Esquinas























Nunca viro esquinas sem antes sentir-me estancada pelo vórtice deitado de seus descaminhos. Elas sempre investem suas pontas contra meu peito, empurrando-me para o vão das ruas. Como se me forçassem ao mimetismo de um reles cordeiro em busca do cheiro de seu rebanho.    Recuso o vão das ruas.
Acabo cravando as mãos no cimento frio e pontiagudo de sua divisa para encontrar – talvez - reminiscências ancestrais sepultadas pela turba de falsas civilidades.
Nada vejo.
Silenciosa, essa cegueira me faz dobrar as esquinas.
Sigo passos de assombros e sofreguidão plantados em pedras.
Pouso meus ouvidos sobre o cimento - para ouvir os ecos de um chão desnudado de cinza.
De um chão que  não sentiu sede nem fome.
De um chão molhado que engolia passos se alimentando de afetos.
Acabo ouvindo um uníssono canto que me leva à várzea de outrora.
Lá - costuro os caminhos cruzados. Componho uma terra povoada por pessoas sem pressa, conversando com magos e bruxas, modelando - na areia do tempo - seus mitos e deuses.
Nessa terra tudo se move e flui sem tempo ou relevo.
Nela, o espaço está contido no tempo e todo o tempo é senão o espaço mapeado por seus ecos.
Passado, presente e futuro são paralelos olhando-se no sumidouro de seus espelhos.
São linhas criptografadas na contínua invenção da vida. 
Espectros de memória aflorada em espasmos.
Os ecos desenham frames colados um a um.
A música reverbera faces, corpos, paisagens.
Tudo se divide e se funde no ritmo martelado de uma nostalgia que acorda ao frenético som buzinas e ranger de pneus.
A esquina é outra.  
Tudo volta a ser impalpável, etéreo, e carregado de impossibilidades.



Wanda Monteiro
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