ÚTEROS VITORIOSOS



















Era um útero
aparentemente infrutífero
e relatos diários
de tristeza e luto
A frustração a cada mês
Não conseguir a gravidez
Vida que não germina é morte em dobro
São os traços imaginados inconcebíveis
Quem dera fosse a dor dor parto
Só se alastravam as cicatrizes
E os tratamentos caros
E os hormônios alterando o humor
E a dor maior
As crianças ao redor crescendo
E o casal volta pra casa
cabisbaixo, em silêncio
Mas entraríamos,
segundo o anjo
num ano fecundo
e após tantas tentativas
vem à tona o anúncio:
resultado positivo!
Cada mero passo
era uma vitória
a barriga crescente
como as fases da lua
o sorriso gestante
no seu álbum de fotos
E o pré-natal
E o ultrassom
E escutar
o coração
pela primeira vez batendo
foi grande a celebração
O primeiro sapatinho
quem deu foi a prima
cor de rosa, pra menina
e os abraços apertados
do pai na barriga
que era ainda tímida
O chute
Os enjoos
Os desejos
de milhos verde
O berço e os desenhos
pra pô-los na parede
A libertação da ansiedade
foi num dia de independência
naquele Setembro
celebrou a vida
Ana Clara
vinha ao mundo
Eu conheci o sorriso
da menina bela
anos depois
nos caminhos dos trilhos
de poesia
e bicicleta
As crianças
são como os textos:
são gestações pra nascerem
mas depois que viram seres
todos eles
filhos são
A história de Vanusa e Ana,
mãe e filha
é de exemplos frequentes
poderia ser com outros nomes
tantas outras tentantes
construindo famílias
em sagas de insistência
de muita fé, apesar da dor
Não há útero infértil
que não se fecunde
quando se faz tudo certo
no tratamento do amor

Alan Salgueiro
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