comprimidos da demência
Despido está, de tudo que fora aparência.
Afastado está, de tudo que julgas importante.


Já não choras...  Lágrimas distantes
O coração baldio de eloqüência
Dividido em pedaços da divergência
Esmiuçado pelo existir recalcitrante


Em que se apegar numa fé insistente
Limiar entre o se expor ou ficar no conforto
Entre lutar ou aceitar está morto


Esperanças no teu olhar resistente
Que na bravura que encardia
Acredita em melhores dias.



Henrique Rodrigues Soares – O que é a Verdade?

Poeta













Para isso terás de me trazer
Os anos do meu próprio devir,
Quando uma fonte de canções a nascer
Brotava em mim sem se extinguir,
Quando névoas me escondiam o mundo
E inda o botão milagres prometia,
Quando eu as mil flores colhia
Que enchiam o vale até ao fundo.
Não tendo nada, bastante tinha então:
A sede de verdade e o gosto da ilusão.
Dá-me de novo as paixões sem temor,
A funda e dolorosa felicidade,
Do ódio a força, o poder do amor:
Traz-me de volta a minha mocidade!



Dichter

So gib mir auch die Zeiten wieder,
Da ich noch selbst im Werden war,
Da sich ein Quell gedrängter Lieder
Ununterbrochen neu gebar,
Da Nebel mir die Welt verhüllten,
Die Knospe Wunder noch versprach,
Da ich die tausend Blumen brach,
Die alle Täler reichlich füllten.
Ich hatte nichts und doch genug:
Den Drang nach Wahrheit und die Lust am Trug.
Gib ungebändigt jene Triebe,
Das tiefe, schmerzenvolle Glück,
Des Hasses Kraft, die Macht der Liebe,
Gib meine Jugend mir zurück!



Johann Wolfgang von Goethe, em "Fausto". [tradução João Barrento]. Lisboa: Relógio d'Água, 1999, p. 35.

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