Aquatempo
























I
teus olhos miram invisível rio
nele
palavras que nunca disseste
nadam como peixes cegos
nadam famintas
morrendo à míngua
de tua coragem de dizê-las
no leito
um Eu nunca dito
naufraga
reverberando seus assombros
e soçobros



II
teus olhos
minguados
padecem do estio dessa tarde
o sol bebe
gota à gota
teu rio
quando a noite chegar
deita-te no chão de tua noite
colhe a chuva de teu sereno
quem sabe
tu possas chorar sobre tua madrugada
a carne orvalhada
dói menos
dói menos
menos


III
silenciosa
a memória corre
lambe as margens de teus olhos
que choram água
e sal
no rio de teus olhos
um leito seca de saudade



IV
turva água a tua
que de teus olhos
escorre nua
molha a pedra
face tua
abre-lhe fenda
funda
escura
fina janela para teu subterrâneo cais
abismo de teus Ais


V
no ventre de tua rosa tardia
nasce um tempo
de espera solidão silêncio
um tempo de plantar
no pouco de tua terra
uma semente de rio
espera pelo rio nascer
ainda que nessa espera
um frio minuano atravesse-Te
tomando-Te o corpo na angústia
que tu possas não germinar
nem crescer
nem florescer
no canto
de uma derradeira estação.



Wanda Monteiro
Postar um comentário