O Cão
















É um cão negro. É talvez o próprio Cão 
assombrado e fazendo assombração. 
Estraçalha o silêncio com seus uivos. 
A espada ígnea do olhar na escuridão 

separa a noite, abre um canal no escuro. 
Cão da Constelação do Grande Cão, 
tombado no quintal, espreita o pulo: 
duendes, fantasmas de ladrão no muro. 

O latido ancestral liberta a fome 
de tempo, e o cão, presa do faro, come 
o medo e a treva. Agita-se, devora 

sua ração de cor. Pois, louco e uivante, 
lambe os pontos cardeais, morde o levante 
e bebe o sangue matinal da aurora.


Mauro Mota
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